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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

31.10.03

Fresta.


a dona do chá

Os meus pés esfriam em contacto com o chão. A casa está silenciosa. Os dedos percorrem as teclas. O dedilhar interrompe a quietude. A chuva cai incessante. De onde estou, olho para a janela e vejo a cortina entreaberta. Uma fresta de rua está intacta, do lado de fora. Vejo as gotas a atravessarem a lâmpada do poste de luz. Parecem rabiscos de crianças feitos num papel amarelecido.

29.10.03

Diferentes contextos.


a dona do chá

Ontem encontrei três amigas de diferentes contextos. Com cada uma eu tenho uma história de companheirismo diferente. São pessoas especiais a quem dedico um sentimento de gratidão e ternura. Sou devedora de lhes dedicar mais do meu tempo e atenção. Sou culpada por estar absorta pelos meus próprios problemas e angústias. Às vezes, perco-me dentro da minha própria imperfeição.

Encontrei-as por mero acaso, e num dia significativamente marcante. Um sinal para eu relembrar que a duração da tormenta pode ser longa, mas um dia passa.

29.10.03

Degraus.


a dona do chá

Concretizar uma etapa gera uma grande satisfação interna. A perfeição da obra é uma preocupação que atormenta durante todo o processo, mas que perde algum do seu peso e significado, aquando da sua finalização. Ver um plano a ser materializado é inigualável. Finda a etapa, prevalece uma sensação de alívio por chegar ao fim e, ao mesmo tempo, um gosto de vazio...

Abraçar desafios leva-nos a percorrer degraus. O cansaço e a falta de ar na subida são consequências inevitáveis. A recompensa é sentir sair das costas o enorme peso que a responsabilidade, por vezes, nos impõe.

29.10.03

"Querer".


a dona do chá

 

« Querer - não ter tempo de não ter tempo... porque eu quero que a vida passe por mim, mas comigo. Quero poder ver o sol nascer enquanto puder, e despedir-me dele enquanto me deixar. Quero sentir na pele o vento salgado que vem do mar, quero retribuir-lhe por contemplação. Quero conhecer oportunidades, momentos e pessoas. Quero guardar momentos, pessoas e memórias. Quero lembrar pessoas, memórias e vidas. Não quero esquecer memórias. E quero presenciar vidas. Quero partilhar vitórias com quem de direito. Com quem eu sou eu, com quem o nós só faz sentido. Quero sorrir sem motivo. Quero aproveitar. Não quero deixar de sonhar nem perder a força e vontade de tentar. Quero não me arrepender. E quero dar a volta ao meu mundo. E queria que ainda estivesses aqui, neste tempo. Pudera eu trocar todos os meus quereres... »

Escrito por D., no blog Leite de Creme.

25.10.03

Deslumbramento. (1)


a dona do chá

Esta semana tenho escrito pouco. Todos os dias dedico um tempo para ver os meus blogs preferidos e para conhecer novos blogs também. E nesta semana aconteceu-me uma coisa estranha. Dei por mim deslumbrada com alguns blogs. Há blogs que já me deslumbravam, cada um por motivos diferentes. Escrita, conteúdo, imagens, senso de humor, verdade, sinceridade, e partilha são factores que me despertam a atenção. A medida que o tempo passa (e já leio alguns blogs há muito tempo) percebo que há grandes pessoas neste meio. Não sei se me faço entender com esta afirmação. Não estou a falar de popularidade. Estou a falar de pessoas que trazem dentro de si algo de belo e de brilho, que transborda a superfície de um ecrã. E isso me deslumbra. Todos os dias eu aprendo, me comovo, sofro, rio (sorrio também), irrito-me e reflito por causa do que tenho lido. Inúmeras são as vezes que leio algo e vejo em determinada pessoa um gosto ou pensamento em comum. Por outro lado, também encontro ideias opostas, e isso representa sempre um desafio.

O Pedro do Icosaedro disse há uns dias que "o nível de partilha de experiência proporcionada por um blog é, para mim, fascinante e revolucionário". Concordo.

