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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

12.11.11

(não ter como nem onde)


a dona do chá

a voz ordena a escrita, grita. a voz ordena que seja dito, insiste. a voz, a voz, a voz. a escrita, a escrita, a escrita. tens de escrever. tens. tem de ser. não pode ser. dizer o que não deve ser dito. dizer o que se pensa. dizer as lavas do coração em chamas. escrever e dizer. dizer e falar. falar e ouvir. ouvir e ferir. ferir e sofrer. não escrever e não dizer e não falar e não ouvir e não ferir e sofrer. espremer a normalidade e vestir a certeza de que nem tudo pode ser dito, nem tudo pode ser ouvido, nem tudo. o sacrifício da normalidade. a queda das palavras. o abismo do silêncio. se nada é dito, se nada é falado, se nada é escrito, nada acontece. como explicar esta miserável convulsão do pensamento? como se faz para viver?

a voz ordena, extende, empurra. à voz, dedica-se a inacção. desobediência. revela-se a auto-mutilação em proveito da preservação dos afectos. 

devolva-se os hieróglifos e concretize-se a escrita. materializar a fala. abrir o coração. conquistar a liberdade.

19.09.11

(a queda das cores)


a dona do chá

Ela vai sozinha, de preto e perseguida pelo silêncio ensurdecedor da morte. Dantes ele ia ao seu lado. Mãos dadas. Tantos anos e ainda permaneciam de mãos dadas. Faziam caminhadas e sentavam-se num banco de jardim simplesmente a ver a vida que construíram a passar diante dos olhos. Esta era a vida. Eram dias de partilha e mãos unidas. Um só olhar. Os filhos vieram, os filhos foram cada um para o seu lado e eles dois permaneceram. Unidos. Enfrentavam cada dia como parte deste percurso em que os pés não se desviam do objectivo. Dificuldades, obstáculos e barreiras - tudo isto surgiu.

Tantas noites em branco. Tantas noites a tentar encontrar soluções. Tantas noites de amor. Tantas noites de respiração e de sussurros. Tantas noites a dormirem abraçados. Tantas noites seguidas de dias inteiros de palavras, gestos e infinitudes. Tantos dias, tantos anos.

As questões, uma a uma, caem aos seus pés: Por que foste antes de mim? Onde estão as tuas mãos? Como prosseguir se me arrancaram metade de tudo o que sou? O que poderá calar esta absurda estridência que a tua ausência me causa?

Ela vai sozinha e de preto porque todas as cores perderam o sentido. 

De longe, vejo-a. Ela atravessa a rua. Sozinha e de preto. A caminhar com as mãos a pender de estranheza. Pisa lentamente. Não tem pressa. Lentamente. Ao redor de si, as cores caem inanimadas. O céu perde a beleza das tardes de sábado. O inverno começou. O inverno da ausência que não tem fim.

16.02.11

(tu és bem-vinda)


a dona do chá

o céu está denso, carregado de nuvens e a espirrar gelo. tudo está cinzento. parece que o dia se transformou em noite e que a noite é uma continuidade do dia no mesmo tom. ajeitam-se cachecóis para afastar o frio, seguram-se guarda-chuvas para protegerem-se da chuva e abaixam-se os olhos para não pensar na solidão. é preciso correr para esquecer o vento, o céu, o frio, a chuva, os casacos, os guarda-chuvas, as ruas, as nuvens. é preciso correr, não olhar para os lados, abrir portas, subir escadas e chegar. aquele capacho na entrada - familiar e seguro - é a meta. é o limiar da fronteira. a última porta. e ela abre-se e ela fecha-se e ela responde-me "bem-vinda". tu és bem-vinda. este é o teu lar. estes são os que te amam. o vento, o céu, o frio, a chuva, os casacos, os guarda-chuvas, as ruas, as nuvens, a solidão, tudo ficou para trás. não penses mais nisto. aquece-te e descansa. descansa.

descanso.

28.12.10

(coordenadas)


a dona do chá

afasta. corre. vê. não vê. não entende. sente e não quer sentir. não sente e não compreende. escurece. esfria. horas que voam. horas que não voltam. será lua, será sol, será horizonte? olhos que doem. olhos que salgam. o mundo está demasiado longe do coração. o sentimento inexiste. a ilha é a ilha. a ilha é o lugar. a ilha é o ponto exacto no mapa. e o mapa,  este,  não contém coordenadas. uma ausência de direcção.

se fosses barco saberias o que isso significa.  se fosses mar não faria diferença. se fosses vento empurrarias o barco e encararias  o mar. olhas para cima. olhas para o céu. olhas para as tuas mãos e entendes que te transformaram em ilha. és uma ilha. estás cercado de ausências. para que serve ter um mapa?

22.12.10

(maravilhosa)


a dona do chá

O dia foi lento. A lembrança dela tem me acompanhado. Tem estado comigo. Tenho pensado bastante nela. Cada vez mais. Soa-me a sua gargalhada. Parece que ainda ouço as suas palavras. É estranho, é muito estranho. Não entendo muito isto da ausência. Farto-me de escrever sobre isto. Sobre este efeito da passagem do tempo. Parece que foi ontem. Parece que foi há um século. Parece que nada aconteceu. O peso do facto  permanece.

