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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Vestígios de casa. (2)

20.10.03, a dona do chá

O corredor é o tronco esguio que se estende através do olhar. É ele que guia a criança na travessia da memória. Nas laterais há braços, diria galhos, que remetem para uma ideia de continuidade. Bem no meio, encontro uma criança. Para frente ou para trás, ela consegue ver as várias possibilidades de saídas e entradas. Não toma nenhuma direcção. Quer entender o que é "tomar uma direcção". Ela senta-se no chão. Cruza as pernas e apoia os cotovelos em cima dos joelhos. Os olhos voltados para cima. Entenda-se, não estão fixos no tecto.
Expectante.
Olhos em prece.

Em extinção.

15.10.03, a dona do chá

Dizem que antigamente se um homem dissesse "eu farei isto", ele empenharia todo o seu esforço em prol do cumprimento da palavra dada. Será que era mesmo assim que as coisas se desenrolavam? Concluo que se assim era, isso ficou perdido no passado....
Terão as pessoas perdido a noção de ética, de honra e de respeito ao próximo?
Não basta dizer que se tem honra e palavra. São os actos que demonstram os valores de indivíduo. São os actos que validam o discurso. Há demasiados fariseus no mundo...
(Não, não estou a falar nem sobre a política em geral, nem sobre um político em específico)

Uma questão de vida. (2)

15.10.03, a dona do chá

Com o tempo é natural que nos esqueçamos de alguns rostos, nomes e datas. Acho que algumas falhas de memória até são saudáveis. Há factos que devemos mesmo jogar para trás das costas, que não nos merecem sequer dois minutos de atenção. E há rostos e nomes que nos são queridos, cuja a recordação é forte. A capacidade de recordar é estranha, basta uma música, um gesto de alguém, um cheiro, e a explosão acontece. Uma sucessão de centenas de imagens passam diante dos olhos. É quase como um desmoronar de pilhas e pilhas de folhas e imagens. Tudo em uma fracção de segundos. Por vezes, nos lembramos de um nome mas não do rosto. Noutras alturas, é o rosto que se destaca dentre tantos rostos, mas a quem pertencerá? Bastou uma palavra para desencadear uma série de acontecimentos vividos na minha meninice. A palavra Leucemia. A palavra Leucemia leva-me até ao Daniel.

Daniel tinha uma família que o amava. Procuravam lhe proporcionar uma educação boa e uma vida agradável. Tinha amigos com quem brincava, conversava e convivia. Tinha todo o tipo de brinquedos e jogos. E ele gostava de tudo isso, de ter amigos e de ter brinquedos. Mas ele não usufruía isso na totalidade. Desde pequeno lhe diagnosticaram ter Leucemia.
Daniel era filho do Célio e da Flávia, amigos dos meus pais. Eu conheci-o na minha meninice. Eu ia frequentemente na casa dele. Ele me mostrava todos os seus brinquedos ( e tinha uma infinidade deles ) e brincávamos muito. Lembro-me dele muito vivaz e criativo, surgia sempre com novas brincadeiras e inventava histórias para os bonecos do PlayMobil. Interrogava sobre as coisas que o rodeava. Revelou-se, sobretudo, muito consciente do mal que o afligia...
O seu olhar era semelhante ao olhar dos pais: um misto de tristeza, esperança e cansaço.

Eu o ví pela última vez há uns 16, talvez 17 anos atrás. Não sei precisar bem. Terá sido numa festa de aniversário? Terá sido num passeio? Terá sido num domingo de tarde? De vez em quando penso nele; no sofrimento, na perseverança, na luta, nas lágrimas, no desespero e na expectativa que viveu. Lembro-me do amor dos pais pelo filho, do filho pela vida, e da vida que nem sempre nos dá amor.

Nunca mais o ví. Desde que mudei de país, só ouvi falar dele mais uma vez: aquando da notícia sua morte. A notícia chegou por carta. Aos 17 anos, Daniel sucumbiu. Foram longos e penosos anos de tratamento e de espera por um transplante de medula, que não chegou a acontecer. Foi a mãe dele quem nos escreveu.

