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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

19.02.10

(o coração é um órgão de fogo)


a dona do chá

dia 2 - antecipação

 

O dia amanheceu antes de anoitecermos. Na confusão dos pensamentos que se entrelaçavam com sonhos evasivos, só pestanejava e dormia alguns minutos e voltava a acordar. A luz que escapava do candeeiro não deixava a noite apoderar-se da minha retina. Mas, por outro lado, não conseguia suportar a escuridão. O tecto revela a sombra, a janela esconde o céu e os cobertores afastam o frio. Embora sentisse um calor insuportável. Não há nada mais angustiante que o tiquetaque mental de uma pessoa angustiada. A espera. Uma mente que conta cada segundo com a demora de uma hora. Levantar foi um alívio. Podemos ir? Podemos ir? Levantamos. Partimos. Como chove! Que chuva incisivamente enfadonha. Viscosa. Já não choveu o suficiente? Não poderia haver uma pausa, por favor? Percorremos estradas e auto-estradas. Seguimos o ritual previsto: tratar dos cartões de visita, seguir o risco do chão, elevador 5, porta, corredor, quarto e cama. Ele estava deitado. Chegamos a tempo. Ele estava deitado e com solidão no olhar. Senti-lhe o medo. Ainda conseguimos fazer-lhe rir. Mas lá estava o medo, à espreita. O medo de quem não sabe bem o que irá acontecer. Um medo estranho. Um medo verdadeiro. Um medo poderoso, que se apodera de todos nós, mas de diferentes maneiras. Chega o rapaz alto de olhos  verdes e diz que chegou a hora. Seria a altura de vestir a bata e a touca. Ele fica meio apressado, meio desnorteado, meio sem saber o que fazer. Como assim chegou a hora? O que significa isso? Talvez ele tenha pensado isso e tropeçava constantemente nesse pensamento. Eu mesma tropeçava e me desviava. Depois de devidamente preparado, ele subiu na maca pelos seus próprios pés. Foi conduzido por nós e pelo rapaz alto de olhos verdes até ao andar de cima. Oitavo andar. Elevador sobe. Saímos. Na porta diz “proibida a entrada de estranhos”. O rapaz diz que nós não podemos entrar. Estranho eu não me sentir estranha. Ele acrescenta que é ali que temos que nos despedir. Abraço-o e digo que tudo vai correr bem, que vou estar o tempo todo lá, que o amo, que Deus vai estar lá com ele. O rapaz o leva.
 Ataca-me uma sensação nova de querer arrancar aquela estúpida porta que diz “proibida a entrada de estranhos”. Como assim ??

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