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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

(CHÃO VERDE, PELA ÚLTIMA VEZ)

10.12.04, a dona do chá

- a chegada




Causou-me uma certa estranheza ver que o chão estava ainda mais brilhante do que da última vez. Foi polido ou encerado. Quem entrasse no início no corredor, via aquela longa travessia reluzente. Era um grande contraste, dado que a parte interna do edifício era um tanto obscuro. Não havia grande claridade. Nem se viam muitas pessoas pelo corredor. O que também era um pouco estranho.




Apesar de entendermos que muitas coisas não têm solução, não entrevíamos que os nossos passos naquele indevido chão reluzente não ocorreriam muitas mais vezes. Vivíamos um dia de cada vez, tentando não pensar na tristeza que já nos dominava a todos. Foi um telefonema, no início da noite, que nos arrancou do estado de esperança.




O corredor parecia demasiado longo para conter a ansiedade de ver o rosto ansiado. Não bastasse o frio que fazia naquela região montanhosa, todos estávamos com frio por dentro. O frio do medo. O frio da antecipação da perda. O frio que nos domina as entranhas e não nos larga. Queremos fugir, mas ao mesmo tempo, queremos ficar.




O quarto estava numa semi-escuridão. A senhora – mais combalida que da última vez que a vimos – respira com sofreguidão. O seu peito sobe e desce numa rapidez imprevista. Uma luta travada entre a vontade de respirar e o esforço que isso implicava. Os filhos lhe cercavam a cama, e a senhora abria os olhos muito lentamente, fixavam-se no filho, pareciam presos dentro dos olhos dele. Talvez já com saudades do filho. Talvez a se lembrar de toda a sua infância e seu crescimento. O filho tentava disfarçar a sua tristeza com um olhar repleto de amor. Mas a senhora conhece bem o seu filho. Sabe tudo o que ele pensa e sente. E, de alguma forma, para além da sua dor física, sente-se triste. A senhora tentava falar, mas a sua fala saía incerta e difusa. Os filhos e o marido a entendiam. Era espantoso, mas a entendiam. Havia alturas em que ficava agitada, e o filho acariciava o seu cabelo (já um pouco grisalho) e o seu rosto e dizia “descansa, mãezinha” e ela lhe dizia “ó filho, já muito tenho eu descansado”.




Sei que todos nós pensávamos “já muito tens lutado”…

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