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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

17.03.15

(breves)


a dona do chá

Este está a ser um inverno rigoroso para o baby H. e, por consequência, também para mim. Volta e meia, lá ficamos doentes. Estação que desgosto, o Inverno é cada vez mais um tempo que anseio que passe depressa. Está quase...  

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Preciso ler e escrever mais... Sinto que estou a desaprender. Preciso comprar uma boa gramática e praticar. 

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Quando vejo as magnólias, nasce em mim uma enorme alegria. As cores suaves, o perfume pelo ar, os dias maiores e ensolarados - uma quase Primavera.

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O tempo desaparece. Perco a noção dos dias e das horas. Trabalho e casa, casa e trabalho. Sinto a distância entre o que gostaria fazer dos dias e a realidade. Nunca resgatamos o tempo que perdemos.

 

30.04.12

("está sempre um mágoa do que não se viveu")


a dona do chá

"B: Escreve-se então sempre e apenas sobre aquilo que se viveu?

 

WK: Ou também sobre aquilo que não se viveu e se gostaria de ter vivido. Muitos autores escrevem sobre viagens que não fizeram, guerras nas quais não participaram ou sentimentos que não têm. Mas por trás disso está sempre uma mágoa do que não se viveu, ou a vontade de fazer determinada experiência. "

 


Cada tragédia tem o seu lado cómico: entrevista com Wladimir Kaminer | Ler na íntegra aqui

(Fonte: @cvazmarques | twitter)

16.11.11

(partilhas)


a dona do chá

Ontem, recebi um email de uma pessoa querida deste mundo virtual dos blogues.

Ela partilhou comigo este texto (que abaixo transcrevo).

Emocionou-me porque me revi em cada palavra.

Emocionou-me o gesto dela.

Obrigada, Paula. 

 

 

"Também escrevo para escapar à realidade dos dias, ao cinzentismo da profissão e à formalidade emproada do mundo em que me movo. Escrevo para infantilizar as horas e colorir a existência. Escrevo porque me recuso a ceder à ideia de que só as palavras retorcidas encontram eco em quem as lê, porque a confiança, o humor, a solidariedade, o Deus em que acredito, a beleza das pequenas coisas, a bondade dos gestos, a surpresa dos acasos têm o dom de me alegrar mais que uma garrafa de vinho, mesmo que seja alentejano, do bom, daquele que o meu pai abre às segundas-feiras quando reunimos a família à volta da mesa do jantar e eu tenho as minhas miúdas penduradas em mim a puxarem um "oh tia", cada uma para seu lado. Escrevo porque não cedo, porque a escrita pode ser depurante mas também pode ser encantatória, uma fotografia desfocada em tons suaves que apetece reter no ecran. Escrevo porque já todos falam de tudo o resto e eu já não tenho paciência para os ouvir, ou ler, quanto mais escrever. Escrevo porque prefiro mil vezes uma oração a um lamento, uma declaração de amor a um queixume traído, um sorriso a um esgar de desprezo solidário, uma nota de esperança a um panfleto revolucionário, um beijo nas mãos a um piropo usado lançado do passeio, uma frase bem escolhida a um lugar comum que já é dito em silêncio antes sequer de ser pronunciado.

E sim, às vezes é também por tudo isto que eu não escrevo."  

 

Texto de Leonor, do blogue "Outro Sentido"

31.10.03

Fresta.


a dona do chá

Os meus pés esfriam em contacto com o chão. A casa está silenciosa. Os dedos percorrem as teclas. O dedilhar interrompe a quietude. A chuva cai incessante. De onde estou, olho para a janela e vejo a cortina entreaberta. Uma fresta de rua está intacta, do lado de fora. Vejo as gotas a atravessarem a lâmpada do poste de luz. Parecem rabiscos de crianças feitos num papel amarelecido.

20.10.03

Vestígios de casa. (2)


a dona do chá

O corredor é o tronco esguio que se estende através do olhar. É ele que guia a criança na travessia da memória. Nas laterais há braços, diria galhos, que remetem para uma ideia de continuidade. Bem no meio, encontro uma criança. Para frente ou para trás, ela consegue ver as várias possibilidades de saídas e entradas. Não toma nenhuma direcção. Quer entender o que é "tomar uma direcção". Ela senta-se no chão. Cruza as pernas e apoia os cotovelos em cima dos joelhos. Os olhos voltados para cima. Entenda-se, não estão fixos no tecto.
Expectante.
Olhos em prece.

13.10.03

Parte de um todo.


a dona do chá

A chuva é uma fina cortina dentro da noite. Quase imperceptível. Pouco tangível, mas presente. Ao fundo, estende-se o silêncio. Com uma manta nos ombros, ela tateia a aspereza do vidro e empurra a janela. A mão pousa no chão da varanda e num movimento lento desenha formas incertas. O pó mistura-se com a água da chuva formando um novo elemento, uma tinta natural. Ganha vida, mas se desfaz logo de seguida...

13.10.03

Vestígios de casa.


a dona do chá

A porta aberta é uma tela desdobrada para o outro mundo. Eu passeio neste outro mundo; mas ele não me pertence, nem eu faço parte dele. Talvez, isso explique porque não me sinta em casa. Há uma sensação de "estrangeiriedade" que paira sobre os gestos recolhidos. Uma economia de passos. Um andar não pronunciado.

13.10.03

Fora dágua.


a dona do chá

A dada altura perdeu a capacidade de distinguir o som e o alheamento. Encostada ao balcão do café, olha ao redor. O local estava apinhado. Tanto som. Tanto desperdício de som. Televisões, música, vozes descoordenadas. Algumas delas alteradas, outras perdidas. Discussões acaloradas, disparos de opiniões e teorias. Ninguém ouve o que outro diz, cada um preocupado com a sua opinião pessoal. Eles parecem não notar aquela amálgama de ruídos. Estão completamente alheios e indiferentes. Ouvem apenas o fluir da sua própria voz...
"O que faço aqui" - ela pensou.

O que é mais insuportável: o excesso de disforme ruído ou o alheamento?

30.09.03

Outras pequenas batalhas.


a dona do chá

Ela acompanhou a escuridão da noite até ao primeiro sintoma do nascer do dia. Ouviu as gotas de chuva a cair do céu e viu-as escorrerem nas ruas, carros, janelas, telhados. Esteve toda a noite sentada no chão do quarto, a olhar pela janela, a olhar para o céu, a olhar para a chuva. Sentiu frio, mas não se incomodou.
Deixou-se estar. Deixou-se ir. Deixou-se pensar.
Os problemas não se resolvem num dia, numa noite e, decidamente, não duram toda vida. Um dia encontra-se a solução para tudo. De seguida, surgirão mais problemas. E o ciclo retoma o seu movimento. Assim é a vida.
Ela ainda estava sentada no chão quando vê o dia se erguer, começa a ver os primeiros traços de vida a passar na rua. O carro do padeiro a fazer a entrega de pão no café em frente. Um provável trabalhador com rosto ensonado apertando as golas do casaco para afastar o frio. E a chuva que ainda caía.
Permaneceu ali. Ao seu lado, a rádio tocava numa altura que só ela conseguia ouvir.
Deixou-se estar. Deixou-se ir. Deixou-se pensar.
Faltava pouco... O dia para ela também estava prestes a despontar.