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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

06.01.04

Tic Tac.


a dona do chá

Uma voz abafada, ao longe, revela-me que não sou a única a enxergar através da escuridão. O relógio está parado, há muito que lhe impedi o percurso normal. O ruído dos ponteiros era tão agressivo quanto um alarme. Indicava-me, sem margens de dúvidas, a passagem do tempo.
Incomoda-me essa anónima voz.
Incomoda-me a realidade dos ponteiros.

05.01.04

Vestígio de casa. (4)


a dona do chá

O melhor de Janeiro era comer mangas retiradas directamente da árvore. Encetava-se a escalada, escondido da mãe. Colocava-se o máximo de mangas numa saca plástica. Arranhava-se as pernas e os joelhos na descida. Depois, ainda com o suor a escorrer pela testa e o corpo coberto de terra, arrancava-se a casca da manga à dentada. Saborear a textura da fruta.
Tão doce. Tão presente. Tão distante.

05.01.04

Na primeira madrugada do ano.


a dona do chá

Tudo passa lentamente, e eu anseio para que tudo acabe rápido. A noite é demasiado longa, sem novidades. O barulho na rua é ensurdecedor. Fogos de artifício para simular uma suposta alegria. É quase obrigatório sentir entusiasmo numa passagem de ano. Deve-se sentir também uma pretensa (alcançada?) felicidade; digo eu, um tanto artificial.

Eu espero pela primeira luz do dia, anunciando o fim de tudo. Não do ano, mas da noite. A noite tem o seu quê de desesperança, de descrédito. Eu cumpro o meu dever. Trabalho. Espero pelos pedidos. Conto os azulejos da parede. Encosto-me às grades de bebida, sentada sobre uma caixa. Reclino a cabeça para trás, a olhar para o céu. Mas não o vejo. A neblina esconde-me qualquer possibilidade de imagem.

Levanto-me, espreito pela janela.

Pessoas vagueiam pelas ruas. São muitas. Corrijo-me: não vagueiam, arrastam-se. Um homem está há mais de uma hora apoiado num poste, na esquina da rua. Mais valia cair logo no chão e não adiar o inevitável. Adolescentes andam em grupo. Dentro do Café - único aberto na cidade - as pessoas buscam por um pouco de calor, um café, uma cerveja, um maço de tabaco, uma ou outra conversa. Na realidade, talvez procurem por um motivo qualquer para que a noite (também) passe rápido por eles.

É nisso que consiste a passagem de ano? Dançar até arrebentar os pés, curtir até faltar tacto, beber até não reconhecer os próprios pés?

Há algum motivo para festejar?

05.01.04

Sei que agora dormes.


a dona do chá

Embalas as tuas horas neste descanso do sono merecido. Horas e horas de trabalho, onde o tempo é tão longo quanto um corredor. Sei que esperas ansiosamente pelo fim do dia, sei que pensas em mim quando vens a conduzir o carro pelos poucos quilómetros que nos separam. Fazes o trajecto a indagar o que estarei a fazer. E me encontras no sorriso que guardo durante todo o dia. Ou embrenhada em rabugices, que também as tenho. Seja qual for o caso, estendo os meus braços e te guardo no meu coração.
Esquece o trabalho, esquece o cansaço, esquece o mundo. Eu estou aqui contigo. Sei que agora dormes, e sou eu quem está a trabalhar. As horas afiguram-se-me intermináveis. O barulho da música não me distrai. As vozes esquivas não afastam os meus pensamentos.
Sei que agora dormes. Descansa então.
Em breve estarei ao teu lado.

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