Com o tempo é natural que nos esqueçamos de alguns rostos, nomes e datas. Acho que algumas falhas de memória até são saudáveis.
Por vezes nos lembramos de um nome, mas não do rosto. Noutras alturas, é o rosto que se destaca dentre tantos rostos, mas a quem pertencerá?

Há muitos mais rostos além dos que conhecemos, e há aqueles que nunca chegaremos a conhecer. Mas eles existem e sofrem. Merecem que dediquemos bem mais do que dois minutos.

Bastou uma palavra para desencadear uma série de recordações. A palavra Leucemia.
A palavra Leucemia levou-me até ao Daniel.
Onde é que esta palavra te leva?

Uma questão de vida. (1)

15.10.03, a dona do chá

Falar sobre a Leucemia, este foi o repto lançado pelo blog Aanes. Tomei contacto com este projecto através da leitura da BLOGotinha. Fico a imaginar várias e diferentes vozes, espalhadas pelos diversos blogs, partilhando experiências, perspectivas e informações sobre o tema, de forma a criar uma sensibilização para uma doença que ceifa vidas. Falemos, por isso, sobre a Leucemia. Trata-se de uma questão de vida.

"Talvez tu saibas".

14.10.03, a dona do chá

No peitoril da janela de Bartleboom, desta vez estavam sentados dois. O menino habitual. E Bartleboom. As pernas a pender, no vazio. O olhar a pender, sobre o mar.
- Ouve, Dood...
Dood, chamava-se o menino.
- Visto que estás sempre aqui...
- Mmmmh.
- Talvez tu saibas.
- O quê?
- Onde é que tem os olhos, o mar?
- ...
- Porque os tem, não é?
- É.
- E onde raio estão?
- Os navios.
- Os navios o quê?
- Os navios são os olhos do mar.
Fica estarrecido, Bartleboom. Desta não se tinha mesmo lembrado.
- Mas há centenas de navios...
- Tem centenas de olhos, ele. Não quereis por acaso que se desenrasque com dois.
De facto. Com todo o trabalho que tem. E grande como é. Faz sentido, tudo isso.
- Pois é, mas então, desculpa...
- Mmmmh.
- E os naufrágios? As tempestades, os tufões, todas essas coisas... Por que razão havia de engolir os navios, se são os seus olhos?
Tem um ar até um pouco irritado, Dood, quando se vira para Bartleboom e diz
- E vós... vós nunca fechais os olhos? 

Alessandro Baricco, Oceano Mar

Parte de um todo.

13.10.03, a dona do chá

A chuva é uma fina cortina dentro da noite. Quase imperceptível. Pouco tangível, mas presente. Ao fundo, estende-se o silêncio. Com uma manta nos ombros, ela tateia a aspereza do vidro e empurra a janela. A mão pousa no chão da varanda e num movimento lento desenha formas incertas. O pó mistura-se com a água da chuva formando um novo elemento, uma tinta natural. Ganha vida, mas se desfaz logo de seguida...

Vestígios de casa.

13.10.03, a dona do chá

A porta aberta é uma tela desdobrada para o outro mundo. Eu passeio neste outro mundo; mas ele não me pertence, nem eu faço parte dele. Talvez, isso explique porque não me sinta em casa. Há uma sensação de "estrangeiriedade" que paira sobre os gestos recolhidos. Uma economia de passos. Um andar não pronunciado.

Fora dágua.

13.10.03, a dona do chá

A dada altura perdeu a capacidade de distinguir o som e o alheamento. Encostada ao balcão do café, olha ao redor. O local estava apinhado. Tanto som. Tanto desperdício de som. Televisões, música, vozes descoordenadas. Algumas delas alteradas, outras perdidas. Discussões acaloradas, disparos de opiniões e teorias. Ninguém ouve o que outro diz, cada um preocupado com a sua opinião pessoal. Eles parecem não notar aquela amálgama de ruídos. Estão completamente alheios e indiferentes. Ouvem apenas o fluir da sua própria voz...
"O que faço aqui" - ela pensou.

O que é mais insuportável: o excesso de disforme ruído ou o alheamento?