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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

28.09.10

(moroccan rose)


a dona do chá

Uma semana dedicação. O tempo passou a voar. Escapou-se-me. Eu queria tanto agarrá-lo com as duas mãos. Eu queria tê-lo junto a mim com o valor de perdurar os momentos vividos. Estar com quem se ama invoca a questão da durabilidade do tempo e os seus hiatos de ausência. Esta última, devo precisar, acaba por ser inevitável. É o que sentimos após a partida: a ausência. A nostalgia de recordar bons momentos, de rir em conjunto e de partilhar sentimentos. Mas tudo tem uma duração delimitada. Tudo encontra um fim.

 

Pareço tão boba que sorrio sozinha ao recordar. Ninguém compreende a minha patetice. Mas ao embrenhar-me nesta nuvem de nostalgia e nesta inevitabilidade do fim, reafirmo a minha certeza de que após o fim vem o recomeço.

 

Mal posso esperar pelo reencontro.

07.07.10

(vestígios de casa)


a dona do chá

Não há intervalos. Não existem tréguas. O sol escorre pela manhã e invade cada centímetro do chão. Apropria-se das paredes. Percorre as árvores. Aloja-se nos grãos da areia da praia. Este calor não é algo desconhecido. Faz lembrar outros dias. Faz lembrar outros cheiros e outros aromas e outras paragens. Faz lembrar dias de sol da dimensão do nosso olhar em direcção ao horizonte. Faz lembrar dias em que o sol era o nosso hóspede constante. O pó da terra se misturava ao calor da pedra do solo, as cigarras guerreavam entre si e a árvore lá no alto da colina era a promessa de dias futuros e desconhecidos. O sol como companheiro de brincadeiras e sonhos. Subia-se o muro de casa e equilibra-se no seu estreito caminho. O sol fazia do corpo a sombra e caminhava no mesmo passo. A grande amendoeira seria o seguro amparo em caso de queda. Lá caminhava-se. Estes dias fazem-me relembrar outros dias. O sol, o céu, o cheiro acre, o cheiro intenso, o cheiro a terra. A chuva após o sol, o sol após a chuva. As noites sufocantes. As noites de lua bem aberta, mas com a lembrança do regresso do sol. As noites silenciosas e gritantes. Nunca mais se adormece. Nunca mais é dia. Os dias, estes dias, os dias passados, os dias futuros. Não há intervalos. Não existem tréguas. O sol, o calor, o cheiro, as cigarras, a terra, as árvores, as nuvens, os dias, os sonhos, a chuva. Tudo se repete, tudo se refaz, tudo se renova. A colina ficou nestes vestígios de casa. Mas o horizonte vai além. Além do olhar. Além do sol.

09.03.04

( VESTÍGIOS DE CASA - 5 )


a dona do chá

As noites eram infinitas e negras. O céu imenso, pontilhado de outras iluminuras. Acordar a meio da madrugada era um convite para algo desconhecido. Ficava quieta. Ouvia os estranhos sons da noite. Um batuque distante, esmorecido. Um grilo. Um carro, algures - mas não era algo usual. A respiração dos habitantes da casa. Todos tranquilos, esquecidos de si mesmos. Depois, eu acabava por tomar coragem. Levantava da cama e dava passos incertos pela casa. Tinha sempre a sensação de que ia encontrar algo. Nunca soube bem o quê. Nunca aconteceu.

06.03.04

( ENTRE NÓS, OCEANO - 8 )


a dona do chá

A proximidade é um conceito estranho. Tão certo é a distância que nos separa quanto o amor que nos aproxima. Quando voltamos a nos rever, a amizade demonstra estar intacta. É um abraço apertado, é uma vontade de repor continuidades, é um não querer mais nos separar. Começámos a conversar como se nunca tivéssemos parado. É verdade que suscitámos algumas recordações. [não concebemos distinção entre passado e presente.] Então, cismo comigo mesma, que a proximidade é esta força que nos empurra a cultivar um sentimento. Deve-se lutar para o deixar intacto, resguardado das agressões do mundo. Quando ouço o som metalizado da tua voz através do telefone, sinto-te presente. Quando vejo o céu trespassado de leveza cor-de-rosa, aproxima-se de mim o entardecer de outros tempos. Recosto-me na cadeira. Alí, na varanda. Olha para a rua, mas vejo outra rua. Consigo visualizar-me a correr. Tu também lá estás. E tua irmã. Risos, joelhos feridos, brincadeiras. Tremo, aqui faz frio.

05.03.04

Da condição de ser estrangeiro.


a dona do chá

Ao ingressar na Universidade, no dia de apresentação de uma cadeira, estavam todos os alunos do curso num anfiteatro e a "Sra. Dra." - com toda a pompa e circunstância da sua posição de "superioridade" - dirigia-se a cada aluno a indagar o nome, a idade, o lugar de origem e (destaque-se o requinte da questão) se o curso tinha sido a primeira opção na candidatura. Quando chegou a vez de uma aluna, ela respondeu automaticamente, sem grandes detalhes. Então, a "Sra. Dra." diz-me assim: "Ahhh... - pausa - és brasileira...", e com olhos esbugalhados pergunta: "E você já fala e escreve bem o português?". Com os olhos arregalados de estupefacção, a aluna ficou longos segundos siderada. Então respondeu: "Sim, penso que irá compreender perfeitamente o meu português...".