Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

05.01.16

Chego aos 40.


a dona do chá

Posso dizer que começo a sentir a passagem do tempo. Sim, é verdade, chego aos 40 anos. Apenas 40. Já quatro décadas ficaram para trás e com elas alguma história de vida. Apenas 40... Porque será que sinto ter alcançado um patamar diferente? O que muda realmente a partir de agora? Ocorrerá uma misteriosa e insondável aceleração do tempo? Uma amiga querida hoje me disse algo simples e fantástico: "você chegou àquele momento da vida em que já tem um passado mas ainda tem um futuro pela frente". E isto tocou-me profundamente porque nesta caminhada vivemos uma história com várias histórias dentro - páginas e páginas e páginas e páginas. E nunca se sabe muito bem onde vamos parar e o que vai acontecer a seguir. Mas algo já está escrito, algo meu. A estrada está diante dos olhos, os pés em posição de caminhar e o coração a queimar de vida. Ainda há muito a viver e ver.

Chego aos 40 com algumas perdas, ausências mas também com a vida bem mais completa, plena e verdadeira. Sou completamente grata por tudo que Deus tem concedido, pelos meus amores Gualter e Hugo, pelos meus pais, família e amigos.

Chego aos 40 com vontade de festejar e celebrar a vida! Sobretudo não perder tempo com o que não vale a pena. E, como outra amiga querida disse, gritar bem alto "uhu!!!!!!".

16.09.15

Dos abraços e da saudade


a dona do chá

Esta saudade que arrasta o coração para o terreno da inconformidade. O que seria excelente: estar perto e dentro de um abraço apertado. 

Os dias passam. O tempo percorre esta longa estrada. Quando te dás conta, somas anos e décadas. É assim a ordem natural das coisas. Passas a ter uma série de episódios arrumados na gaveta das memórias e, meio que sem querer, passas a visitar com frequência essa mesma gaveta. Não há problema nenhum nisso. Recordar é tornar presente um sentimento de constância. 

Hoje, mais do que nunca, sei que estar presente fisicamente não significa em nada ter/receber mais afecto. Hoje, mais do que nunca, sei de onde vem o amor. Então mesmo que exista um oceano de distância, que existam obstáculos e que a vida nos afaste, mesmo assim, o amor está lá. Vivo, real e presente. E, por tudo isso, qualquer outra coisa menor, triste ou má se desvanece diante desta grande verdade.

 

05.01.12

(de repente, 36)


a dona do chá

Um dia de sol em véspera de Reis. Um dia de sol, quase primaveril. As pessoas andavam pelas ruas devagar, bem devagar. Absorviam cada centímetro de sol. Acredito que queriam carregar dentro delas aquele vestígio de calor. O sol tem esta capacidade de tornar-nos mais felizes e mais dispostos a viver. Posso estar enganada, mas pareceu-me que as pessoas que passavam na rua sorriram mais hoje do que ontem. Eu sorri também.

 

Um dia de sol e sorrisos ambulantes. Um dia de sol e, de repente, chego aos 36. Não posso deixar de dizer que olhar para a janela e ver o sol a emoldurar os meus olhos fez-me feliz. Escancarei as janelas e fiquei de rosto em encontro ao abraço da manhã. Apetecia-me tirar o avental do trabalho, sair pela porta fora e abordar a primeira pessoa que me aparecesse pela frente e dizer: “Bom dia, o meu nome é Cátia, faço hoje 36 anos; não acha que hoje está um dia esplendoroso?”. Apetecia-me assim conversar do nada e viver do nada e sorrir do nada e dançar do nada. Não apenas porque alcanço os 36 anos de idade, não apenas porque tratava-se de um dia de sol radiante, não apenas porque eu tenho pensamentos insanos, não apenas porque derreto-me diante de sorrisos plenos; não. Apenas porque encarar a beleza das pequenas coisas traz contentamento. Sobretudo porque viver o dia, cada dia, com encantamento é fundamental. Às vezes, viver a vida devia ser como num musical: cantar alegrias e tristezas e prosseguir a dançar diante do futuro. É verdade que os dias sombrios surgiram e surgem, mas não quero pensar nisso. Não quero lamber feridas. Rejeito a astúcia da tristeza. Aos 36, escolho abraçar o bom da vida e expurgar o que de menos bom aparece.

