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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

17.03.15

(concorrência)


a dona do chá

Eu, que nada entendia de bebés e de crianças, vejo-me de repente submersa neste mundo cheio de cor e estrelinhas... A verdade, é que o meu baby desenvolveu uma recente paixão pela Xana Toc Toc e, devo dizer, é uma concorrente desleal: canta bem e é bonita. Ele sorri, ele suspira, ele faz olhinhos, ele manda beijinhos... Não sei se vou suportar...

 

05.09.14

(Três Corações | 4)


a dona do chá

Recta final

 

O terceiro trimestre foi fisicamente cansativo mas tranquilo. Me senti mais lenta e pesada; por outro lado, tudo tinha de ser ultimado e preparado para a chegada do nosso pequeno Hugo.

A ligação estabelecida nesta fase é fantástica. Foi a fase em que os movimentos do nosso bebé se tornaram mais evidentes. Dentre as várias coisas que aconteceram durante a gravidez, desta jamais esquecerei: o G. a falar para a minha barriga. Dizia "tenho tanta curiosidade de conhecer-te Hugo!" e "quero tanto ver como és!". E quando ele colocava a mão sobre a minha barriga, parecia que o pequeno Hugo corria em direcção do calor do pai. E, passados nove meses, ainda o Hugo corre em direcção ao pai, de sorriso aberto. 

Algumas vezes, surgia a agitação de pensar se conseguiríamos ter tudo pronto a tempo e horas e, felizmente, tudo foi se encaixando. É um mistério. Conforme a data se aproximava, o medo era uma realidade para mim. Sim, é verdade, um grande e terrível medo. "E se não correr bem?". "Serei capaz?". O G. foi o meu grande alicerce. Nestas coisas estou convicta de que o amor tem esta centelha de parceria. Não seria capaz de enfrentar tudo sem ele ao meu lado. Todas as minhas angústias esbatiam-se ao longo das suas palavras tranquilizadoras, sábias e optimistas. Ele é o grande presente que Deus colocou na minha vida. E agora, com o Hugo, são dois grandes presentes.
Outro aspecto que me conferiu grande tranquilidade: aulas de preparação de parto. Psicológica e fisicamente também foram fundamentais. Nunca me hei-de esquecer o papel que a Enfª Fátima teve neste processo. Penso que o nosso parto não teria sido o mesmo sem esta prévia preparação. E, por isso, além de estar grata à Deus por essas aulas, também agradeço à Ele pela ajuda da minha amiga I. que indicou este curso. 

 

05.09.14

(Três Corações | 3)


a dona do chá

Impressões sobre a gravidez

 

Dos três trimestres, este foi o mais difícil. Muitas coisas a aprender, a serem feitas e resolvidas e algumas chatices. Digamos que não dei muita sorte com o acompanhamento médico que tive e ter diabetes gestacional também foi um acréscimo pouco positivo. Esta foi a fase em que comecei a ler e a tentar entender tudo o que me aguardava durante este processo. A realidade é que não fazia ideia como uma gravidez é um processo transformacional em todos os sentidos. Sabem a famosa frase "Tudo muda" - é um clichê, mas totalmente verdadeiro. Na realidade, nesta fase comecei a constatar que os preparativos indicavam isso, mudança. Mudança psicológica, física e logisticamente falando. Isto porque além de toda a revolução emocional, ainda tínhamos os detalhes de exames e consultas; e, começar a preparar a casa para receber um bébé. Então, foi uma fase acelerada. 

O melhor desta fase, a semelhança da fase anterior, foi descobrir o sexo do nosso feijãozinho (que era a maneira como o chamávamos). Sempre tínhamos imaginado que nós seríamos pais de uma menina e até tínhamos um nome escolhido. Se fosse menina seria Clara. Mas não tínhamos pensado em nenhum nome de menino e eu me sentia incomodada. Faltavam duas semanas para a segunda ecografia e surgiu em mim uma insistência em escolher nome de menino. Fartei-me de chatear o G. porque eu comecei a teimar que o nosso feijão seria mesmo um menino. O G. sugeriu Hugo, devido ao seu significado. Foi amor imediato. Sei que para grande parte das pessoas isto não tem qualquer relevência, o significado do nome. Para nós, era fundamental. A partir do momento que o nome ficou definido, a tranquilidade tomou conta de mim.

