Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Correntes de Ar

Hoje não me apetece ser simpática nem sorridente para ninguém. Detesto todo o marketing existente à volta do Dia Internacional da Mulher. Primeiro só se falava na data, depois começou esta coisa de se oferecer rosas, agora já motivam a oferta de chocolates. Entretanto, várias mulheres juntam-se para fazer jantares e festejar o "ser mulher". Dentre estas coisas todas não sei o que me irrita mais: a futilidade ou a alienação. Já sei, já sei que vivemos num país livre, onde cada um pensa, diz e faz o quer. Por isso mesmo posso manifestar o meu repúdio pela falta de reflexão e pelo excesso de correntes de ar que existe em muitas mentes. Inclusive, convém relembrar que para milhões de mulheres e crianças pelo mundo fora essa coisinha tão corriqueira e banal como a liberdade individual é ainda uma quimera. Para milhões de mulheres e crianças a realidade é a violência, opressão, desigualdade, humilhação, sofrimento. Não, hoje não me apetece sorrir nem dizer "muito obrigada" quando me oferecerem uma rosa. O perfume da rosa não esconde o persistente cheiro a podre.

Ambição.

Ter mais tempo, ter mais tempo e ter mais tempo.

Por favor, não me digam para estabelecer prioridades. Elas existem e comandam. 

Eu queria ter mais tempo para o que fica de fora da lista de prioridades, espaço do dever. Neste espaço relegado para "mais tarde" está contido e reprimido o não fazer nada e o fazer tudo de que gostamos. 

(breves)

Acordar, trabalhar e dormir cansada. A vida tem sido tão igual apesar da realidade ter sido modificada. Confesso-me cansada, com uma pontada de desânimo. O ano vai a meio e vai ser mais um ano sem descanso. Férias, então, nem pensar. Novamente. 

 

--


Também confesso-me cansada dos discursos pessimistas, "isto vai cá uma crise" e "isto a tendência é piorar". De igual forma, já causa fastio o discurso optimista "tudo se vai resolver" e "não podemos peder a esperança". E um discurso realista? Seria pedir muito? 

 

--

 

Sinto saudades descomunais do meu pai. Nunca pensei que seria assim. O pior é que não posso falar disto com ninguém porque parece fraqueza de carácter ainda não ter "ultrapassado" a sua morte. Apanho-me a chorar sem motivo. Dou por mim à espera de vê-lo virar a esquina. Parece que antecipo ouvir-lhe a tosse. Um dia ele disse-me que eu sentiria a falta dele. Ele tinha toda a razão. Doença maldita que come o ser humano por dentro até que ele perca toda a identidade e todo sinal de vida. Doença maldita que o levou. Doença maldita.

 

--

 

O meu/minha baby é a coisa mais preciosa que me aconteceu este ano; está a crescer dentro de mim e que me faz entender realmente o que significa a palavra medo. Medo que aconteça algo, medo de que venha a falhar, medo de tudo que possa prejudicá-lo/a. Espero ansiosamente por conhecê-lo/a. 

 

--

 

O meu pai nunca conhecerá o meu/minha baby. O meu/a baby nunca entenderá completamente quem foi o avô.

(Senhor Dezembro, nunca me trataste bem)

Sendo este o mês que mais detesto, que custa tanto a passar e que está a ser particularmente irritante este ano... não consigo deixar de pensar que está a ser demasiado longo, frio e inóspido.

E, num dia impiedoso como o de hoje, acrescente-se o facto de constatar - mais uma vez - que eu sou realmente uma pessoa falha, pequena, obscura, invisível e banal.  

Por hoje, bastava-me que fosse Março.

(natalíco #2)

depois o natal tem esta coisa que me irrita que é: perdeu totalmente o seu significado. tudo bem, podem dizer-me que cada um atribui um significado específico. Contudo a data não deixa de ter um significado inerente. o natal virou esta fanfarra de comida e stress. e todo mundo fica, de repente, muito piedoso. antes tarde do que nunca? talvez. talvez. 

 

[é, estou amarga. mas quando não estou amarga, penso da mesma maneira.]

(adeus, agosto...)

[Tenho de dizer que não vou ter saudades deste mês de Agosto. E não é devido ao verificado tempo inconstante. Foi um mês demasiado duro e atarefado. Só vou sentir falta da família que revi - e desta já tenho TANTAS saudades... De resto: canseira, canseira, canseira.]

( a pergunta e o espanto )

- E o que vais fazer? E tu vais conseguir arranjar trabalho? - questiona, muito espantado.

Não saberia dizer o que a ofendeu mais: a questão ou espanto do ponto de interrogação. Não saberia dizer quantas vezes teria ouvido estas insinuações e estas perguntas neste tom, desta natureza e com este tão pouco respeito. Não saberia dizer se o que a magoava mais seria ele não acreditar no seu valor ou ela não encontrar em si talento, dom e realidade. Se ela olhasse no espelho será que veria a sua imagem reflectida ou a cravada nos seus olhos a palavra fracasso. Era capaz de partir o espelho para não ter de enxergar a realidade da pergunta e a dor da resposta.

(sabor azedo)

o dia atravessado na garganta. incômodo como uma farpa de madeira entranhada na pele. constante e dormente. desde o início até o fim, prevê. há dias assim, longos. indistintos. não se sabe bem porque é assim. o porquê disto acontecer. o porquê é a resposta e não a pergunta. a questão não é importante. a interrogação é normal mas não fundamental. a resposta é o que lateja. veja bem, há dias assim em que tudo parece um banho de jactos de água fria. entenda, a certeza de que tudo isto passa e passará está presente na consciência mas não diminui esta sensação de farpa de madeira entranhada na pele. este frio na nuca. este prolongado sabor azedo.

( em concreto 2 )

esta foi uma semana que marca o culminar de muitas coisas. tenho crescido, amadurecido, provado do refinamento de algumas virtudes, limado muitos defeitos e limitações.

experimentei também certezas e incertezas, mas sobretudo certezas. vi, com muita clareza, com quem posso contar, quem são realmente meus amigos e quem está disposto a me estender o ombro para chorar (se fosse preciso ). nem sempre a proximidade física implica proximidade, lealdadade e solidariedade de coração.

sobretudo, ví de olhos bem abertos, a misericórdia de Deus diante de mim. apesar de todo o cansaço que sinto, estes tem sido dias de gratidão e aprendizado.

os meus ossos doem, dizem que são "as dores do crescimento".