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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Dádiva. (2)

05.02.04, a dona do chá

« Os céus proclamam a glória de Deus 

e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
Um dia faz declaração a outro dia,
e uma noite revela conhecimento a outra noite.
Não há fala, nem palavras;
não se lhes ouve a voz.
Por toda a terra estende-se a sua linha,
e as suas palavras até os confins do mundo.

Neles pôs uma tenda para o sol,
que é qual noivo que sai do seu tálamo,
e se alegra, como um herói, a correr a sua carreira.
A sua saída é desde uma extremidade dos céus,
e o seu curso até a outra extremidade deles;
e nada se esconde ao seu calor.

A lei do Senhor é perfeita,
e refrigera a alma;
o testemunho do Senhor é fiel,
e dá sabedoria aos simples.
Os preceitos do Senhor são retos,
e alegram o coração;
o mandamento do Senhor é puro,
e alumia os olhos.
O temor do Senhor é limpo,
e permanece para sempre;
os juízos do Senhor são verdadeiros
e inteiramente justos.
Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino;
e mais doces do que o mel
e o que goteja dos favos.
Também por eles o teu servo é advertido;
e em os guardar há grande recompensa.

Quem pode discernir os próprios erros?
Purifica-me tu dos que me são ocultos.
Também de pecados de presunção guarda o teu servo,
para que não se assenhoreiem de mim;
então serei perfeito,
e ficarei limpo de grande transgressão.

Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração
perante a tua face,
Senhor, Rocha minha e Redentor meu! »

Salmos 19

Dádiva.

05.02.04, a dona do chá

Que me perdoem todos aqueles que encontram alento e satisfação no Inverno. Que amam as tardes friorentas, com a companhia das mantas e da lareira. Que gostam de vestir longos casacos e botas de cano alto.
[ Olhando de longe, até penso - por segundos - que isso pode ser prazeiroso. Mas essa sensação passa rápido. ]
Que me perdoem...
Eu prefiro as tardes em que posso abrir as janelas, e ver as cortinas a balançar lentamente. Sentir o sol quente a atravessar a janela. Gosto de sair com uma blusa de manga curta. Já anseio que a Primavera se instale, para que o Verão chegue em todo o seu esplendor. Gosto de andar descalça pela casa. Gosto da simplicidade do Verão. Gosto das cores vibrantes irradiadas a cada movimento.
Uma bela dádiva.

Limites e Fracturas. (2)

05.02.04, a dona do chá

Então, chega o dia, já pela metade. As suposições e planos feitos se esvaem numa estranha e incontrolável letargia. Uma imobilidade que não se consegue explicar e contra a qual não se consegue criar defesas. Tudo o que nos rodeia passa ao lado. "Não quero pensar, não quero pensar". Não se reconhece quem está do outro lado do espelho: olha-me com estranheza, cultiva olheiras, recolhe incertezas.
Somos feridos todos os dias. Nem sempre sabemos porque sofremos e a razão do cansaço. E, muitas vezes, nem sequer sabemos qual o nosso limite. Só quando lá chegamos, é que descobrimos.
A exaustão.
Depois, vem a regeneração.

Limites e Fracturas. (1)

05.02.04, a dona do chá
Quando vem a noite e contamos cada minuto que passa, cada rumor na estrada (solta lá fora), cada passo repicado no apartamento de cima, pensa-se em tudo: no passado distante, no que se comeu, no que se devia ter feito e não se fez, no que se deve fazer no dia seguinte, nas contas por pagar, nos aniversários (e envio felicitações sempre com atraso...), nas horas de sono que perco, nos sonhos que deixo de sonhar. Listas e mais listas que passam diante dos olhos. E depois vem as especificidades, o dissecar cada questão nos seus infinitos detalhes e labirintos.
Há madrugadas que são leves aragens.
Há madrugadas que são graves desesperos.
Abençoadas são as madrugadas sem sonhos, sem despertamentos, sem pensamentos.

Despedida.

05.02.04, a dona do chá

« Na morte não poderia ser diferente. A escritora Hilda Hilst jogou-se de corpo inteiro, assim como na vida e na arte. Ontem de madrugada, Hilda teve falência múltipla de órgãos, em decorrência de complicações numa cirurgia para redução de fratura de fêmur. » JB ( 05.02.04 )


« Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro. »

Hilda Hist, "Cantares do Sem Nome e de Partida"

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