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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( o coração é um órgão de fogo )

25.01.10, a dona do chá

- Dia 1 -

 
 
A chuva que nos acompanhou todo o percurso dava a entender que este era um dia de melancolia. De expectativa silenciosa. Dentro do carro, o silêncio era tão presente que o som da chuva no chão da estrada e o som da estrada nas rodas do carro era ensurdecedor. Mesmo quando falávamos. Era o silêncio de quem não sabe muito bem o que o espera. Ele estava parado, olhava sem ver, sem saber bem onde como estar com as mãos. “A tua mãe dizia-me que eu sempre tive umas mãos jeitosinhas”, disse meio sorriso meio triste. “E você tem mesmo”, respondi e é verdade.
 
- Trouxeste o pijama? Trouxeste os chinelos? E o meu pente?
- Sim, está tudo no saco de viagem.
 
Difícil, mesmo muito difícil, foi preencher o espaço da espera com assunto de conversa e sorriso nos lábios. Difícil, mesmo muito difícil, foi encher-lhe de optimismo quando ele era todo um acumular de medos secretos.
 
Lá dentro estava calor. Podia-se andar de manga curta. Pessoas andavam pelo corredor. Algumas débeis, com passos lentos, com pijamas e roupões. Percorriam o corredor com olhos cansados. Alguns esperançosos outros amedrontados. Tentavam andar. Curativos, cicatrizes, olhos de quem já muito da vida. Ainda há muito para dar.
 
O rapaz de bata branca aproxima-se e diz “Então Sr. F. venha comigo”. Ele olha o quarto, senta-se na cama, ainda sem saber bem o que o espera. Esta incerteza deve estar a consumi-lo. O rapaz fala connosco, explica os procedimentos, o que acontecerá no dia seguinte. Que a intervenção será de tarde. Diz-nos quem será o cirurgião. Esclarece-nos que podemos estar com ele até ele ser dirigido para a intervenção. “Ainda bem”, pensei eu.
 
Difícil, mesmo muito difícil, foi vir embora de noite e ele ficar lá. 
 
- Amanhã estaremos cá, está bem? disse-lhe
- Está bem.
 
Abracei-lhe. Apertei-o de beijos. Não o queria largar. Não o posso levar para casa e trazê-lo de volta amanhã? Não, não pode.
 
A chuva que nos acompanhou todo o percurso até a casa não dava a entender que aquela seria uma noite longa, inquieta e angustiante.
 
Uma das mais longas que vivi.