 

Um dia de sol nos dedos, nos olhos, nas mãos e no coração. De repente, é assim. São 36 anos e uma grande vontade de agarrar os dias nas mãos. O meu coração tem andado acelerado, demasiado acelerado. Mas, de repente, é assim mesmo. Tem que ser. Viver intensamente. Viver.

 

No sistema solar do meu universo pessoal tenho um sol, vários planetas, milhares de estrelas e número imensuráveis de satélites. O que seria da minha vida sem eles? Todos tornam o meu dia em algo primaveril e soalheiro. Todos eles fazem estes 36 anos valerem a pena.

 

De repente, em véspera de Reis, faço 36 anos. O dia esteve ensolarado. O coração acelerado. A beleza das pequenas coisas passou por mim... eu vi, vivi e viverei.

14.11.11

(verdade inequívoca)


a dona do chá

um raio, um lampejo, uma explosão, uma queda, uma pancada. qual seria a palavra certa para definir a tomada de consciência da inaptidão? a verdade, quando surge diante dos olhos, é inequívoca. a verdade, quando revelada, não há como voltar atrás. a verdade é a maior das ingratidões: não permite que se adormeça em devaneios. 

 

um: quem pensas que és?

outro: ninguém. não sou ninguém.

14.04.11

( a distância e o amor )


a dona do chá

"são 00:42, a minha razão não me deixa escrever com a tua razão. o que se passa é o seguinte, passamos horas do nosso dia sem nos vermos, sentimos falta um do outro, mas a razão atrapalha. temos vivido alguns dias de muito "tu", de muito "eu", mas na verdade os dias que eu mais gosto são os "nós".não percebo o que se passa, será que sou eu que sou impaciente ou és tu? lá está, voltamos ao eu e tu,  e porque não somos nós? Nós somos impacientes, nós cometemos erros, nós não nos ouvimos, nós não percebemos, nós estamos tristes, nós não dormimos. soa tão menos mau assim, não soa? não estou bem, peço desculpa pelo desabafo. a conversa de hoje foi difícil... "

 

escrito por Beadriana

16.09.10

( espécies raras )


a dona do chá

Secam-se as palavras na garganta. Sílaba por sílaba, entaladas. Sufoca-se a cada letra. A impossibilidade de verbalização é desértica. A impossibilidade de se fazer entender é opressiva. A impossibilidade de se ser, de expandir-se. Há uma ruptura em pequenas partículas de racionalidade o que afasta qualquer possibilidade de coesão dos sentimentos. As palavras fogem com a velocidade do incêndio. Queimam-se ideias, arrasam-se vidas e dizimam-se imensidões. O incêndio alastra-se e espécies raras de carinho são exterminadas pelo poder da palavra dita e da incompreensão da visão parcial.

 

A água pura. A água refrescante. A água torrencial do entendimento. A capacidade de ouvir e a capacidade de discernir levam ao fim do fogo posto. As letras, as sílabas, as palavras ganham vida e sobem pela garganta. Empoleiram-se ansiosas por voar. As palavras, relíquias da linguagem, unem-se para sair do deserto, para se afastarem do incêndio e para alcançarem estatuto de construtoras de futuro. Edificadoras.

 

Beije-se as palavras com a mesma paixão de quem beija a amada. Admita-se apenas como incêndio o ardor da palavra amor.

22.07.10

(identidade)


a dona do chá

quando ouço a voz a dar a notícia fico por instantes estática. ouço a voz e sei, antes mesmo de saber, que não será uma boa notícia. pouco a pouco, temos desaparecido. gradualmente a vida segue o seu rumo. inclusive a morte. diante dela, como é mais do que sabido, não há nada a fazer. os corredores e as esquinas da memória se movimentam dentro de mim. quase posso ouvir as risadas e as correrias com as minhas primas e primos. estou aqui, sentada e assisto a tudo. alguns tios brincam connosco, inclusive este, que partiu. o que mais lembro deste tempo são justamente as gargalhadas, os sorrisos e os risos. não tínhamos tudo, mas tínhamos esta relíquia: conviver em família com gargalhadas, sorrisos e risos. e era tão bom... lamento que a distância não me tenha permitido vê-lo mais. gostaria de ter dado um último abraço, um último beijo, uma última gargalhada. sei que ele foi cuidado e acarinhado. sei que ele viveu talvez mais do que teria sido possível. mas, por vezes, esta ausência e esta distância impedem-me de viver e vivenciar tantos momentos.

