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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Relatório.

24.09.03, a dona do chá

Por vezes, paira uma incerteza. Uma estranha sensação de paralisia. Não saber exactamente o que fazer. Os dias têm sido tão estranhos, preenchidos por uma tarefa quase interminável. Quase uma travessia no deserto. Uma inconstância dentro do tédio. Receio os efeitos colaterais.

Sementes. (2)

19.09.03, a dona do chá
E porque nada acontece por acaso... Hoje dediquei-me na busca deste livro da Frances Burnett.
A minha afilhada - e também sobrinha - faz aniversário hoje: 12 anos. E eu queria que ela tivesse esse livro. Achei que podia ser importante para ela. Estou sempre incentivá-la/chateá-la para estudar e amar a leitura. Hoje eu queria presenteá-la com um livro que foi importante para mim, meio em jeito de partilha de experiência. Não encontrei o livro. Tive de escolher outro. Fiquei triste. Senti-me frustrada.
Agora vejo com clareza que tinha de ser assim. Um livro que foi importante para mim, não seria necessariamente marcante para ela. E, apesar de várias pessoas poderem possuir um livro específico, o significado emocional e a interpretação da história nunca será a mesma. O valor atribuído é diferente para cada leitor. Então decidi-me por um livro sobre o qual nunca tinha ouvido falar. Tem por título «A Gramática é uma Canção Doce» de Erik Orsenna. Agradou-me o título. Virei-o, e li:
«Devido ao choque provocado por um naufrágio em pleno Atlântico, Jeanne, de dez anos, e o seu irmão mais velho perdem o uso da palavra. Os dois irmãos estão agora numa ilha desconhecida, onde conhecem Monsieur Henri, um músico que decide voltar a incutir-lhes o gosto pela linguagem. Henry leva-os numa viagem inesquecível que começa numa ilha que, embora habitada, está despojada de qualquer forma de vida. Os habitantes, esvaziados das suas palavras após um acontecimento dramático, decidiram não reaprender a falar. As pessoas, os animais, as paisagens estão mortos de silêncio. Definham por não serem solicitados. A gramática e a existência estão intrinsecamente ligadas. Aquilo que não é nomeado acaba por se esvanecer. As duas crianças vão então à descoberta de uma cidade povoada por palavras. E, perante o seu olhar espantado, estas últimas dissimulam-se, casam-se, traem-se. Estão vivas para melhor poderem dar vida. Esta é uma gramática onde podemos, não somente aprender, mas sobretudo aprender a amar. Quantas mais palavras possuímos, mais são os sentimentos de que dispomos.»
Agradou-me o enredo. Desfolho o livro, leio as primeiras e as últimas páginas (um hábito estranho que tenho) e, ao fazer isto, noto que o livro também tem ilustrações. E recordo-me novamente do outro livro, A Pequena Princesa.
Pode ser que a minha afilhada goste. Pode ser que a minha afilhada, daqui há uns anos, se lembre com carinho deste presente que eu lhe dei. Pode ser. É um desejo meio egoísta da minha parte.
Que seja.

Sementes. (1)

