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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Equívoco.

26.08.03, a dona do chá

Quem nunca foi vítima de um equívoco talvez não entenda a dor que isso causa.
Talvez não seja bem dor o que um equívoco pode causar. Diria que cria uma sensação de revolta e injustiça. Por que geralmente um equívoco nasce de um mal entendido, e gera um série de interpretações erróneas sobre algo que se tenha dito ou feito. Por consequência, surgem os julgamentos. Trata-se de um julgamente onde, quase sempre, somos condenados. Sem possibilidade de defesa.
E no fim das contas, mesmo que o equívoco tenha sido desfeito, fica sempre uma certa desconfiança. "Será que...?". Por que existe uma tendência natural da pessoas de efectuar um julgamento negativo do próximo? Já não se usa fazer o bem? Está assim tão fora de moda?
Revolta-me.
Por momentos uma pessoa pensa em desistir. Esquecer que se têm princípios e ética.
Poderá advir do esclarecimento o devido esquecimento?
Por enquanto, alimento minhas dúvidas.

Reincidente.

22.08.03, a dona do chá

"Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar estas cinco nuvens negras
relembra-me as regras
do saber viver
repõe-me o sentido nos sentidos
olfactos
ouvidos
à vista
de tactos
do teu paladar"

Sérgio Godinho

Cartas por escrever. Felicitações em atraso. Fotos por revelar. Leituras pendentes. A vida em suspenso.
Sinto-me reincidente.

Estilhaços.

22.08.03, a dona do chá

A mágoa recalcada pode minar um coração, transformando-o em massa fervilhante, pronta para entrar em ebulição.
O que é mais forte, a mágoa ou a amargura? Ou será que a primeira é causadora da segunda? O que fazemos para minar a mágoa, e dar o passo adiante? São tantas as interrogações que trespassam...
Certo é que a mágoa e a amargura são geradoras de momentos de auto-tirania e de tirania em relação à alguém. Tiraniza-se o coração e a alma em prol de um sentimento corrosivo, que não se consegue combater e que se auto-alimenta. E, desta forma, acaba-se por tiranizar alguém, porque a mágoa e a amargura, à semelhança da violência, gera mais mágoa e amargura. Um ciclo vicioso.
Por vezes deixam-se fluir palavras que nunca deviam ser ditas. Palavras que transmitem sentimentos que não são sentidos realmente. Mas a mágoa impulsiona um instinto para o mal, mesmo que fugaz. Diz na Bíblia que "do que há em abundância no coração, disso fala a boca" (lucas 6:45). Constato que é verdade.
Como se luta contra isso? Como se ajuda alguém a combater isso? Se eu recolher os estilhaços que caem à minha volta e colá-los, será possível voltar a ter o ténue vidro em algo perfeito, como se nunca tivesse sido quebrado?
"Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem" (Romanos 12:21). A única munição para "combater" um coração magoado é o amor. Por que o amor é o único sentimento capaz de quebrar um coração endurecido pela amargura.
Obviamente muitos são os cépticos. Mas sabem de uma coisa? Eu creio. O amor é o que temos de mais divino em nós. Todos os bons sentimentos e acções derivam desse sentimento primordial. Sei também que não é o caminho mais fácil. Quantas vezes um gesto de ternura é vítima de zombaria, de exposição ao ridículo, de indiferença, de desprezo.
Não importa. Não importa mesmo.
Praticar o bem também exige uma grande dose de fé e de paciência.

Morte.

19.08.03, a dona do chá

Morreu Sérgio Vieira de Mello.
Foi vítima do atentado terrorista contra a sede da ONU em Bagdad.
Não vou enunciar um grande discurso de enaltecimento da vida e actuação de Sérgio Vieira de Mello.
A carreira e a postura dele falam por si só.
Apenas vou dizer que hoje o meu entardecer foi frio e sem cor.
A tristeza também pode surgir através de uma interrupção televisiva de urgência.

Construir no infinito.

18.08.03, a dona do chá

Ele disse a ela:"Por amar-te, respeito a pessoa que tu és, apesar das divergências."

Uma pessoa expressa a outra pessoa, através desta frase, a afirmação da entrega dos seus sentimentos.
Num relacionamento aprende-se a conhecer as qualidades e os defeitos, os pequenos detalhes de carácter, a forma de estar na vida e as diferenças de opinião.
E apesar de tudo isto, gostamos desta pessoa. É o mesmo que dizer "Sem ti não estou completa".
Amar é um grande desafio.
Reconstruímo-nos a nós mesmos enquanto indivíduos, e construímos algo de especial conjuntamente com a pessoa amada.
Amar é uma construção no infinito.