 

tempo. memória. passado. infância. família. saudade.

 

depois ouvi a minha voz a dar a notícia ao meu pai. ele ficou estático. ele ouviu a minha voz e soube, antes mesmo de saber, que não seria uma boa notícia. pouco a pouco, temos desaparecido. gradualmente, a vida segue o seu rumo. inclusive a morte. diante dela, como é sabido, não há nada a fazer. ele percorreu as suas lembranças, disse "ele era mais novo do que eu" e "quantos somos agora?" e "mas como é que aconteceu?". então, como se eu estivesse a consolar uma criança tentei explicar da melhor maneira. tentei explicar sem explicar muito. tentei amenizar. e ele, com olhos de tempo e distância, ficou parado. calado. cabisbaixo. olhar perdido. olhar que já viu o mundo e que já viveu muitos dias. no fundo, ele lamenta que a distância não o tenha permitido ver o seu irmão mais vezes. ele gostaria de ter dado um último abraço, um último beijo, uma última gargalhada. ele sabe que o irmão foi cuidado e acarinhado. sabe também que ele viveu talvez mais do que teria sido possível. mas gostaria de ter-lhe dito, nem que fosse só uma última vez: "rapaz, tem juízo...pensa na tua vida". o meu pai, com rugas e olhos perdidos de menino, chora pela ausência.

 

e permito-me agora, sozinha, chorar pelo tio que partiu. permito-me contar quantos somos ainda. permito-me amar intensamente. permito-me saborear a saudade como fosse uma água fresca. permito-me bebê-la até ao fim. permito-me lamentar a ausência, a distância e os tempos estranhos. permito-me recordar cada momento da minha infância e dos meus dias em terras onde a cigarra canta com mais força. onde o sol lavra cada pedaço do chão. permito-me fortalecer as minhas raízes que me sustentam e que fazem de mim parte de quem eu sou.

 

permito-me amar o meu passado e a minha identidade.

07.07.10

(vestígios de casa)


a dona do chá

Não há intervalos. Não existem tréguas. O sol escorre pela manhã e invade cada centímetro do chão. Apropria-se das paredes. Percorre as árvores. Aloja-se nos grãos da areia da praia. Este calor não é algo desconhecido. Faz lembrar outros dias. Faz lembrar outros cheiros e outros aromas e outras paragens. Faz lembrar dias de sol da dimensão do nosso olhar em direcção ao horizonte. Faz lembrar dias em que o sol era o nosso hóspede constante. O pó da terra se misturava ao calor da pedra do solo, as cigarras guerreavam entre si e a árvore lá no alto da colina era a promessa de dias futuros e desconhecidos. O sol como companheiro de brincadeiras e sonhos. Subia-se o muro de casa e equilibra-se no seu estreito caminho. O sol fazia do corpo a sombra e caminhava no mesmo passo. A grande amendoeira seria o seguro amparo em caso de queda. Lá caminhava-se. Estes dias fazem-me relembrar outros dias. O sol, o céu, o cheiro acre, o cheiro intenso, o cheiro a terra. A chuva após o sol, o sol após a chuva. As noites sufocantes. As noites de lua bem aberta, mas com a lembrança do regresso do sol. As noites silenciosas e gritantes. Nunca mais se adormece. Nunca mais é dia. Os dias, estes dias, os dias passados, os dias futuros. Não há intervalos. Não existem tréguas. O sol, o calor, o cheiro, as cigarras, a terra, as árvores, as nuvens, os dias, os sonhos, a chuva. Tudo se repete, tudo se refaz, tudo se renova. A colina ficou nestes vestígios de casa. Mas o horizonte vai além. Além do olhar. Além do sol.