19.09.03, a dona do chá

Esta semana perdi-me em alguns pensamentos. Lembranças de infância, fotos cravadas na memória, os primeiros anos de estudante. Isto acontece-me frequentemente em fases em que tenho de tomar decisões ou concretizar acções. Desta vez, um factor, posso dizê-lo, meio ridículo pesou.
Aconteceu-me, na semana passada, de acidentalmente pousar os olhos no ecrã da televisão. Estava a passar um filme na RTP 2. Não consigo lembrar em que dia foi. Era um filme baseado num livro de Frances Burnett que narra as aventuras e desventuras da pequena Sara Crewe. Vi metade do filme. «A Pequena Princesa» - este é o nome do livro - foi o primeiro livro que eu li, antes mesmo de saber ler. A minha mãe tinha este livro guardado na estante e eu gostava de folheá-lo. Eu tinha uma absoluta fascinação pela ilustração nela contida. Sendo uma edição muito antiga, tinha ilustrações a preto e branco e eu cheguei a colorir as mesmas. Lembro-me perfeitamente que ao estar a colorir as imagens, eu criava a minha própria história. Soprava vida naquelas formas fixas na folha de papel amarelecida. Depois de aprender a ler e começar a ser despertada para a leitura (por volta dos 9 ou 10 anos), acabei por ler esse livro. Constatei que a minha versão da história era muito diferente do real enredo do livro. Nem por isso deixei de gostar dele.
Foi um livro comprado ou num alfarrabista ou numa feira. Trata-se de um livro usado. Apesar de estar lá na primeira página o meu nome a marcar território, também está o nome da antiga dona. Maria Teresa. Em algum lugar, uma Maria Teresa lembrou-se de doar ou vender o livro a um alfarrabista. E assim, um dia, ele chegou às minhas mãos. Mesmo sem a conhecer, simpatizo com esta Maria Teresa.
Talvez seja um pouco ridículo falar sobre a primeira experiência com a literatura. Ele agora está pousado em cima da mesa, aqui ao meu lado. Vejo suas folhas quase castanhas, com a capa meia solta (tenho de arranjar uma forma de restaurá-lo...) e sinto uma sensação de afeição. Uma sensação de segurança. É que alguns livros são fundamentais na construção da personalidade; não pelo seu valor literário ou intelectual, mas por serem uma espécie de sementes. Acredito que, de alguma forma, um dia germinem. E acredito também que venham a fazer parte das nossas raízes.

Vozes.

16.09.03, a dona do chá

«Vozes para além do rio. São água
também, correm até à foz
do meu ouvido. E refluem agora,
líquidas, da foz do meu olvido.
Além do rio, vozes e acenos. Gritos
tão leves, sobre os anos voando.
A minha mão, a minha mão também
esgueira um gesto curto enquanto
a outra escreve. Desenha
no papel seco a ponte, as pontes, todos
os corredores das vozes donde chego
à relva desta margem.»


Pedro Tamen

Nada de novo.

16.09.03, a dona do chá

É sempre uma frustação percorrer as estantes da Biblioteca Municipal da minha cidade. Não há novidades. Já conheço as prateleiras de olhos fechados. Olho para os livros e sei que eles estão alí há anos, sem grandes alterações. Penso que as últimas aquisições foram os últimos livros do Nicholas Sparks e da Susanna Tamaro. Não tenho nada contra nem nada a favor. 
Irrita-me solenemente que as únicas aquisições, em termos de literatura estrangeira, seja sempre de autores da "moda". O que irrita ainda mais, é que não se trata de um único livro. Acontece de serem três ou quatro livros iguais.
Será isso uma tentativa pobre de chamar a atenção dos utentes?
Será que são as editoras que oferecem estes livros?

Um dia, estive uma hora a tentar escolher um livro para levar para casa. Tarefa feita, dirijo-me ao balcão para poder desmagnetizar o alarme e assinar a ficha de requisição. Lá estava a funcionária a atender outra pessoa. Ou melhor, a conversar com outra pessoa. Olho para a parte de dentro do balcão e uma revista do género cor-de-rosa estava pousada na mesa. Com certeza, uma leitura interrompida. Enquanto eu aguardava a minha vez, ouço o seguinte comentário da Funcionária:
- Ainda há quem critique a biblioteca!! Imagine se é possível? Até temos a "Madame Bovary"...
Flaubert - se fosse vivo - poderia se sentir um privilegiado.

Superdotada.

12.09.03, a dona do chá

Alguém me disse, há uns meses, que era capaz de ver, entender, fazer coisas que mais ninguém conseguia. Ela estava cansada de ter que explicar coisas que seriam supostamente básicas.
A dada altura chegou a declarar:
- Eu, por vezes, até penso que devo ser super dotada.
Eu, então, disse-lhe:
- Se calhar até és...
E sorri.