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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

16.09.15

Dos abraços e da saudade


a dona do chá

Esta saudade que arrasta o coração para o terreno da inconformidade. O que seria excelente: estar perto e dentro de um abraço apertado. 

Os dias passam. O tempo percorre esta longa estrada. Quando te dás conta, somas anos e décadas. É assim a ordem natural das coisas. Passas a ter uma série de episódios arrumados na gaveta das memórias e, meio que sem querer, passas a visitar com frequência essa mesma gaveta. Não há problema nenhum nisso. Recordar é tornar presente um sentimento de constância. 

Hoje, mais do que nunca, sei que estar presente fisicamente não significa em nada ter/receber mais afecto. Hoje, mais do que nunca, sei de onde vem o amor. Então mesmo que exista um oceano de distância, que existam obstáculos e que a vida nos afaste, mesmo assim, o amor está lá. Vivo, real e presente. E, por tudo isso, qualquer outra coisa menor, triste ou má se desvanece diante desta grande verdade.

 

29.07.13

(três)


a dona do chá

Há três meses atrás, por esta altura do dia, tu davas o teu último suspiro de vida. É verdade que a vida continuou e continua, que o sol não desapareceu nem os dias deixaram de suceder às noites. E é também verdade que, gradualmente, poucas pessoas se lembrarão de ti. 

 

Amar-te-ei para sempre não por teres sido o meu herói, mas por ter sido uma pessoa carregada de virtudes e defeitos. Por isso, humano. Tudo e todas as coisas à tua volta foram ensinamento para mim. O dito e o não dito. O que aconteceu e o que nunca chegou a acontecer. 

 

Eu nunca me esquecerei de ti.

Tu, meu pai, estás dentro de mim, do meu coração, da minha alma.

Para sempre.

27.11.12

(por causa da neblina e de um ponto luminoso escondido no céu)


a dona do chá

Acordei a pensar nas saudades que eu tenho do calor, da descontração, de usar bermudas jeans e havaianas nos pés, dos dias longos, do som das cigarras, do céu lilás dos fins de tarde, do barulho do mar, da maresia, de dançar sem pensar, do prazer da água fria, do cheiro a pinheiros e a eucalipto e a querer que a eternidade tivesse as cores e os aromas do Verão.

De repente, sinto-me irremediavelmente criança e sem as amarras do quotidiano. Jovem e livre.

19.09.11

(a queda das cores)


a dona do chá

Ela vai sozinha, de preto e perseguida pelo silêncio ensurdecedor da morte. Dantes ele ia ao seu lado. Mãos dadas. Tantos anos e ainda permaneciam de mãos dadas. Faziam caminhadas e sentavam-se num banco de jardim simplesmente a ver a vida que construíram a passar diante dos olhos. Esta era a vida. Eram dias de partilha e mãos unidas. Um só olhar. Os filhos vieram, os filhos foram cada um para o seu lado e eles dois permaneceram. Unidos. Enfrentavam cada dia como parte deste percurso em que os pés não se desviam do objectivo. Dificuldades, obstáculos e barreiras - tudo isto surgiu.

Tantas noites em branco. Tantas noites a tentar encontrar soluções. Tantas noites de amor. Tantas noites de respiração e de sussurros. Tantas noites a dormirem abraçados. Tantas noites seguidas de dias inteiros de palavras, gestos e infinitudes. Tantos dias, tantos anos.

As questões, uma a uma, caem aos seus pés: Por que foste antes de mim? Onde estão as tuas mãos? Como prosseguir se me arrancaram metade de tudo o que sou? O que poderá calar esta absurda estridência que a tua ausência me causa?

Ela vai sozinha e de preto porque todas as cores perderam o sentido. 

De longe, vejo-a. Ela atravessa a rua. Sozinha e de preto. A caminhar com as mãos a pender de estranheza. Pisa lentamente. Não tem pressa. Lentamente. Ao redor de si, as cores caem inanimadas. O céu perde a beleza das tardes de sábado. O inverno começou. O inverno da ausência que não tem fim.

