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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

18.11.03

Perfeição irrepetível.


a dona do chá

« No círculo imperfeito do seu universo óptico a perfeição daquele movimento oscilatório formulava promessas que a unicidade irrepetível de cada onda condenava a não serem mantidas. Não havia maneira de fazer parar aquela sucessão contínua de criação e destruição. Os seus olhos procuravam a verdade descritível e regulamentada de uma imagem certa e completa: acabavam, pelo contrário, por correr atrás da móvel indeterminação daquele vaivém que embalava e escarnecia de qualquer olhar científico. »

Alessandro Baricco, Oceano Mar

05.11.03

Tipos.


a dona do chá

A única pessoa que realmente me ensinou alguma coisa, um velho que se chamava Darrell, dizia sempre que existem três tipos de homens: os que vivem diante do mar, os que se aventuram mar adentro, e os que do mar conseguem voltar, vivos. E dizia: vais ver que surpresa quando descobrires quais são os mais felizes. 

Alessandro Baricco, Oceano Mar

14.10.03

"Talvez tu saibas".


a dona do chá

No peitoril da janela de Bartleboom, desta vez estavam sentados dois. O menino habitual. E Bartleboom. As pernas a pender, no vazio. O olhar a pender, sobre o mar.
- Ouve, Dood...
Dood, chamava-se o menino.
- Visto que estás sempre aqui...
- Mmmmh.
- Talvez tu saibas.
- O quê?
- Onde é que tem os olhos, o mar?
- ...
- Porque os tem, não é?
- É.
- E onde raio estão?
- Os navios.
- Os navios o quê?
- Os navios são os olhos do mar.
Fica estarrecido, Bartleboom. Desta não se tinha mesmo lembrado.
- Mas há centenas de navios...
- Tem centenas de olhos, ele. Não quereis por acaso que se desenrasque com dois.
De facto. Com todo o trabalho que tem. E grande como é. Faz sentido, tudo isso.
- Pois é, mas então, desculpa...
- Mmmmh.
- E os naufrágios? As tempestades, os tufões, todas essas coisas... Por que razão havia de engolir os navios, se são os seus olhos?
Tem um ar até um pouco irritado, Dood, quando se vira para Bartleboom e diz
- E vós... vós nunca fechais os olhos? 

Alessandro Baricco, Oceano Mar

02.10.03

Viagem.


a dona do chá

 Para que ninguém possa esquecer o quanto seria bom se, por cada mar que nos espera, houvesse um rio, para nós. E alguém - um pai, um amor, alguém - capaz de pegar na nossa mão e de encontrar esse rio - imaginá-lo, inventá-lo - e na sua corrente pousar-nos, com a leveza de uma única palavra, adeus. Sem dúvida, seria maravilhoso. Seria doce, a vida, qualquer vida. E as coisas não magoariam, mas aproximar-se-iam trazidas pela corrente, poder-se-ia primeiro aflorá-las depois de tocá-las e só no fim deixar-se tocar. Deixar-se ferir, também. Morrer por isso. Não importa. Mas tudo seria, finalmente, humano. Seria suficiente a fantasia de alguém - um pai, um amor, alguém. Ele saberia inventar um caminho, aqui, neste silêncio, nesta terra que não quer falar. Caminho clemente, e bonito. Um caminho daqui até ao mar.


Alessandro Baricco, Oceano Mar