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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

22.09.14

(Inspirar amor)


a dona do chá

Eu não tinha ilusões a seu respeito. Sabia que era tola, frívola e tinha a cabeça vazia. Mas eu a amava. Sabia que seus ideais e objetivos eram vulgares. Mas eu a amava. Sabia que era uma pessoa de segunda classe. Mas eu a amava. É cômico lembrar do quanto me esforcei para divertir-me com as coisas que a divertiam, e do quanto eu procurava esconder que não era ignorante, vulgar, maledicente e estúpido. Eu sabia o quanto a inteligência lhe fazia medo e tentei tudo para lhe dar a impressão de que era um tolo tão grande quanto os homens que você conhecia. Sabia que você somente se casaria comigo por conveniência. Eu a amava tanto que isso não me fazia diferença. Muitas pessoas, até onde pude observar, sentem uma espécie de ressentimento quando amam alguém e esse amor não é correspondido. Tornam-se furiosas e amargas. Não foi assim comigo. Nunca esperei que você me amasse nem encontrei um motivo que a pudesse levar a amar-me, pois nunca me julguei capaz de inspirar amor. Eu era grato a você por me permitir amá-la e me sentia enlevado quando, às vezes, você ficava satisfeita comigo, ou quando eu via nos seus olhos um lampejo de afeição bem-humorada. Procurei não aborrecê-la com meu amor. Eu sabia quenão tinha esse direito e sempre estava à espreita de um primeiro sinal de sua impaciência diante do meu afeto. O que a maioria dos maridos espera como um direito eu estava pronto a receber como um favor.

 

W. Somerset Maugham, O Véu Pintado

28.10.12

("Eles somos nós")


a dona do chá

‎"Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditarmos que ganhamos se os outros perderem. Os outros não são outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós."


Somos a Primeira Pessoa do Plural, José Luís Peixoto



13.10.10

(HILLSONG CONFERENCE EUROPE 2010 #2)


a dona do chá

Leio num artigo que "o olho é um órgão par, situado em cada uma das órbitas, no nível que separa o crânio da face". Permite-nos ter percepção, reconhecimento e localização de algo. A sua função primordial é captar luz que, através de uma série de processos gera reconhecimento no nosso cérebro.  Posso afirmar que o olhar é uma captação de uma série de sucessivas luzes? Esta ideia fascina-me: dos nossos olhos serem inundados de luz que se liga directamente ao nosso cérebro criando uma série de imagens. A luz inunda-nos e gera significado. A luz liberta-nos da escuridão.

 

Nestes dias, em Londres, pensei muito nisto. Eu fixava toda aquela profusão de cores e jogo de luzes e pensava nisto. Ouvia aquelas mensagens desafiadoras e acutilantes e fervilhava.  Reflectia sobre a capacidade de ver e de perceber o que vemos, de como a vida segue um rumo inesperado e de como todas as coisas fluem de maneira a nos fazer enxergar algo. Mesmo quando não queremos ver.  Melhor dizendo, pensei como Deus se revela de diferentes maneiras.

 

Tantas coisas começaram a fazer sentido. À volta da minha cabeça voavam inúmeras peças de puzzle. Sentia que pegava cada peça com as mãos e as encaixava uma nas outras. Ali, mesmo diante dos meus olhos. A verdade, de uma forma tão simples, tão pura.  Eu não enxergava. A luz entrava nos meus olhos mas não faziam ligação ao meu cérebro. Senti que Deus fazia ali comigo como um oftalmologista, que vai experimentando lente por lente até chegar aquela que me permitirá perceber, reconhecer e localizar as coisas e o sentido delas. Na realidade, é isso que Ele tem feito. Ele tem me ensinado a ver.

 

Ao ouvir um dos oradores referir o versículo já tão conhecido "e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo. 8:32) senti-me atingida. Liberto, oposto de preso. Não se trata apenas "de usar óculos". Também se trata de nos libertarmos do que de alguma maneira nos aprisiona. Acreditem, todos temos algo em nós que nos puxa para baixo. Há sempre algum aspecto na nossa vida ou no nosso quotidiano que não nos quer deixar ver a luz.  E não me refiro a pessoas. Refiro-me às nossas próprias inseguranças.

 

Eu confesso que eu tenho alguns aspectos que me prendem. Alguns medos. Medo de arriscar. Medo do imprevisto. Medo de voar demasiado alto. Tenho receio pelo amanhã. Sou insegura e pouco auto-confiante. Preciso sempre de pára-quedas. Naqueles momentos, em que as luzes eram estrelas pontilhadas e enquanto o chão tremia com a intensidade dos passos, eu entendi. A minha "graduação de lente" foi ajustada. Entendi que o medo é natural mas não deve ser dominante. Apesar desta insegurança inata há a tenacidade. Entendi que tudo pelo que tenho passado é para me preparar para algo. Não sei bem o quê.

 

Vi cair o peso e o cansaço.

 

Não posso deixar de estar grata pelo "ajuste". Espero que seja sempre um processo contínuo. Tomo com  os dedos  uma expressão de Vinícius de Moraes e escrevo que quero estar sempre "em construção".