21.10.03

Sobre telejornais.


a dona do chá

«Sempre houve e haverá um combate inevitável entre a Subjectivização da realidade e a sua Objectivação. E é esse combate que, sendo incontornável, hoje está mais vivo do que nunca. Veja-se a homogeneização dos "telejornais". Como se de repente fossemos como que obrigados a crer que a realidade é um telejornal. Talvez o seja, para quem só vê telejornais. Mas só um idiota é capaz de pensar que não existe mais realidade para além de um ecrã. Talvez um ecrã seja o novo espaço de acolhimento dos desligados do "mundo objectivo": Asilos pós-modernos.»

Transcrevi este trecho de "A Escrita dos Olhares", de Isaac Pereira. Acho que foi o melhor post que eu li sobre os telejornais. Um espaço a visitar e a fidelizar.

21.10.03

Vestígios de casa. (3)


a dona do chá

Somente após o apelo das cigarras, é que a tarde começava a cair. No ar hesitava um cheiro meio acre a mornidão. Um fim de dia se firmava na lua, tímida palidez no céu. Primeiro uma, depois duas, no minuto seguinte eram milhares de cigarras. As cantoras invisíveis, habitantes da vegetação densa. A pele respira este apelo das cigarras, de que a noite em breve vem, de que o dia deixou de ser. Lentamente.
Sentada no muro do terraço assistia a tudo isso impávida. Pés descalços a balançar, a reunir todos os detalhes. A alimentar a minha ânsia de pertença.
Se eu fechar os olhos ainda as posso ouvir, distantes. As cigarras.
Se eu fechar os olhos sei que posso transformar a saudade em presença.
A duração não importa quando se sente de forma plena.

21.10.03

Sobre o "dito pelo poeta".


a dona do chá

Gosto de pensar que o poema é « rigor e desmedida », « um sim e um não, e ainda um plácido talvez ».
Mas gosto ainda mais de pensar que neste equilíbrio entre opostos, estamos todos nós - enquanto leitores - desconstruindo e construindo o poema, num processo interminável ( ou não? ) de significações.
O leitor também é um ser solitário.

21.10.03

Dito pelo poeta.


a dona do chá

« Cada poema tem a sua história, é um fragmento de uma existência secreta, um estilhaço de biografia do poeta - embora o amador de versos deva ser alertado para a evidência de que, quer atravessando o claror do dia ou a misteriosidade da noite, o poeta é o portador de uma sinceridade sempre ungida pela mentira inerente à criação poética. A poesia é a voz ou a linguagem do outro: uma linguagem pessoal e intransferível dentro do sistema poético que representa a culminação estética da numerosas linguagens tribais e triviais que formam a língua de uma nação. E essa linguagem diferente é uma máscara; um esconderijo; uma metáfora; um dizer sempre outra coisa.

Assim, um poema é ao mesmo tempo verdade e mentira, rigor e desmedida, contenção e efusão, carência e exorbitância, magia e pesadelo, razão e desrazão. É um sim e um não, e ainda um plácido talvez. É mito e desmito. Possui incontáveis sentidos. Artefato verbal, completo em si mesmo, vivendo e respirando o ritmo de sua integridade e concretitude, e ainda o de suas abstrações, graças a um feliz agenciamento de sons e signos, de palavras tornadas imagens e de imagens tornadas palavras, de rimas e contra-rimas, de métricas e contramétricas, o poema pode, contudo, ser recriado e até danificado por qualquer leitor, que lê nele o que deseja ler, e o reescreve mentalmente à sua vontade, como se fosse um ditoso suplente de criador ou um ajudante de mentiroso.

E esta operação do leitor há de ser, sempre, o sinal de eficiência e da serventia do poema, do poder que tem o poeta de converter a sua aventura pessoal numa dádiva pública. Testemunha indesejável ou conviva deslumbrado, falando pelos que não têm voz - seja a voz política do humilhado e ofendido que atravessa a rua ou a voz amorosa do homem ancorado numa mulher - e cantando em nome dos seres desprovidos de linguagem, o poeta jamais está sozinho. Ele não sabe distinguir o seu começo e o seu fim. Sua solidão é ocupada pelo rumor interminável do mundo. É um ser solitário e solidário; uma criatura colectiva. »


por Lêdo Ivo, "Os Melhores Poemas de Lêdo Ivo", Global Editora, 1983.

(obs. tomei a liberdade de destacar algumas palavras e expressões que me agradaram neste excerto)

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