Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( Sobre o que é realmente importante #1 )

21.08.10, a dona do chá

O meu conceito de amizade é um pouco esquisito. À minha semelhança, talvez.

 

Eu não consigo chamar de “amigo” uma pessoa que conheço há coisa de dias. Há o sentimento de empatia e até podemos sentir amizade por alguém, mas isso não o torna necessariamente um amigo. Aprendi, desde cedo, a escolhê-los a dedo. Tenho alguns. Bons amigos. São pessoas que têm atravessado comigo, perto e longe, várias etapas. Alegrias e tristezas. E, depois tem isto: amigo que é amigo não se distancia com a distância. Mesmo longe, um faz morada no pensamento do outro. Acrescento ainda que há a troca e o aprendizado entre amigos.

 

Por que estou a deslindar o meu conceito de amizade? É um mote para falar de uma grande amiga em específico, a A.L.. Há mais de dez anos que nos conhecemos na universidade. Éramos colegas de turma, mas os nossos caminhos aprofundaram-se meio no imprevisto. É impossível conhecê-la e não apaixonar-se por ela. Tudo o que ela faz e pensa é sempre marcado pela intensidade de sentimentos. É uma pessoa marcada pela paixão. Verdadeira, autêntica e despida de conveniências. Ela é uma pessoa incapaz de virar a cara para quem sofre. Literalmente. Vocês não estão a entender. Mesmo literalmente. Lembro-me dela esvaziar a carteira a dar dinheiro para pessoas que pediam na rua. Lembro-me dela sentar-se do lado de um sem-abrigo e lhe perguntar a sua história de vida. Lembro-me dela dar abrigo, dormida e comida para pessoas sem recursos que, de alguma forma, cruzavam com ela. Não é a caridade “bonitinha” e bem comportada que fica bem na fotografia. Ela simplesmente não fica indiferente diante de todo aquele que sofre, do que é abandonado, do que tem fome. Ela não julga pela aparência. Ela não tem medo que alguém cheire mal ou que esteja sujo. Ela não vira a cara à pobreza. Antes, presta a ajuda que pode dar preocupando-se com a dignidade de quem ajuda. Ela senta-se e ouve. Ouve. Comove-se. Revolta-se. Por vezes, eu sei, apetece-lhe partir tudo. Apetece-lhe insultar qualquer pessoa que é capaz de passar e de ver e de fingir que não vê e o “estou-me-maribando-desde-que-a-minha-vidinha-siga-o-seu-rumo-cômodo-e-sem-chatices”. Apetece-lhe esbofetear as faces daqueles que estão alienados.

 

Eu vi muitos episódios. Muitas coisas. Muitas horas que ela dedicou a ajudar pessoas anónimas e esquecidas. Vi-a  perder o sono por não poder ajudar mais. O que eu pretendo aqui não é louvar esta minha amiga. Ela não precisa disso, de louvores. Nem de reconhecimento. Ela sabe o que significa para mim e, da mesma maneira, ela também sabe o que eu penso dela. O que eu pretendo é partilhar algumas de suas histórias. Eu prometi-lhe que ia fazer isso para que, mesmo numa dimensão limitada, a escrita fosse uma alerta à indiferença. Dentre as várias doenças que assolam a nossa actualidade esta é uma das mais nocivas: a indiferença. Come-nos a alma e deixa que os outros sejam devorados

 

Falo dela essencialmente para falar sobre o que é realmente importante: o próximo.