Parece que vejo-lhe os olhos. Atentos e inteligentes. Parece que nos engolia com a sua sabedoria.

Ela era verdadeira, íntegra e frontal. Absolutamente frontal. Isto – que hoje em dia está em desuso – agradava-me. Sempre hei-de apreciar as pessoas que são capazes de dizer aquilo que pensam de forma correcta e sem panos quentes. Aqueles que não assumem máscaras. E ela era assim. Ela emanava uma grandeza que vinha deste facto de ser verdadeira.

Sinto-lhe falta. Sinto falta dos seus conselhos. Sinto falta do seu senso de justiça. Relembro-lhe as mãos, tão calejadas e tão belas. Dedos longos e fortes. Sinto falta da sua presença, como que um farol ao qual todos recorríamos.

Assim, olho para esta quadra e sinto-lhe cada vez mais a falta. Os olhos doem-me de tanto lhe relembrar o rosto e os gestos. Tenho saudades do Natal que nunca cheguei a passar do seu lado enquanto nora. Acho que teria sido especial. Acho que teria sido inesquecível.

Perdoem-me quando não junto a minha voz àqueles que fazem humor com a figura da sogra. A minha era maravilhosa e sinto a sua falta.

25.10.10

( Um abraço cheio de nada )


a dona do chá

Um abraço. Um abraço para transmitir solidariedade. Um abraço para transmitir carinho. Um abraço para transmitir amizade. A dimensão de um abraço não se esgota na extensão de um braço. A capacidade de abraçar não é unicamente física. Num abraço colocamos um pouco de alma. Quando abraçamos estamos a indicar que os nossos ombros estão dispostos a recolher as lágrimas e a proteger a pessoa dos olhares indiscretos. Um abraço contém  a circularidade dos  afectos. Abrigamos e guardamos os sentimentos do outro. Um abraço pode ser um porto de abrigo, mas não resolve os problemas.

 

O abraço é dado. As palavras são ditas. O olhar de encontro ao olhar é afirmado. Mas, no fim, quando a pessoa roda os próprios pés e volta para o seu inferno particular  o abraço, as palavras e o olhar caem pelo chão e não servem para nada. Nada. Absolutamente nada.

 

Esta é a grande frustração de quem entende que a sua função no mundo é dar afecto, ser humano, consolar e ajudar os que sofrem. A inexpugnável frustração de ver uma vida completamente em pedaços e não poder nada de concreto. Nada. A pergunta persiste: "Deus, que posso fazer? Como posso ajudar? Como ir para casa e saber que aquela pessoa está em pedaços e eu não posso fazer nada?". A frustração e a impotência é pungente.  Visceral.

 

É preciso manter os olhos e o coração atento para ouvir. É preciso colocar os pés ao caminho e procurar respostas. Se a estrada se faz enquanto se anda, haverá em algum lugar, de alguma forma, uma solução. Uma série de soluções. Mesmo que se trate de pequenos passos.  Deus nos dá esta capacidade de olhar para cada pessoa como se fosse parte de nós. Somos responsáveis uns pelos outros. Somos responsáveis por todos aqueles que sofrem.

 

O lamento de quem realmente sofre deveria ser o alarme mental que nunca nos deveria deixar descansar. Não há tempo para descansar. Não há tempo a perder. É preciso direccionar esforços e palavras para juntar os pedaços de quem a vida resolveu quebrar.

20.08.10

( tantas outras coisas )


a dona do chá

Desencontro-me do sono. Não foi marcada a hora e a data certa, mas a sua chegada é um pressuposto. Os pensamentos agarram-se às pestanas. Seguram-lhes os movimentos e imobilizam o seu percurso natural. Dançam diante dos olhos. A mente produz e transforma em cenas e sequências o desenrolar dos acontecimentos. É desnecessário um desenho certo daquilo que é visível. O engano, quando existe, é por distracção. O desfecho é conhecido e pouco argumentável. Não é original. Antes, era esperado.

 

Desencontro-me do sono. Ou será que ele se perdeu no caminho? A luz é ténue, a noite é longa e o silêncio é um sinal estranho. Respirações colectivas e metódicas. Sonos selados pela casa. Ouço-os a todos. Ouço estas palavras junto com o ruído distante de um carro anónimo. Os pensamentos que caminham pelos corredores, sobem escadas e atravessam paredes. Atropelam-se. Esbarram-se. Enumeram-se. “Como vai ser?”, questionam sem trégua. Repetem-se: “Como vai ser?”. Soam a eco: “Como vai ser? ser?ser?ser?ser?ser?ser…

 

É possível amordaçar os ouvidos da mente fervilhante? É possível des-sentir a obviedade dos factos? É possível despejar toda a frustração dos gestos?

 

Seria um alívio silenciar o grito mudo do coração. Silenciar as palavras desnecessárias.

 

Desencontro-me do sono.

 

Desencontro-me de tantas outras coisas.

01.10.03

Estridência.


a dona do chá

O som agudo do alarme dos bombeiros voluntários atravessa, pela segunda vez, a madrugada. Ao longe já se fazem ouvir as sirenes, anunciando a desenfreada passagem. Sinto um estremecimento. Algo de errado aconteceu. Algo pode ter causado feridos. Algo pode ter gerado algum desastre. Sinto uma inquietação diante do desconhecido.