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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( cortinas que se movem )

27.10.09, a dona do chá

esta lentidão da manhã que acorda. há uma tranquilidade, mesmo que aparente, nas manhãs que se levantam. paira um silêncio pela casa. uma luz meio cinzenta. uma luz meio pálida a querer entrar pela janela. um friozinho que não é bem frio, uma leve frescura. janelas abertas para arejar a casa. lençóis que se abanam para aviar as camas. loiça lavada. chão a brilhar. garganta que dói. vontade de ficar em casa. vontade de não ver o mundo. vontade que o tempo passe e não seja visto por mim. "eu, por acaso, te conheço, sr. tempo?". passa por mim e finge que não me vê - assim é melhor. o tempo, esta angústia que me massacra, é-me mais conhecido do que eu gostaria. o tempo que se desfaz, que acolhe os dias, que recolhe as horas e os sonhos silenciados. assim, o tempo por si só, em cada canto da casa. a espreitar pelos cantos e corredores. a querer se misturar ao pó do chão. aspiro-o com a convicção de quem sabe que não o pode vencer. pelo contrário, faço-o com a convicção de saber que sou vencida todos os dias. esta lentidão da manhã que acorda no tempo gasto. esta lentidão. pudesse eu reter esta lentidão e transportá-la comigo. pudesse eu ser outro alguém. pudesse eu sentir as coisas de outra forma e ser menos verdadeira. pudesse eu olhar para estas manhãs que se levantam com tranquilidade e, talvez, assim, agarrar o tempo nas minhas mãos.