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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

19.01.15

(cada vez melhor)


a dona do chá

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(Imagem The Happy Page)

O ano de 2014 foi excelente. É tão bom poder abrir o coração e dizer isso sem qualquer vestígio de hesitação. Excelente, no sentido de ter sido "muitíssimo bom". Foi o primeiro ano de crescimento do meu baby H. e, a cada mês que passa, parece que o coração vai explodir de tanto amor. Nunca pensei nesta possibilidade, do coração quase transbordar amor e, ao mesmo tempo, de medo. O amor nos fragiliza e nos fortalece. Esta dualidade é um grande mistério, uma grande aventura e um constante motivo para manter um sorriso nos lábios. Por vezes, eu e o G. parecemos dois pais babados e em estado de graça permanente. Parecemos dois bobões completamente apaixonados pelo nosso baby. 
Foi o ano em que completamos 10 anos de casados. Permitam-me o cliché: parece que foi ontem! Os anos têm passado rápido e, sinceramente, não sei o que seria da minha vida sem ele. Não sei mesmo... Sem ele, jamais conseguiria atravessar "o deserto do mundo"*1. Com ele, tudo faz sentido. Todas as coisas. 

2014 foi o ano de rever pessoas amadas, queridas e totalmente parte do coração: meu irmão, meus padrinhos e primas. Meu irmão, mais pelo início do ano. Tão bom ter, durante algum tempo, os meus dois irmãos por perto. Só faltram mesmo a minha querida cunhada R. e os meus queridos sobrinhos C. e S. para alcançar a perfeição. Faço um scrapbook mental de cada instante, de cada risada e de cada olhar. Este sentimento de estar em casa, porque a sensação de lar está mais relacionado "com quem estamos" e não "onde estamos".

Fortaleci amizades virtuais, quase todas ligadas ao mundo da leitura e dos livros. E é tão bom poder expressar ideias e leituras e ser compreendida! É algo simples, eu sei; mas essa simplicidade preenche-me. De igual forma, sinto que sou retribuída na estima. E, para variar, é bom dedicar amizade e ser retribuída. 

Decidi que 2014 foi o último ano que joguei amor no vazio. Em que dediquei amizade e recebi desaforo, desfeita, humilhação e descaso. Eu acredito no amor mas não vou desperdiçá-lo.

Consegui atingir o meu desafio Goodreads de ler no mínimo 50 livros. Foi tão bom! A minha cabeça e o meu coração andaram bem mais arejados. 

Em 2015 quero: concentrar-me cada vez mais nos dois homens da minha vida, nos meus amigos de longe e de perto, na minha família do outro lado do Oceano, ler mais, escrever mais, passear, rir e ser menos ansiosa. Olhar para a vida e dizer: estou aqui! A sensação que eu tenho é de que a vida é tão breve, tão fugidia, tão frágil... por que perder tempo? 

Sr. 2015, preste bem atenção, sigo em frente. Estou de peito aberto, exposto e sensível para o que tiver de viver. 

*1 "Para atravessar contigo o deserto do mundo", poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.

05.09.14

(Três Corações | 4)


a dona do chá

Recta final

 

O terceiro trimestre foi fisicamente cansativo mas tranquilo. Me senti mais lenta e pesada; por outro lado, tudo tinha de ser ultimado e preparado para a chegada do nosso pequeno Hugo.

A ligação estabelecida nesta fase é fantástica. Foi a fase em que os movimentos do nosso bebé se tornaram mais evidentes. Dentre as várias coisas que aconteceram durante a gravidez, desta jamais esquecerei: o G. a falar para a minha barriga. Dizia "tenho tanta curiosidade de conhecer-te Hugo!" e "quero tanto ver como és!". E quando ele colocava a mão sobre a minha barriga, parecia que o pequeno Hugo corria em direcção do calor do pai. E, passados nove meses, ainda o Hugo corre em direcção ao pai, de sorriso aberto. 

