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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Retratos.

15.12.03, a dona do chá

Crescer

Olhinhos azuis. «São da cor do céu...», completas tu, orgulhoso da comparação que te ensinaram a fazer. Mas sem saber ao certo o que é o céu. Sem saber por que é que os teus olhos são azuis e não cor-de-rosa, a cor de que tanto gostas.

Um dia vão-te ensinar que o céu é um composto de azoto, ozono, oxigénio e dióxido de carbono. Sim, é verdade! E tu vais acreditar, porque quando fores grande já não te vai contentar a explicação que a mãe te dá agora:

«O céu é onde mora o Jesus!»

Jesus, esse nome que a mãe dá ao lugar onde te diz que a avó está. Esse lugar de longas filas de pedras brancas por onde corres, para onde saltas... Enquanto vês a mãe, de joelhos, numa dessas pedras a lavar a avó e a pôr-lhe flores em cima. Um dia, talvez vejas nesse lugar as correrias dos teus filhos...

Meu menino lindo, vai levar menos tempo até que te digam que o cor-de-rosa é para as meninas e que te impinjam o azul. Nunca te deixarão ter uma mochila cor-de-rosa para levares para a escola. Veremos como te rirás de tudo isto, daqui a muitos, muitos anos, quando usares camisas e gravatas dessa cor.

Sorriso matreiro, a dizer «gosto de ti», para que te leve comigo ao café e te dê um gelado cor-de-rosa, o teu preferido... ainda não sabes que é de morango...

Será que vais deixar de gostar de mim quando descobrires que te menti? E que na portinha pequenina, feita na parede do corredor do nosso prédio, não mora nenhum gnomo, mas sim o contador da luz?

Sei que vai ser um choque para ti perceberes por que é que o teu patinho só fala quando eu estou por perto. E não deve demorar muito até que isso aconteça, sinto que já desconfias... mas quando verdadeiramente confirmares a tua suspeita, vou-te ensinar a falar pelo patinho, assim os dois vão poder conversar a sós e já não vão precisar de mim.

Bebezinho, esses olhinhos azuis que agora encantam os adultos, um dia vão encantar namoradas. Nesse dia vou-te contar que quando eras pequenino me beijavas os lábios e dizias satisfeito que eras o meu namorado. Vou ter um desgosto, semelhante ao que tu tiveste quando o mano velho levou a casa a sua primeira namorada. Aquela de quem tens ciúmes porque a vês beijar o teu mano e a quem te recusas dar um único beijinho...

Quando tiveres a tua namorada eu já terei envelhecido, não muito, mas alguma coisa... e vou ver incrédula o quanto cresceste... Então vou-me deliciar e contar vezes sem conta as asneiras que fazias, quando ainda te chamava, com razão, bebezinho...

Felizmente, ainda faltam muitos anos da tua vida que não tenciono perder... e não vale a pena pensar no que ainda não há-de vir para breve, não agora que te tenho aqui ao meu colo a querer dormir... o patinho de borracha já dorme, digo-te eu...

«De olhos abertos?», perguntas tu.

«Pois ainda não está bem a dormir... está à espera que adormeças!», remendo eu.

Estás a crescer, é impossível ignorá-lo, começas já a duvidar de algumas coisas que te digo... não tarda muito vais saber que sou eu que falo pelo patinho...e vais saber do contador da luz... Mas isso agora não importa, anda cá, vou-te contar uma história e tu... vais sonhar com o teu patinho falador.

por Andreia Lobo (jornalista da Página da Educação)