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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

(o livro que mais gostei de ler em 2012)

26.12.12, a dona do chá

 “Porque há uma história que não conheces, Imogen. Uma história sobre a tua família, e sobre mim, e acima de tudo sobre ti. É possível que os teus – que as pessoas que te criaram te tenham contado uma parte. E mesmo essa parte, muito provavelmente, foi distorcida. Mas eles não podem saber a verdade, porque a verdade só eu a conheço”

A Chuva antes de Cair | Jonathan Coe | pág. 31

Rosamund sabe que vai morrer e não pode partir sem revelar toda a verdade. Quer, de alguma forma, reparar e - porque não dizer - expiar alguma culpa. Saber que a morte está bem perto de si, fê-la tomar uma importante decisão: remexer e revirar a jornada de sua família. Seleccionou algumas fotos e acabou por fazer uma série de gravações onde descrevia cada foto e isto foi o mote para revelar acontecimentos e factos desconhecidos. Estas gravações deveriam ser entregues a Imogen após a sua morte. Como se tratasse de uma manta de retalhos, começa a surgir diante do leitor a história de duas gerações através destas descrições.

Todo o livro trata de recordações e dos resquícios da trajectória de uma família ao longo de gerações: amor e desamor, remorsos e arrependimentos, encontros e desencontros. Por vezes, é tão cru, tão triste, tão violento; noutras vezes, a escrita de Coe mostra beleza, verdade e amor.

Em alguns momentos, durante a leitura deste livro, não pude evitar uma pausa de espanto e uma dor aguda de entendimento. Como uma certeza de que a vida tem tanto de belo como de feio. Que, por vezes, temos de aceitar que duas coisas opostas têm de existir para a vida fazer sentido.

“Não que a tua existência possa corrigir ou desfazer todos esses erros. Não, a tua existência não justifica coisa nenhuma. O que ela significa – já disse isto, não disse? Creio que sim, ou uma coisa parecida -, ou melhor, o que ela me leva a compreender, é isto: que a vida só começa a fazer sentido quando nos damos conta de que por vezes – tantas vezes – o tempo todo – duas ideias completamente contraditórias podem ser verdade.

Tudo o que conduziu a ti estava errado. Portanto, tu não deverias ter nascido. Mas tudo em ti está certo: portanto, tu tinhas de nascer.

Tu eras inevitável.”

A Chuva antes de Cair | Jonathan Coe | pág. 199

Portanto, pensar no livro que eu mais gostei de ler em 2012 foi uma tarefa fácil. Este livro tomou conta de mim de uma forma absoluta. Este escritor surgiu na minha vida no contexto de um Clube de Leitura Virtual (Clube de Leitura Jane Austen) e por sugestão da querida amiga, Laís (integrante do mesmo clube). Nunca tinha ouvido falar sobre este escritor e não fazia a menor ideia do quanto este livro me marcaria. Posso dizer que foi amor à primeira vista do título…

O que seria isto de “a chuva antes de cair”? Confesso que, só de ouvir esta expressão, recordações e sensações da minha própria infância ressurgiram. Quando eu vivia do outro lado do oceano, os dias eram longos, as tardes de verão vibravam em longos silêncios de sol tórrido e o pôr-do-sol era uma explosão de sonoras cigarras a gritaram exaustivamente. O verão era uma dança constante entre chuva e sol. E, antes de chover, sentíamos aquele aroma intenso a terra - uma mornidão que a terra exala. Dos meus dias nos vestígios de casa, de quando o céu tinha aquele azul verdadeiro e único, havia toda uma antecipação antes da chuva acontecer. Só o título despertou-me todas estas memórias... Só por isto teria valido a pena lê-lo. Mas a verdade é que o livro representou, para mim, muito mais do que isto. Foi uma experiência inesquecível. A dor, a disfuncionalidade familiar, a culpa, o arrependimento, a delicadeza, a crueza, a verdade; tudo isto e muito mais fez-me reflectir por longos meses. Terminei o livro em Abril mas quando debatemos o livro em Junho, ele ainda martelava na minha cabeça.

Não é um livro de entretenimento. É um livro a ser degustado, lentamente. É um livro que toma a alma. Remexe as entranhas. Definitivamente,  "inevitável".

"Claro que a chuva antes de cair não existe", disse ela. "E é por isso que é o meu tipo preferido de chuva. Uma coisa pode não ser real e, mesmo assim, pode fazer uma pessoa feliz, não pode?" 

A Chuva antes de Cair | Jonathan Coe | pág. 132

(Costas de anjo)

19.12.12, a dona do chá

"(...)Estamos finalmente a sós do mundo. É como fechar a porta da cama depois de fechar a porta do quarto.

Meus olhos deitados se encaixam em seus ombros. O olfato se apura na saboneteira. E vejo o filme de suas palavras na tela de sua carne. Vou entendendo a importância do desabafo pelos suspiros e parágrafos curtos do pulmão.

Compreendo que escutar é proteger, escutar é reservar todo o corpo a alguém, não apenas o rosto, da mesma forma que reservamos uma mesa para jantar e um lugar no teatro.

Mulher não tem costas, como um anjo, uma árvore, um relâmpago.(...)"


Costas de Anjo, Fabrício Carpinejar

(os olhos de quem ama)

17.12.12, a dona do chá

De passo em passo, no chão polvilhado de vermelho e amarelo intermitente e húmido, as pessoas desviam-se da chuva.

Uma longa estrada estende-se como um tapete de folhas caídas, chorosas e desmazeladas. Não há ordem na queda. Cai-se e mais nada.

A chuva cria dias de ausência, de desconsolo e de silêncios. Era suposto todas as coisas fazerem sentido.

 

 

 

(Senhor Dezembro, nunca me trataste bem)

15.12.12, a dona do chá

Sendo este o mês que mais detesto, que custa tanto a passar e que está a ser particularmente irritante este ano... não consigo deixar de pensar que está a ser demasiado longo, frio e inóspido.

E, num dia impiedoso como o de hoje, acrescente-se o facto de constatar - mais uma vez - que eu sou realmente uma pessoa falha, pequena, obscura, invisível e banal.  

Por hoje, bastava-me que fosse Março.