 

Hugo: Significa “coração”, “mente”, “espírito” ou “o pensador”, “inteligente”. Tem origem no germânico Hugi, derivado do elemento hug, que significa “coração, espírito, mente”. Há autores que também o traduzem como “o pensador” ou “inteligente”.

14.07.14

(Três Corações | 2)


a dona do chá


Impressões sobre a gravidez


O 1º trimestre passou a voar. Andei letárgica. Todos falavam, davam parabéns, conselhos e os habituais "deves fazer isso, deves fazer aquilo".

Tudo isto encarei como sendo uma postura normal. Todos queriam ajudar. Esta foi a parte mais positiva de toda a gravidez, o facto das pessoas quererem ser solícitas e ajudar no que fosse preciso. 

A realidade é que eu estava completamente aérea. Não parecia real, nem a morte nem a vida.

O grande momento destes primeiros três meses foi a primeira ecografia. Esperava chegar lá e ouvir o médico dizer que tinha havido um engano e que eu não estava grávida. Ou então apenas ver um pontinho indistinto. Mas não. Lá estava ele, um feijãozinho bem nítido, bem desenhado e, aos meus olhos, um desenho perfeito. Ouvir-lhe o coração a pulsar. Aos meus ouvidos foi um som ensurdecedor. Um som de vida. E algo dentro de mim desatou a correr pela garganta acima. Chorei. Chorei descontroladamente. De mãos dadas com o G. que também chorava. 

Foi, sem dúvida, um momento de viragem. Foi a partir daquele momento que passei a sonhar.

06.04.14

(Três Corações | 1)


a dona do chá

Impressões sobre a gravidez

- O começo -

 

Cinco dias antes do meu pai morrer, descobrimos que estávamos grávidos. Há um ano atrás, neste mesmo mês. A fazer bem os cálculos, a concepção teria acontecido por estes dias: fim de Março ou início de Abril. Pode-se dizer que a vida é curiosa e até um tanto irónica já que num mesmo mês concebemos, descobrimos a gestação e, por último, o meu pai partiu. Olhando bem para tudo o que aconteceu, enxergo o quão improvável seria isso acontecer. Haverá um valor estatístico para esta improbabilidade?

Sinceramente, eu só conseguia pensar "Porquê agora?". Não podia adivinhar que o meu pai morreria em tão pouco tempo embora soubesse que o seu quadro apontasse para a inevitável partida.  Mas nestas coisas a racionalidade só existe nos factos e não queremos aceitá-la tal e qual ela é; pelo contrário, queremos a racionalidade apenas para podermos entender os "porquês" que nos dilaceram o coração. Andava de braços dado com esta interrogação como se este abraço pudesse resolver tudo. Mas a verdade, crua e irrevogável, é que a única resposta que existe para o insistente "Porquê?" é um incontornável "Porque sim".

Deus dá, Deus leva. A vida dá, a vida leva - esta verdade simples é muito difícil de ser entendida.

Ainda hoje interrogo-me sobre o que eu poderia ter feito para o meu pai viver mais um dia e o porquê do meu pai não ter vivido para ver e conhecer o neto. As coisas não funcionam do jeito que queremos. Podemos e devemos sonhar, planear e lutar; mas certo é de que a vida não é prisioneira dos nossos desejos e anseios. Há tanta coisa que nos ultrapassa. Tanta coisa…

Quando eu olhei para a inscrição no teste, o resultado "grávida" já era uma realidade. Eu, intimamente, sabia; mas não queria saber. Ali, sozinha, com o teste nas mãos, facto confirmado, senti os meus lábios se torcerem num sorriso involuntário, incontrolável, transbordante. Não somos mais os dois que se tornaram um. A matemática da existência baralhou-se e agora somos dois que se tornaram um mas que vieram a ser três. Três corações.

