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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

(Três Corações | impressões sobre a maternidade | 0)

(imagem retirada daqui)

 

Há alturas em que não se consegue deixar de escrever e noutras parece ser impossível. Não por falta de vontade. Simplesmente permanece assim um frémito de viver absolutamente imponderável. Uma incapacidade de colocar em linhas o que parece ser um turbilhão. Ao longo do ano que passou até agora passei muitas vezes pela necessidade de esmiuçar o que os meus olhos estavam a ver e o que o meu coração estava a sentir. Amiúde conseguia enxergar as letras e as palavras a caírem como gotas de chuva enquanto caminhava. Sem saber explicar bem, eu vestia um impermeável e abria o guarda-chuva - mesmo em dias ensolarados - e deixava-as tombarem no chão. Conseguia ler os textos que perseguiam os meus pés. Porquê não os levantei do chão? Porquê não lhes estendi a mão? Porquê não os carreguei nos braços?

Aparentemente, mostro-me impiedosa com os meus próprios pensamentos e sentimentos; como se renegasse o parentesco às minhas próprias palavras.

Não foi um acto de crueldade. Acabei por pretender uma pausa fundamental. Compreendo agora que a necessidade de viver, de ver, de depurar, de sentir, de entender e de não entender, de estar à margem era superior à acção de registar cada palavra que me surgia diante dos olhos. Às palavras a dançarem diante dos meus olhos e aos textos que pulsavam na minha mente, pedi gentilmente que esperassem com paciência. Tudo tem o seu tempo e hora adequada.

Às 37 semanas e 2 dias de gestação estava de pé, de guarda-chuva aberto, com as letras a pingarem aos meus pés. É verdade, que tinha algumas impressões registadas e alguma vontade de transcrevê-las. Pequenas frases. Mas somente agora fecho o guarda-chuva, dispo o impermeável e sinto-me preparada para regressar ao conforto de escrever: expressar o que tem sido a perda do meu pai e a alegria da maternidade.