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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( EM QUALQUER HORA )

22.06.04, a dona do chá
Nunca se sabe quando irá acontecer. Vem assim de repente.



Aquela estranha parcela do dia em que se olha para o céu e não é noite, não é dia, também não é o crepúsculo. Anoitecer? Também não. É aquele lapso de tempo em que o céu não tem qualquer tipo de brilho. Nem de sol, nem de lua, nem de estrelas. O céu é um estranho manto cinzento, tosco. A árvore, encarcerada contra o céu, mostra-se escura. Um negrume opaco. Deixa-se de olhar para cima e esquece-se de contar os passos no chão. Há que chegar o mais depressa possível ao destino. O branco do prédio destaca-se na escuridão.



Entra-se.



Ambiente abafado, muitas pessoas perto do balcão (umas reclamam em voz, outras olham para o tecto para não ter que olhar sempre para o chão), outro tanto de pessoas sentadas. Rostos doridos e angustiados. O ar é incomoda, demasiado saturado, de pessoas e da espera. Cheiro adocicado de éter.



Espera-se.



Espera-se.



Capuccino com açúcar.



Olhos no tecto, para não ter que olhar para o chão. Olhos na parede da frente, para não ter que olhar sempre para o tecto. Olhos fechados para não ter que olhar para nada. Olhos abertos para conter o coração.



Nome por nome, soa a voz no altifalante. Ouve-se a vida alheia, conversas e televisão. Mais valia que todos se calassem. Afinal, no cartaz diz: "fazer silêncio". Já agora, desliguem os telemóveis.



Faróis que fazem o movimento circular azulado. Entra um. Mais outro. Perde-se a conta.



A respiração custa, os pulmões não aguentam tanto ar. Caminha-se para a porta. Vem o frio da noite. Uma brisa, quase imperceptível. Fecha-se os olhos para senti-la. O nariz e os pulmões agradecem. A parede segura as costas, que já pesam.



Uma mulher que passa com um saco azul na mão. Senta-se na calçada em frente à porta. Em prantos, desaba. Segura o rosto entre mãos. Geme e murmura algo que somente a sua dor individual entende. A dor da perda. A dor, por ser dor. Basta.

Os outros olham embasbacados. Inclinam-se, para ver melhor. Não deviam. Mesmo em público, a dor devia ser vivida em privacidade.



Pouco a pouco, as pessoas saem com papéis nas mãos. Saem. Há quem ainda se revire na cadeira de plástico.



A porta abre-se. Olhos que vêem. Olhos que passam a respirar na normalidade.



O céu estava tão escuro...

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