Algumas vezes, surgia a agitação de pensar se conseguiríamos ter tudo pronto a tempo e horas e, felizmente, tudo foi se encaixando. É um mistério. Conforme a data se aproximava, o medo era uma realidade para mim. Sim, é verdade, um grande e terrível medo. "E se não correr bem?". "Serei capaz?". O G. foi o meu grande alicerce. Nestas coisas estou convicta de que o amor tem esta centelha de parceria. Não seria capaz de enfrentar tudo sem ele ao meu lado. Todas as minhas angústias esbatiam-se ao longo das suas palavras tranquilizadoras, sábias e optimistas. Ele é o grande presente que Deus colocou na minha vida. E agora, com o Hugo, são dois grandes presentes.
Outro aspecto que me conferiu grande tranquilidade: aulas de preparação de parto. Psicológica e fisicamente também foram fundamentais. Nunca me hei-de esquecer o papel que a Enfª Fátima teve neste processo. Penso que o nosso parto não teria sido o mesmo sem esta prévia preparação. E, por isso, além de estar grata à Deus por essas aulas, também agradeço à Ele pela ajuda da minha amiga I. que indicou este curso. 

 

05.09.14

(Três Corações | 3)


a dona do chá

Impressões sobre a gravidez

 

Dos três trimestres, este foi o mais difícil. Muitas coisas a aprender, a serem feitas e resolvidas e algumas chatices. Digamos que não dei muita sorte com o acompanhamento médico que tive e ter diabetes gestacional também foi um acréscimo pouco positivo. Esta foi a fase em que comecei a ler e a tentar entender tudo o que me aguardava durante este processo. A realidade é que não fazia ideia como uma gravidez é um processo transformacional em todos os sentidos. Sabem a famosa frase "Tudo muda" - é um clichê, mas totalmente verdadeiro. Na realidade, nesta fase comecei a constatar que os preparativos indicavam isso, mudança. Mudança psicológica, física e logisticamente falando. Isto porque além de toda a revolução emocional, ainda tínhamos os detalhes de exames e consultas; e, começar a preparar a casa para receber um bébé. Então, foi uma fase acelerada. 

O melhor desta fase, a semelhança da fase anterior, foi descobrir o sexo do nosso feijãozinho (que era a maneira como o chamávamos). Sempre tínhamos imaginado que nós seríamos pais de uma menina e até tínhamos um nome escolhido. Se fosse menina seria Clara. Mas não tínhamos pensado em nenhum nome de menino e eu me sentia incomodada. Faltavam duas semanas para a segunda ecografia e surgiu em mim uma insistência em escolher nome de menino. Fartei-me de chatear o G. porque eu comecei a teimar que o nosso feijão seria mesmo um menino. O G. sugeriu Hugo, devido ao seu significado. Foi amor imediato. Sei que para grande parte das pessoas isto não tem qualquer relevência, o significado do nome. Para nós, era fundamental. A partir do momento que o nome ficou definido, a tranquilidade tomou conta de mim.

 

Hugo: Significa “coração”, “mente”, “espírito” ou “o pensador”, “inteligente”. Tem origem no germânico Hugi, derivado do elemento hug, que significa “coração, espírito, mente”. Há autores que também o traduzem como “o pensador” ou “inteligente”.

14.07.14

(Três Corações | 2)


a dona do chá


Impressões sobre a gravidez


O 1º trimestre passou a voar. Andei letárgica. Todos falavam, davam parabéns, conselhos e os habituais "deves fazer isso, deves fazer aquilo".

Tudo isto encarei como sendo uma postura normal. Todos queriam ajudar. Esta foi a parte mais positiva de toda a gravidez, o facto das pessoas quererem ser solícitas e ajudar no que fosse preciso. 

A realidade é que eu estava completamente aérea. Não parecia real, nem a morte nem a vida.

O grande momento destes primeiros três meses foi a primeira ecografia. Esperava chegar lá e ouvir o médico dizer que tinha havido um engano e que eu não estava grávida. Ou então apenas ver um pontinho indistinto. Mas não. Lá estava ele, um feijãozinho bem nítido, bem desenhado e, aos meus olhos, um desenho perfeito. Ouvir-lhe o coração a pulsar. Aos meus ouvidos foi um som ensurdecedor. Um som de vida. E algo dentro de mim desatou a correr pela garganta acima. Chorei. Chorei descontroladamente. De mãos dadas com o G. que também chorava. 

Foi, sem dúvida, um momento de viragem. Foi a partir daquele momento que passei a sonhar.

06.04.14

(Três Corações | 1)


a dona do chá

Impressões sobre a gravidez

- O começo -

 

Cinco dias antes do meu pai morrer, descobrimos que estávamos grávidos. Há um ano atrás, neste mesmo mês. A fazer bem os cálculos, a concepção teria acontecido por estes dias: fim de Março ou início de Abril. Pode-se dizer que a vida é curiosa e até um tanto irónica já que num mesmo mês concebemos, descobrimos a gestação e, por último, o meu pai partiu. Olhando bem para tudo o que aconteceu, enxergo o quão improvável seria isso acontecer. Haverá um valor estatístico para esta improbabilidade?