14.04.11

( a distância e o amor )


a dona do chá

"são 00:42, a minha razão não me deixa escrever com a tua razão. o que se passa é o seguinte, passamos horas do nosso dia sem nos vermos, sentimos falta um do outro, mas a razão atrapalha. temos vivido alguns dias de muito "tu", de muito "eu", mas na verdade os dias que eu mais gosto são os "nós".não percebo o que se passa, será que sou eu que sou impaciente ou és tu? lá está, voltamos ao eu e tu,  e porque não somos nós? Nós somos impacientes, nós cometemos erros, nós não nos ouvimos, nós não percebemos, nós estamos tristes, nós não dormimos. soa tão menos mau assim, não soa? não estou bem, peço desculpa pelo desabafo. a conversa de hoje foi difícil... "

 

escrito por Beadriana

07.04.11

( o calor e a memória )


a dona do chá

 

Está um calor invulgar para este tempo e involutariamente lembro-me de outras paragens. Lembro-me do calor do Rio. A memória voa pelos rostos do meu irmão, da minha cunhada, sobrinhos, primas, padrinhos e amigos. A memória tem esta característica de nos fazer voar e reviver. A memória tem esta coisa boa que é fazer o coração bater mais rápido e rugir impiedosamente. A memória, por assim dizer, redimensiona a realidade. Dilata-a. Sim, há o aqui e o agora mas também somos o que já foi vivido. Esquisito, não é? O que vivemos também é nossa pertença e as pessoas com quem convivemos continuam dentro de nós. Elas também são o presente. O amor e a memória andam de braços dados. 

No dia em que tirei esta foto, estava calor como o de hoje. A memória, ao contrário do que se pensa, tem este atributo de ser palpável e reconstituível na retina do pensamento.

13.01.11

( crónicas do Rio 2 )


a dona do chá

A despedida começa no momento da chegada. Dentro daquele misto de ansiedade, expectativa e euforia da chegada, há um pequeno instante de consciência da verdade: de que a alegria da chegada em breve dará lugar a dor da despedida.  Uma verdade outrora cantada pelo Poeta. Naquele breve momento de encontro de olhares e de reconhecimento de rostos tão queridos, sabemos de antemão que haverá o desencontro.

 

Três dias antes da partida, este conhecimento torna-se tão latente e tão intenso que somos  perseguidos pelo gosto salgado da saudade. Não sabiam? A saudade terá sempre sabor a sal. Esta saudade que carrego entranhada na pele é revestida de sal e liquefaz-se constantemente.

Lentamente, os olhos prendem-se mais minutos do que seria necessário nas pessoas, nos gestos, em cada canto da casa. Então, três dias antes da partida, o abrir e o fechar de olhos é um processo de memorização. Fotografo na minha mente os azulejos que compõe uma das casas da minha infância. Absorvo cada sorriso, gargalhada, palavra e abraço. Os meus olhos prendem-se a cada pedaço e formo uma nova lembrança. E abraço e beijo e digo que amo e choro e choro desalmadamente como uma criança e sei que vou chorar ainda mais porque não quero partir e porque tenho de partir e porque partir é inevitável.  E abraços os meus padrinhos e choro. Abraço as minhas primas e choro. Abraço mais umas três ou quatro vezes porque, no fundo, não quero partir. Não quero viver pela metade. Não quero que as pessoas que eu mais amo estejam tão longe de mim.

 

Três dias antes da partida já sentia o peso.

 

Estes três dias intensificaram-se. Parecia que gritavam aos meus ouvidos.  Como vou conseguir partir? Como vou conseguir deixá-los? Os olhos percorrem freneticamente cada centímetro dos meus amados. Tiro fotografias mentais. O meu irmão a fazer café de saco. A minha cunhada com o Samuel ao colo. A Carol com olhinhos de sono. O meu irmão a rir. A minha cunhada também a rir. Os meus sobrinhos - adivinhem - também a rir. Um sorriso bonito e pleno. Um sorriso de família.  A tristeza da partida avassala-me. Sinto-me fraca. Sinto-me frágil. Sinto que o tempo me escapou pelas mãos. Penso: Não posso ficar mais um dia? Não posso prolongar esta sensação de felicidade? Sinto-me embriagada de felicidade.  Tenho mesmo de partir?

 

No dia anterior, vejo a pequena Carol com olhos de saudade e desato a chorar. Vejo a Rosi com olhos também de saudade e persisto em chorar.

 

O dia chega. As horas avançam.

 

Os meus olhos prendem-se novamente às pessoas que amo. Ajoelho no chão ao lado da minha irmã e cunhada, que já não resiste ao sabor a sal da saudade e abraço-a. Garanto-lhe que foi tudo perfeito. E foi.  Abraço e beijo e digo que amo e choro e choro desalmadamente como uma criança e sei que vou chorar ainda mais porque não quero partir e porque tenho de partir e porque partir é inevitável.  E abraço a minha irmã, abraço os meus sobrinhos, abraço o meu irmão. E choro. Abraço mais umas três ou quatro vezes porque, no fundo, não quero partir. Reafirmo,  não quero viver pela metade.