Ela respondeu-lhe com um sorriso tímido: "Eu também te amo"

Grito mudo.

18.08.03, a dona do chá

Há palavras que não deviam sequer ser proferidas.
O cenário piora quando se ouve alguém a proferir um discurso repleto de frases feitas e "chavões" gastos.
Isto pode originar diversas reacções: indiferença, desprezo, riso, etc.
Quais os sentimentos que emergem quando se vive, durante muitos anos, a suportar este tipo de situação em silêncio?
Identifico dois sentimentos: revolta e anestesia. A revolta acontece por não se ver a teoria (defendida com fervor) ser colocada em prática. A anestesia se instala quando o cansaço já é tão grande que não se pode lutar. Dentre ambos sentimentos a anestesia é a pior, porque compreende-se como uma diminuição ou ausência de parte ou de todos os sentidos.
Antes a revolta do que a anestesia.
O grito mudo "Chega! Não quero mais ouvir-te!" fica entalado entre a garganta e o coração.
O grito, caso permaneça mudo, torna-se num prenúncio de morte. A morte da alma. A morte do carácter. A morte do indivíduo, da sua capacidade de sentir e da sua personalidade. A morte lenta por asfixia ou por enfarte.
Mas o desejo de gritar pode ganhar forma e se metamorfosear em ruptura. Não como uma explosão repentina, resultante sobretudo de uma longa fase de maturação.
É passar da voz passiva para a voz activa.
É, no fundo, ter voz.

Por causa da brisa fresca.

16.08.03, a dona do chá


Ontem foi um dia agradável. A temperatura esteve amena e uma brisa fresca suavizou o calor entranhado nas paredes e no chão da casa, no asfalto das ruas e no rosto das pessoas. Foi inevitável o desejo de sair de casa, e sentir na pele a dita brisa fresca.
A cidade estava estranha, cheia de pessoas nas ruas com roupas domingueiras. Bem sei que era feriado, o que por si só instiga ao passeio. Mas havia um certo frenesim no ar. Meia hora depois descobri o motivo de toda a movimentação: tratava-se de uma procissão. Era uma procissão para sete santas. Da igreja matriz saíam muitas pessoas eufóricas, algumas seguiam atrás da procissão, outras foram a correr a tentar encontrar um lugar na rua- onde já uma multidão se encontrava - para ver melhor as santas, a banda, os padres e tudo o mais.
Olhei para tudo com estranheza. Ansiava somente a paz de uma tarde nublada, de uma conversa partilhada, e de um horizonte ilimitado. Do lado da igreja matriz, encontra-se uma espécie de miradouro. Passei lá alguns largos minutos a olhar para o Cávado, que seguia o seu curso alheio aos festejos e aos carros parados na ponte que lhe passa por cima.
A constância do movimento das águas do rio fez-me esquecer o barulho. Nunca um céu nublado me pareceu tão bonito.

Na miséria.

16.08.03, a dona do chá

"O sentido da infelicidade é muito mais fácil de comunicar que o da felicidade. Parece que, na miséria, tomamos consciência da nossa própria existência, que mais não seja sob a forma de um monstruoso egotismo: esta minha dor é individual, este nervo que se crispa pertence-me e não a outro."

Graham Greene, "O Fim da Aventura"

Longa espera.

14.08.03, a dona do chá

Depois de um dia agitado, de uma noite intermédia, chega a madrugada em todo o seu esplendor.
Já os sons da rua diminuem...
Olho pela janela e vejo um carro que passa, um noctívago distraído e um cão a farejar o contentor do lixo.
A noite está fresca, fazendo por momentos esquecer o calor que fez durante o dia.
Penso nos afazeres do dia seguinte. "Tenho de buscar uma carta registada nos Correios".
Gostava de me abandonar ao silêncio do sono... ao descanso. Mas longa será a minha espera, até que o sono finalmente me encontre.

Poço.

14.08.03, a dona do chá

"Não sou mais do que um fundo poço.
Sou extremista em individualismo, em determinação, em teimosia e em solidão. Em egoísmo, em ambição, em amor-próprio. Desafio-me com facilidade para lutas cegas, exijo sempre metas distantes, invejo todo o saber, autorizo-me a qualquer tipo de iniciação. Tudo me urge. Não posso apreciar o chamado "ócio". Os planaltos são-me insuportáveis. Prefiro as quedas repentinas. É aqui que entras tu, meu amor"

Pedro Paixão