Sinceramente, eu só conseguia pensar "Porquê agora?". Não podia adivinhar que o meu pai morreria em tão pouco tempo embora soubesse que o seu quadro apontasse para a inevitável partida.  Mas nestas coisas a racionalidade só existe nos factos e não queremos aceitá-la tal e qual ela é; pelo contrário, queremos a racionalidade apenas para podermos entender os "porquês" que nos dilaceram o coração. Andava de braços dado com esta interrogação como se este abraço pudesse resolver tudo. Mas a verdade, crua e irrevogável, é que a única resposta que existe para o insistente "Porquê?" é um incontornável "Porque sim".

Deus dá, Deus leva. A vida dá, a vida leva - esta verdade simples é muito difícil de ser entendida.

Ainda hoje interrogo-me sobre o que eu poderia ter feito para o meu pai viver mais um dia e o porquê do meu pai não ter vivido para ver e conhecer o neto. As coisas não funcionam do jeito que queremos. Podemos e devemos sonhar, planear e lutar; mas certo é de que a vida não é prisioneira dos nossos desejos e anseios. Há tanta coisa que nos ultrapassa. Tanta coisa…

Quando eu olhei para a inscrição no teste, o resultado "grávida" já era uma realidade. Eu, intimamente, sabia; mas não queria saber. Ali, sozinha, com o teste nas mãos, facto confirmado, senti os meus lábios se torcerem num sorriso involuntário, incontrolável, transbordante. Não somos mais os dois que se tornaram um. A matemática da existência baralhou-se e agora somos dois que se tornaram um mas que vieram a ser três. Três corações.

"Tenho três corações a bater dentro de mim… Três…".

Três corações e um começo. 

05.04.14

(José Wilker)


a dona do chá

Quem segue as redes sociais encontrou hoje a notícia da morte deste grande actor.

Para mim, pelo menos, ele era grande. Quem cresceu a assistir o seu trabalho é quase impossível ficar indiferente.

Quando constato que ele tem a idade da minha mãe... ainda fico mais chocada.

Guardo-o num lugar muito especial do meu coração dedicado às personalidades que admiro.

02.01.13

(365 palavras [1] auto-domínio)


a dona do chá

autodomínio *
(auto- + domínio) 

s. m.
O mesmo que autocontrolo.

autocontrolo |ô| 
(auto- + controlo) 

s. m.
Controlo que um indivíduo tem de si mesmo. =AUTODOMÍNIO, AUTOCONTROLE

Plural: autocontrolos |ô|.

Num tasco, a clientela de Natal é totalmente diferente da clientela de Ano Novo. A do Natal tem aquela sonolência tranquila e descansada. Há os solitários de ombros desamparados. Eventuais famílias a vagar, sem horário a cumprir. Desfrutam o dia sem pressas. A clientela de Ano Novo, por sua vez, é irritadiça e áspera. Alguma excepção resta para os que estão inertes na sua própria alegria artificial. Riem por tudo e por nada. Tudo é felicidade engarrafada. Sobretudo, o que predomina é a inaptidão para o auto-domínio e um meio caminho para o caos. A faísca está alí a falar-lhes ao ouvido. A esgueirar pelo pescoço acima, um sussurro serpenteia palavras e incentivos. Não é somente a verdade que vem à tona com o vinho, também a covardia. Alguns desafiam a certeza dos significados e acreditam que este tipo de covardia é uma forma de coragem. 

 

Ontem, eu gostaria de ter servido uma refeição de auto-domínio, nem que fosse para uma só pessoa. Que alguém pudesse ter mastigado grandes garfadas de ponderação. Quem me dera que a resolução de Ano Novo das pessoas fosse ter controle dos próprios actos e das suas próprias frustações. O mundo que nos cerca não é um ser abstracto, não somos unicamente números numa tabela. Um corpo que cai, desmorona e estilhaça tudo à volta não é uma subtração. Antes, é a multiplicação de gestos ásperos em cadeia. Duas mãos, apenas duas mãos, não chegam para colmotar as consequências. 

 

Secretamente, enquanto caminhava para casa, repisava o dia e pensava que no primeiro dia do ano o meu desejo recaía numa enorme necessidade de ver um pouco de lucidez no meio do caos. 

 

--

 

*Dicionário Priberam da Língua Portuguesa