 

A última imagem que vejo são eles todos juntos acenando para nós. E a figura tão pequenina e tão linda da minha sobrinha a chorar de braços estendidos para mim. O meu coração se dissolveu. Ficou completamente aniquilado. A viagem de regresso que, por si só é longa, pareceu eterna. Não havia nada que me consolasse. Nada. Na chegada, a primeira coisa que pensei foi "parece que tudo foi um sonho".  Demorei muito a digerir a chegada e a partida e "re-chegada". Só conseguia sentir a saudade que a distância impõe. Esta vastidão…

 

Sei que formei uma nova lembrança no meu coração. Sei que vivi estes dias de felicidade. E ainda irei falar sobre isso, sobre a felicidade e sobre os dias que vivi neste retorno às origens. Sei que reforcei afectos, estreitei laços e desmistifiquei ilusões. Demorei um pouco a conseguir a me restaurar da felicidade que vivi. Não é estranho termos de nos refazer da felicidade? É muito estranho…  Vejo nitidamente que tenho recebido mais do que mereço. Que os meus olhos têm seguido horizontes indefinidos. O meu coração tem estado um pouco descompassado mas continua teimoso. Resiste em não desistir. Pelo contrário, busca prosseguir. Sempre em frente. De repente, sem mais nem menos, pode ser que voltemos a estar todos reunidos. De repente, sem mais nem menos, talvez voltemos a viver estes momentos inesquecíveis. Para já, acredito que podemos encontrar o equilíbrio entre a distância, a saudade e o sentimento. O equilíbrio é entender no que consiste o nosso papel no mundo. Não sei bem qual é o meu. Mas este é o combustível: saber que tenho um caminho a percorrer.

 

Há o início e há o fim. A saudade é intrínseca. Está algures em tudo o que vivi. Está no entretanto.

22.12.10

(maravilhosa)


a dona do chá

O dia foi lento. A lembrança dela tem me acompanhado. Tem estado comigo. Tenho pensado bastante nela. Cada vez mais. Soa-me a sua gargalhada. Parece que ainda ouço as suas palavras. É estranho, é muito estranho. Não entendo muito isto da ausência. Farto-me de escrever sobre isto. Sobre este efeito da passagem do tempo. Parece que foi ontem. Parece que foi há um século. Parece que nada aconteceu. O peso do facto  permanece.

Parece que vejo-lhe os olhos. Atentos e inteligentes. Parece que nos engolia com a sua sabedoria.

Ela era verdadeira, íntegra e frontal. Absolutamente frontal. Isto – que hoje em dia está em desuso – agradava-me. Sempre hei-de apreciar as pessoas que são capazes de dizer aquilo que pensam de forma correcta e sem panos quentes. Aqueles que não assumem máscaras. E ela era assim. Ela emanava uma grandeza que vinha deste facto de ser verdadeira.

Sinto-lhe falta. Sinto falta dos seus conselhos. Sinto falta do seu senso de justiça. Relembro-lhe as mãos, tão calejadas e tão belas. Dedos longos e fortes. Sinto falta da sua presença, como que um farol ao qual todos recorríamos.

Assim, olho para esta quadra e sinto-lhe cada vez mais a falta. Os olhos doem-me de tanto lhe relembrar o rosto e os gestos. Tenho saudades do Natal que nunca cheguei a passar do seu lado enquanto nora. Acho que teria sido especial. Acho que teria sido inesquecível.

Perdoem-me quando não junto a minha voz àqueles que fazem humor com a figura da sogra. A minha era maravilhosa e sinto a sua falta.

21.10.03

Vestígios de casa. (3)


a dona do chá

Somente após o apelo das cigarras, é que a tarde começava a cair. No ar hesitava um cheiro meio acre a mornidão. Um fim de dia se firmava na lua, tímida palidez no céu. Primeiro uma, depois duas, no minuto seguinte eram milhares de cigarras. As cantoras invisíveis, habitantes da vegetação densa. A pele respira este apelo das cigarras, de que a noite em breve vem, de que o dia deixou de ser. Lentamente.
Sentada no muro do terraço assistia a tudo isso impávida. Pés descalços a balançar, a reunir todos os detalhes. A alimentar a minha ânsia de pertença.
Se eu fechar os olhos ainda as posso ouvir, distantes. As cigarras.
Se eu fechar os olhos sei que posso transformar a saudade em presença.
A duração não importa quando se sente de forma plena.