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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Dito pelo poeta.

21.10.03, a dona do chá
« Cada poema tem a sua história, é um fragmento de uma existência secreta, um estilhaço de biografia do poeta - embora o amador de versos deva ser alertado para a evidência de que, quer atravessando o claror do dia ou a misteriosidade da noite, o poeta é o portador de uma sinceridade sempre ungida pela mentira inerente à criação poética. A poesia é a voz ou a linguagem do outro: uma linguagem pessoal e intransferível dentro do sistema poético que representa a culminação estética da numerosas linguagens tribais e triviais que formam a língua de uma nação. E essa linguagem diferente é uma máscara; um esconderijo; uma metáfora; um dizer sempre outra coisa.

Assim, um poema é ao mesmo tempo verdade e mentira, rigor e desmedida, contenção e efusão, carência e exorbitância, magia e pesadelo, razão e desrazão. É um sim e um não, e ainda um plácido talvez. É mito e desmito. Possui incontáveis sentidos. Artefato verbal, completo em si mesmo, vivendo e respirando o ritmo de sua integridade e concretitude, e ainda o de suas abstrações, graças a um feliz agenciamento de sons e signos, de palavras tornadas imagens e de imagens tornadas palavras, de rimas e contra-rimas, de métricas e contramétricas, o poema pode, contudo, ser recriado e até danificado por qualquer leitor, que lê nele o que deseja ler, e o reescreve mentalmente à sua vontade, como se fosse um ditoso suplente de criador ou um ajudante de mentiroso.

E esta operação do leitor há de ser, sempre, o sinal de eficiência e da serventia do poema, do poder que tem o poeta de converter a sua aventura pessoal numa dádiva pública. Testemunha indesejável ou conviva deslumbrado, falando pelos que não têm voz - seja a voz política do humilhado e ofendido que atravessa a rua ou a voz amorosa do homem ancorado numa mulher - e cantando em nome dos seres desprovidos de linguagem, o poeta jamais está sozinho. Ele não sabe distinguir o seu começo e o seu fim. Sua solidão é ocupada pelo rumor interminável do mundo. É um ser solitário e solidário; uma criatura colectiva. »


por Lêdo Ivo, "Os Melhores Poemas de Lêdo Ivo", Global Editora, 1983.

(obs. tomei a liberdade de destacar algumas palavras e expressões que me agradaram neste excerto)

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