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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( o coração é um órgão de fogo )

25.11.09, a dona do chá

Tenho tido sonhos estranhos. Pesadelos. Confesso, incomoda-me ter pesadelos. Andei duas semanas seguidas a ter constantes pesadelos, que culminaram no passado fim-de-semana em dois sonhos seguidos com o meu pai. Dois pesadelos muito nítidos, dos quais até agora me lembro de cada detalhe como se tivesse vivido cada situação. A minha aflição foi tanta que acordei e não consegui dormir mais. Acordei a sentir o coração do pai batendo contra o meu e eu a tentar salvá-lo. Acordei sem saber se era noite, madrugada, sábado, domingo, o que fazer e o que pensar. Nesta segunda-feira veio a notícia: a operação foi marcada. Será em Janeiro. O meu coração disparou e não consegui parar as lágrimas. Lembrei-me dos pesadelos de imediato. Premonição? Abracei-me ao Gualter e comecei a chorar. Silenciosamente. Não conseguia parar de chorar. Mandei uma sms ao meu irmão F. . Mandei um email ao meu irmão A. . Mandei outro email aos meus amigos. Ninguém tinha coragem de dizer a ele, ao meu pai, que a operação foi marcada. E mais uma vez, fui eu quem teve de dar a notícia.

Então eu cheguei a conclusão muito simples: a indefinição é lenta e dolorosa, mas a definição com data marcada é atroz. Todos me dizem que tudo vai correr bem e eu entendo que acreditem e que desejem isso. Mas a vida tem cambiantes. Eu, na minha maneira de ser, tenho lutado para mantê-lo bem e também para me preparar para o que poderá acontecer. E a morte é uma das alternativas. Cada vez que penso nisso o desespero é uma certeza, porque nunca estamos preparados para uma perda destas. E, ao mesmo tempo, inconformo-me e penso se todo nosso esforço terá sido em vão. E acreditem, não é fácil de lidar com o meu pai. De génio forte, autoritário, orgulhoso e teimoso. Mas também doce, generoso e afectuoso. Um dos poucos homens que eu conheço que não se envergonha de chorar. Mas incapaz de dizer “eu te amo”. Um homem que ainda sonha viajar e que planeia vir a comemorar as suas bodas de ouro com a minha mãe. Sorrio quando ele diz isso. Mas, às vezes, quase sempre, ele não luta por ele próprio. Pela saúde dele. E eu fico triste e desolada. E eu me pergunto, o que eu, o que nós, podemos fazer mais? Bem sei que não está nas nossas mãos, mas o que podemos fazer mais??
Acreditem, eu não possuo respostas. Sou infinitamente cheia de falhas. Herdei grande parte do mau feitio do meu pai. Mas, na ausência de respostas concretas, idealizei alguns paliativos. Não poderei interferir no destino do meu pai, não lhe posso curar o coração, contudo, tenho como missão tornar os dias até a operação nos melhores dias dele. Transformar este Natal que se aproxima, mesmo sabendo que pode ser o último dele, num ambiente de grande alegria. Mesmo com alguma tristeza, que eu já sinto e que sei que vou continuar a sentir, tenho de esquecer de mim e me focar nele. Ele é quem interessa. Dias depois da passagem de ano ele será operado e eu quero que seja os meus olhos que ele veja antes de entrar na sala de operações. E que ao olhar-me nos olhos se lembre de todos os que o amam e que estiveram com ele até ali.