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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

A propósito de não se gostar do que tudo mundo gosta.

Um dia o inevitável momento acontece:  sentir-se só, em cima do palco, com a luz a dar directamente contra os olhos e tudo o que se enxerga é penumbra e sombras. Desconforto, imobilidade e exclusão.

Há sempre um preço a pagar pela autenticidade. E este é um excelente legado e lição para transmitir ao meu filho. 

 

(Três Corações | impressões sobre a maternidade | 0)

(imagem retirada daqui)

 

Há alturas em que não se consegue deixar de escrever e noutras parece ser impossível. Não por falta de vontade. Simplesmente permanece assim um frémito de viver absolutamente imponderável. Uma incapacidade de colocar em linhas o que parece ser um turbilhão. Ao longo do ano que passou até agora passei muitas vezes pela necessidade de esmiuçar o que os meus olhos estavam a ver e o que o meu coração estava a sentir. Amiúde conseguia enxergar as letras e as palavras a caírem como gotas de chuva enquanto caminhava. Sem saber explicar bem, eu vestia um impermeável e abria o guarda-chuva - mesmo em dias ensolarados - e deixava-as tombarem no chão. Conseguia ler os textos que perseguiam os meus pés. Porquê não os levantei do chão? Porquê não lhes estendi a mão? Porquê não os carreguei nos braços?

Aparentemente, mostro-me impiedosa com os meus próprios pensamentos e sentimentos; como se renegasse o parentesco às minhas próprias palavras.

Não foi um acto de crueldade. Acabei por pretender uma pausa fundamental. Compreendo agora que a necessidade de viver, de ver, de depurar, de sentir, de entender e de não entender, de estar à margem era superior à acção de registar cada palavra que me surgia diante dos olhos. Às palavras a dançarem diante dos meus olhos e aos textos que pulsavam na minha mente, pedi gentilmente que esperassem com paciência. Tudo tem o seu tempo e hora adequada.

Às 37 semanas e 2 dias de gestação estava de pé, de guarda-chuva aberto, com as letras a pingarem aos meus pés. É verdade, que tinha algumas impressões registadas e alguma vontade de transcrevê-las. Pequenas frases. Mas somente agora fecho o guarda-chuva, dispo o impermeável e sinto-me preparada para regressar ao conforto de escrever: expressar o que tem sido a perda do meu pai e a alegria da maternidade.

(outra lição)

Outra lição existencial é constatar que por muito que faças, por muito que honres, por muito que abdiques; isto não é meio caminho andado para a tranquilidade. Nada está assegurado.

É facto de que esta é uma verdade óbvia e, negá-la, uma ingenuidade desprevenida; contudo, quando a conscientização desta verdade entranha-se, abala com muitos pilares solidificados. 

(escalas)

Não sabias, não sabias, que o tempo e a idade modificam a tua escala de prioridades.

Estes dois são detergentes eficazes para limpar as lentes com que se enxerga o quotidiano.

(ela não queria ser como ele)

Ter uma nova vida. Viver outras oportunidades. Caminhar em direcção a um novo rumo. São três respostas para um momento de ruptura. Esta é a verdade. A grande verdade. A vontade de romper fronteiras, derrubar paredes e caminhar sem olhar para trás. Ter a força e a determinação de fazer valer, pelo menos uma vez, a própria liberdade. Ter a coragem de dizer que viver a vida é bem mais do que a miserável amargura de lamber feridas e alimentar mágoas. Não. Ela sabia que a vida era bem mais do que isto. Ela sabia. Foi isto que aprendeu através do exemplo dos cabelos brancos carregados de rancor e ranger de dentes dele. Uma pessoa podia viver uma vida inteira, conhecer vários locais, conviver com inúmeras pessoas, passar por inúmeras provações, ter família e amigos; e, no fim, a única coisa que tem é o peso da própria mesquinhez. Devoto da facilitismo de culpar os outros dos próprios erros." Tão cobarde, tão cobarde. És terrivelmente covarde. Não quero ser como tu: fraco e cobarde", pensou. 

Ela tinha certeza de que queria ter uma nova vida, viver outras  oportunidades e caminhar em direcção a um novo rumo. Sabia ser totalmente diferente daquela pessoa imersa em sua própria arrogância e egoísmo. Sabia tudo isto e, mesmo assim, ela não sabia por onde começar. Estava tão cansada... tão cansada. 

Ela não queria ser como ele. E não iria ser. Talvez este seja o ponto de partida.



(fazer o que se gosta)

Cada vez gosto mais de escrever. Posso não o fazer com a regularidade e com a qualidade que gostaria mas quando o faço e quando embrenho-me no rumo de uma história experimento uma alegria interior indescritível. Será esta a satisfação que as pessoas sentem quando trabalham e exercem a profissão que gostam?

Se é isto, se é esta alegria e prazer, gostaria de sentir isto todos os dias.