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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( FICÇÕES )

22.03.05, a dona do chá
A vida por um chapéu

Casara ainda menina. Com um homem meia dúzia de anos mais novo que seu pai. Toda a família se opusera. As primas zombaram da velhice do noivo. A mãe implorou que, ao menos, noivasse mais um tempo. O pai refugiou-se num silêncio amargurado. A sua única filha. Herdeira de todo o seu amor. Mas Dalila insistiu. Seis meses depois de conhecer Artur, numa festa de oficiais da marinha, à qual o marido de uma prima pertencia, Dalila entrava na igreja de véu e grinalda com flor de laranjeira.


Durante mês e meio o casal viajara pela Europa fora. Paris, Londres, Berlim, Viena. Em casa, os pais de Dalila recebiam postais relatando o quanto tudo era bonito, os sítios que visitavam, os restaurantes, os cafés, os museus e monumentos. Nas palavras da filha os pais encontraram alguma tranquilidade, as primas inveja. Sentimentos de pouca dura. De regresso da lua-de-mel, Artur comprara uma moradia na zona mais chique da cidade. Dalila decorou-a a gosto, sem objecções económicas por parte do marido.

A vida social de Artur mantinha Dalila ocupada, ora com a organização de jantares ora com a compra de vestidos e chapéus, sem os quais não podia sair de casa. Uma pequena exigência de Artur que entendia que de cabeça descoberta andavam as galdérias. Dalila acedera e sem dizer nada ao marido oferecera dois chapéus à mãe. Para quando saíssem os quatro. Coisa que raramente acontecia, a menos que Artur não pudesse evitar. Não gostava dos sogros.

Quando Dalila engravidou, Artur fê-la prometer que não ia sozinha visitar os pais. A pretexto dos perigos que ao andar na rua poderia correr. Os pais poderiam visitá-los no primeiro Domingo de cada mês, se quisessem. E assim foi. Durante nove meses Dalila pouco saíra de casa. Artur queria-a descansada e passou a frequentar sozinho os eventos sociais para que era solicitado.
As visitas das primas tinham diminuído à custa de uma botique que, com a ajuda dos maridos, tinham aberto na Baixa. Dalila sentia-se sozinha. Pior: inútil. Em tempos, quisera entrar em sociedade no negócio, mais para ter uma ocupação, mas o marido opusera-se. Dalila não contestou. E para se compensar da frustração sentida decidiu que era chegada a hora de ser mãe. Esperou que o nascimento do filho trouxesse um novo fôlego ao casamento. Enganou-se.
Artur não era pai de muitos carinhos. Durante seis anos o menino conhecera apenas os afectos de Dalila. Que se apegara ao filho como o pecador à cruz. A chegada da idade escolar veio cortar o cordão umbilical. Indiferente aos rogos e lágrimas da esposa, Artur inscrevera o filho no Colégio Militar, na capital. Dalila não suportou a dor. Afrontou o marido, ao por em causa o seu direito de agir sobre o filho contra a sua vontade, e a resposta foi dura. Nódoas negras no corpo e secura nas palavras: “A porta da rua é a serventia da casa.” Dalila afrouxara. Sabia que se o deixasse não mais veria o filho. Chegou a pensar refugiar-se em casa dos pais, mas teria de lhes dar conhecimento do sucedido e quis poupá-los à vergonha. Desabafou com as primas que a aconselharam a pedir ao marido que a enviasse uns tempos para as termas. Artur tratou de tudo e Dalila saiu da cidade para um período de repouso.

Contavam-se já mais de trinta dias sobre a ausência de Dalila quando Artur a foi buscar com uma má notícia. O falecimento do pai. De repente, sem que nenhuma doença o afectasse. Sabendo da insatisfação que iria causar ao marido Dalila ousou pedir autorização para a mãe ir viver com eles. Mas a senhora antecipou-se à recusa do genro e rejeitou a oferta. Dalila retomou as visitas quase diárias à mãe.

Artur distanciava-se em afazeres profissionais. Envelhecera bastante e a sua fisionomia assemelhava-se mais à da sogra do que à da esposa. Dalila condescendera de novo à maternidade para diminuir a solidão. Agravada com a notícia de que Artur preparava a mudança do casal para o Ultramar, onde iria ocupar um cargo de maior prestígio na hierarquia militar. A gravidez viera atrapalhar os seus planos. Ao invés de partirem todos juntos. Artur optara por embarcar à frente, deixando Dalila até que parisse na companhia da mãe e o filho no colégio até que pudessem embarcar os três. Dalila nada pudera fazer para contrariar a decisão do marido, não fora tida nem achada. A sua tristeza era grande. Iria perder a mãe, a pouca companhia de quem muito lhe queria, das primas. Pudesse pedir a Deus que a gravidez durasse mais tempo e Dalila não pouparia rezas nem velas, nem os joelhos.

Corria o sétimo mês de gravidez. Dalila estava em casa a bordar o enxoval do bebé quando um oficial da marinha lhe batera à porta. Trazia notícias das colónias. Artur fora mordido por uma cobra. Dalila estava viúva. Ao saber do infortúnio do marido a alegria foi tanta que nem mesmo o seu coração de cristã a pode conter. Saiu apressada de casa. Aligeirou os passos o quanto pode. Só quando entrou em casa da mãe notou que tinha saído sem chapéu.

Andreia Lobo, A Página da Educação

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