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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

22.07.10

(identidade)


a dona do chá

quando ouço a voz a dar a notícia fico por instantes estática. ouço a voz e sei, antes mesmo de saber, que não será uma boa notícia. pouco a pouco, temos desaparecido. gradualmente a vida segue o seu rumo. inclusive a morte. diante dela, como é mais do que sabido, não há nada a fazer. os corredores e as esquinas da memória se movimentam dentro de mim. quase posso ouvir as risadas e as correrias com as minhas primas e primos. estou aqui, sentada e assisto a tudo. alguns tios brincam connosco, inclusive este, que partiu. o que mais lembro deste tempo são justamente as gargalhadas, os sorrisos e os risos. não tínhamos tudo, mas tínhamos esta relíquia: conviver em família com gargalhadas, sorrisos e risos. e era tão bom... lamento que a distância não me tenha permitido vê-lo mais. gostaria de ter dado um último abraço, um último beijo, uma última gargalhada. sei que ele foi cuidado e acarinhado. sei que ele viveu talvez mais do que teria sido possível. mas, por vezes, esta ausência e esta distância impedem-me de viver e vivenciar tantos momentos.

 

tempo. memória. passado. infância. família. saudade.

 

depois ouvi a minha voz a dar a notícia ao meu pai. ele ficou estático. ele ouviu a minha voz e soube, antes mesmo de saber, que não seria uma boa notícia. pouco a pouco, temos desaparecido. gradualmente, a vida segue o seu rumo. inclusive a morte. diante dela, como é sabido, não há nada a fazer. ele percorreu as suas lembranças, disse "ele era mais novo do que eu" e "quantos somos agora?" e "mas como é que aconteceu?". então, como se eu estivesse a consolar uma criança tentei explicar da melhor maneira. tentei explicar sem explicar muito. tentei amenizar. e ele, com olhos de tempo e distância, ficou parado. calado. cabisbaixo. olhar perdido. olhar que já viu o mundo e que já viveu muitos dias. no fundo, ele lamenta que a distância não o tenha permitido ver o seu irmão mais vezes. ele gostaria de ter dado um último abraço, um último beijo, uma última gargalhada. ele sabe que o irmão foi cuidado e acarinhado. sabe também que ele viveu talvez mais do que teria sido possível. mas gostaria de ter-lhe dito, nem que fosse só uma última vez: "rapaz, tem juízo...pensa na tua vida". o meu pai, com rugas e olhos perdidos de menino, chora pela ausência.

 

e permito-me agora, sozinha, chorar pelo tio que partiu. permito-me contar quantos somos ainda. permito-me amar intensamente. permito-me saborear a saudade como fosse uma água fresca. permito-me bebê-la até ao fim. permito-me lamentar a ausência, a distância e os tempos estranhos. permito-me recordar cada momento da minha infância e dos meus dias em terras onde a cigarra canta com mais força. onde o sol lavra cada pedaço do chão. permito-me fortalecer as minhas raízes que me sustentam e que fazem de mim parte de quem eu sou.

 

permito-me amar o meu passado e a minha identidade.

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