Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

(a long december)

31.12.12, a dona do chá

Não terei saudades de ti, Dezembro. Não, mesmo. Não terei saudades desta tua tendência para o erro, para o vazio e para a solidão. 

Não terei saudades de ti, Dezembro. Mas, é certo que a cada ano que passa, guardo a expectativa de que me surpreendas e de que sejas melhor. Esta esperança é a minha luta interna de rebelião contra o teu fel. Reconheço a tua generosidade para muitas pessoas e isto, de certa forma, consola-me. Saber que pessoas queridas vivem, através de ti, momentos de realização e alegria realmente confere-me uma certa satisfação.  Mas o nosso caso é diferente. Conhecemos bem um ao outro e sabemos que para haver entre nós real harmonia muita coisa teria de mudar.

Sinto-te Dezembro, como um longo inverno. Um primeiro passo de despedida. Um alheamento. Sinto-te na forma de um vento norte, que corta e entrelaça-se em línguas de adeuses. A verdade é que, sinto-te Dezembro. Um passo derradeiro antes do reinício. 

Quando nos reencontrar espero que possamos nos sentar a mesa e, olhos nos olhos, possamos conversar sobre isso. Sobre este relacionamento tão doloroso e tão hostil que partilhamos. Não quero que permaneças eternamente  prisioneiro de minhas próprias frustrações ou o mensageiro de amarguras. Não. Porque, sabes, eu não acredito nas coisas definitivo. Pode ser que um dia, num ano qualquer, os nossos olhares se cruzem quando Novembro estiver de partida, sorriremos um para o outro e talvez possamos nos reconcialar de todos os anos de desacordo e frieza. Pode ser que o entendimento venha a ser mútuo. Eu queria realmente olhar para ti, Dezembro, beijar-te os olhos e abraçar-te com carinho. Dizer-te palavras de avaliação. Sentar-me ao teu lado, no chão, e recordar cada dia do ano, cada hora e minuto, bom ou mau, sorrir e chorar contigo. De costas contra a parede da sala, poderíamos olhar pela janela e ver Janeiro chegar. Dar-te-ia as mãos e esperaria com serenidade. Com olhos iluminados pelo sol fraco de um inverno qualquer.

É verdade. Não terei saudades de ti, Dezembro. Especialmente este ano. O meu coração, contudo, é um órgão de fogo e de diferentes intensidades. Então, não me resigno. E este, talvez, seja o meu pior defeito. Apesar de toda esta mágoa contra ti, cultivo a esperança do dias futuros serem diferentes. Busco por gentilezas e gestos delicados. Busco que daqui por diante nós dois sejamos pessoas melhor. Tu e eu, áspero Dezembro.

Levanto as golas do casaco, aperto os passos e o cachecol, caminho pela chuva e me afasto de ti. Não olho para trás. Nunca olharei para trás. Quando te vir novamente, quero encontrar-te de frente. E quando capturar o teu olhar, não será mais um adeus.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.