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Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( o coração é um órgão de fogo 19 )

13.04.09, a dona do chá

veredicto

 

depois de tantos dias e tantas noites de espera, aguardo impaciente pelo resultado. aguardo que seja um resultado positivo e que tudo volte a ser como antes. acreditava então que a vida podia voltar à normalidade. que foi um engano. o telefone toca e eu, com as mãos molhadas de estarem mergulhadas na loiça, agarro-me a ele. ouço a voz do meu primeiro irmão. e enquanto ele fala resguardo-me dos olhares e deixo que as lágrimas se estendam silenciosas. ele explica-me com linguagem técnica que a coisa não se vai resolver por si só. que será preciso uma intervenção. fico em silêncio. penso "que quinta-feira tão triste". penso "não é possível". penso "ele não vai resistir". e o resto do dia foi uma caminhada pesada. cada prato lavado e cada comida servida eram feitos de olhos lavados. sempre silencioso. porque desde pequena choro assim. copiosamente em silêncio.

 

confronto

 

depois, vê-lo. foi um grande esforço estar com ele, durante toda a tarde, e fazer cara confiante. porque já lhe bastava as próprias dores e o seu medo interior quanto ao futuro. falo do que ainda vamos fazer, das viagens que ele ainda há-de percorrer. no meio da dor, brilha-lhe os olhos pensar nisto. ó meu querido pai aventureiro, o mundo não te chega. e sorrio ainda mais quando quero chorar. abraço-me a ti e não te quero deixar. dou-te a comida, ajeito-te os cabelos de poeta, passo-te um creme nas pernas e penso que até isto é precioso. poder estar assim contigo.

 

anunciação

 

de noite foi também duro, muito duro. todos estavam à volta do telefone, mas ninguém teve coragem de fazer o telefonema. eu tive de dizer ao meu segundo irmão, do outro lado do oceano. disse-lhe. seguiu-se o silêncio. a incredulidade. eu sei que ele pensava como eu, que tudo havia de correr pelo melhor. que tudo poderia voltar à normalidade. "é, meu irmão, não sei mais que te diga". silêncio. ele responde-me algo com aflição na voz. sinto-lhe no timbre. sei que ele, tal como eu, não terá uma noite inteira.

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