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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

29.01.04

( A CAMINHANTE 1 )


a dona do chá

Ane Walker inscreve-se dentro do meu quotidiano de leituras. Não, eu não a conheço pessoalmente. Acompanho-lhe apenas as pisadas que tem deixado ao longo do caminho, em cada post que escreve. Há muito que lhe vislumbro a estrada que constrói. Todos os dias.
Encontrei o blog da Walkwoman há alguns meses e, desde aí, não pude deixar de acompanhar as suas impressões. O que o olhar de Ane capta é substanciado em palavras, de forma genuína e bela.

« Quando penso me cansar da vida, caminho. Tento me cansar de qualquer coisa, sentir dor nos pés, calcanhares e plantas, nas pernas, coxas, panturrilhas e joelhos, abdome em posição de susto, peito esvaziando e enchendo em necessidade urgente, tudo para não sentir o coração dentro. Enquanto caminho, ele pulsa violentamente, bombeia meu sangue, irriga meu corpo, órgãos vitais, todos os pontos de minha carne e pele e todas as pontas de meus dedos inertes. Bombeia violentamente a vida que caminho. Não caminho para ela, estou nela, caminho por ela, por mim, por dor ou por alegria, para senti-la de algum modo diferente. Tento senti-la então nos músculos cansados de minhas pernas. Tento senti-la no sol que ultrapassa minhas lentes ou na música que me fere os tímpanos. Caminho porque meu corpo vive independente do silêncio interior. No entanto, acontecem os dias em que meu corpo me grita e pára. É quando sento em degraus, em pedras ou na grama e ele se aquieta para dar lugar a esta outra que tento sufocar dentro de mim. Esta que caminha dentro. Incansável. Esta que tento fazer calar. » (29 de Agosto de 2002)

Pode não ser a intenção de Ane, mas sinto a escrita dela de uma forma muito pictórica. Leio cada frase e, de repente, dou por mim a reconstruir um cenário, a visualizar uma pintura onde se desenha a "estrada" que ela percorre.

« Estou caminhando. Caminho em muitos sentidos e direções. Nada procuro, mas encontro. Tropeço e perco coisas pelo caminho. Tombos. Machucados. Flores. Eu caminho. Sóis, manhãs, tardes, noites e estrelas... eu caminho. Vejo você, mas sigo. Talvez você queira vir comigo. Talvez saiba contar histórias bonitas. Talvez conheça caminhos que eu não percorri. Posso contar também. Posso mostrar. Posso caminhar com você. Estou indo. Você vem ou fica? » (13 de Agosto, 2002)