"Tenho três corações a bater dentro de mim… Três…".

Três corações e um começo. 

05.04.14

(Três Corações | impressões sobre a maternidade | 0)


a dona do chá

(imagem retirada daqui)

 

Há alturas em que não se consegue deixar de escrever e noutras parece ser impossível. Não por falta de vontade. Simplesmente permanece assim um frémito de viver absolutamente imponderável. Uma incapacidade de colocar em linhas o que parece ser um turbilhão. Ao longo do ano que passou até agora passei muitas vezes pela necessidade de esmiuçar o que os meus olhos estavam a ver e o que o meu coração estava a sentir. Amiúde conseguia enxergar as letras e as palavras a caírem como gotas de chuva enquanto caminhava. Sem saber explicar bem, eu vestia um impermeável e abria o guarda-chuva - mesmo em dias ensolarados - e deixava-as tombarem no chão. Conseguia ler os textos que perseguiam os meus pés. Porquê não os levantei do chão? Porquê não lhes estendi a mão? Porquê não os carreguei nos braços?

Aparentemente, mostro-me impiedosa com os meus próprios pensamentos e sentimentos; como se renegasse o parentesco às minhas próprias palavras.

Não foi um acto de crueldade. Acabei por pretender uma pausa fundamental. Compreendo agora que a necessidade de viver, de ver, de depurar, de sentir, de entender e de não entender, de estar à margem era superior à acção de registar cada palavra que me surgia diante dos olhos. Às palavras a dançarem diante dos meus olhos e aos textos que pulsavam na minha mente, pedi gentilmente que esperassem com paciência. Tudo tem o seu tempo e hora adequada.

Às 37 semanas e 2 dias de gestação estava de pé, de guarda-chuva aberto, com as letras a pingarem aos meus pés. É verdade, que tinha algumas impressões registadas e alguma vontade de transcrevê-las. Pequenas frases. Mas somente agora fecho o guarda-chuva, dispo o impermeável e sinto-me preparada para regressar ao conforto de escrever: expressar o que tem sido a perda do meu pai e a alegria da maternidade.

13.07.13

(breves)


a dona do chá

Acordar, trabalhar e dormir cansada. A vida tem sido tão igual apesar da realidade ter sido modificada. Confesso-me cansada, com uma pontada de desânimo. O ano vai a meio e vai ser mais um ano sem descanso. Férias, então, nem pensar. Novamente. 

 

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Também confesso-me cansada dos discursos pessimistas, "isto vai cá uma crise" e "isto a tendência é piorar". De igual forma, já causa fastio o discurso optimista "tudo se vai resolver" e "não podemos peder a esperança". E um discurso realista? Seria pedir muito? 

 

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Sinto saudades descomunais do meu pai. Nunca pensei que seria assim. O pior é que não posso falar disto com ninguém porque parece fraqueza de carácter ainda não ter "ultrapassado" a sua morte. Apanho-me a chorar sem motivo. Dou por mim à espera de vê-lo virar a esquina. Parece que antecipo ouvir-lhe a tosse. Um dia ele disse-me que eu sentiria a falta dele. Ele tinha toda a razão. Doença maldita que come o ser humano por dentro até que ele perca toda a identidade e todo sinal de vida. Doença maldita que o levou. Doença maldita.

 

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O meu/minha baby é a coisa mais preciosa que me aconteceu este ano; está a crescer dentro de mim e que me faz entender realmente o que significa a palavra medo. Medo que aconteça algo, medo de que venha a falhar, medo de tudo que possa prejudicá-lo/a. Espero ansiosamente por conhecê-lo/a. 

 

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O meu pai nunca conhecerá o meu/minha baby. O meu/a baby nunca entenderá completamente quem foi o avô.