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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Os Miseráveis. (1)

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Então, vamos finalmente falar sobre Os Miseráveis?

De uma forma geral... Victor Hugo arrasou comigo. Literalmente. Elevou de tal forma a fasquia que fui perseguida por uma vontade de voltar a classificar todas as leituras feitas anteriormente. As pessoas que me cercam foram massacradas pelo meu entusiasmo durante a leitura desta obra. Não conseguia falar de outro livro ou sequer pensar noutra história. A minha obsessão chegou a um ponto que durante um mês só conseguia ouvir o musical de Os Miseráveis. 

 

Jean Valjean é a grande figura deste livro, sem dúvida. Ele é o fio condutor através do qual toda a trama vai desenrolar-se. Jean Valjean, condenado a trabalhos forçados nas galés (por ter roubado um pão para matar a fome de sua irmã e sobrinhos) cumpre a sua pena e é posto em liberdade, mas passa a viver uma liberdade condicionada porque tem de se apresentar com periodicidade à polícia. Ninguém lhe dá trabalho nem sequer demonstra ter a menor misericórdia, como se apesar de ter cumprido a sua pena nunca perdesse a condição de criminoso. Ser um ex-condenado seria uma mancha da qual nunca conseguiria se livrar. Até que Jean conhece o Bispo de Digne e ele se vê diante de uma segunda chance para mudar de vida e recomeçar do zero.
O percurso de Jean Valjean é o motor do enredo mas, muitas vezes, o narrador muda totalmente o cenário, para centrar a atenção noutro personagem. Por muito que o personagem seja secundário, naquele preciso momento em que o narrador coloca o foco nele é como se o elevasse à condição de personagem principal. E esta é uma faceta deste livro que acho interessante destacar.

Muitas pessoas alertavam para o facto de que Victor Hugo divagava muito, que dedicava muitas páginas a longas descrições de factos e situações que seriam dispensáveis. Particularmente, achei estas descrições enriquecedoras. Não consigo imaginar o livro sem estas partes descritivas. Aliás, são nestes momentos em que a voz do narrador do livro é muito activa e este foi um dos aspectos de que mais gostei no livro. É como se Victor Hugo nos puxasse pelo braço com um suave "senta-te aqui comigo que eu vou contar-te algo que vai fazer com que entendas melhor os meus personagens".
De igual forma, o narrador tem momentos de reflexão sobre suas crenças e convicções. Tenho de admitir, estes momentos deixavam-me boquiaberta. Uma clareza de pensamento e uma perspicácia com a qual o autor enxergava a sociedade da sua época que, na sua essência, poderia bem ser aplicada aos nossos dias. Não é esta uma das características que torna uma obra um clássico? Penso que sim.
Foi muito estranho chegar ao fim de um livro, que me levou tantos dias de leitura e ser assaltada por uma necessidade imediata de releitura. Uma estranha sensação de que alguns detalhes teriam escapado. Sim, foi esse o meu primeiro sentimento, reler o livro. As últimas 100 páginas foram dolorosas porque eu não queria que o livro terminasse.


Concluindo, pode-se atribuir um tema a este livro? Até é possível, mas limitador. Se centrarmos a nossa atenção somente em Jean Valjean, pode-se dizer que é uma história sobre identidade, novas oportunidades, redenção e também sobre o poder do amor. Mas Os Miseráveis vai muito além disso. Toda a sociedade, no seu lado mais puro e no seu lado mais obscuro, está lá desenhada pelas palavras e mão de Victor Hugo.

 

Leituras de Janeiro.

Na primeira quinzena do ano terminei a leitura de "Os Miseráveis" e tenho a dizer que foi INCRÍVEL. Tenho andado a "rascunhar" um texto sobre a obra mas tem sido difícil colocar em palavras a experiência de leitura deste livro que, sem sombra de dúvida, foi o melhor que eu li até hoje. Como falar de algo que é perfeito? A minha opinião diante deste livro parece ser algo minúsculo e insignificante. E o "pós-leitura" de "Os Miseráveis"...? Como conseguiria ler algo que chegasse aos pés desta obra? Conclui rapidamente que teria de algo bem diferente para poder ultrapassar esta ressaca. Uma decisão com bom resultado. Dediquei-me, então, a ler "Receitas de Amor para Mulheres Tristes" de Hector Abad Faciolince e outros dois livros da Elizabeth Gilbert: o "Comprometida" e "Grande Magia".

Em Janeiro também comecei a releitura de Jane Austen com "Razão e Sentimento" (sim, optei pela tradução brasileira), algo que tenho feito pausadamente - trata-se de uma releitura a ser degustada lentamente. Também comecei a ler juntamente com uma amiga "As Meninas" de Lygia Fagundes Telles;  está em andamento e tem sido complicada. São, a autora e esta obra, extremamente elogiadas mas realmente já pensei em desistir inúmeras vezes porque não tenho sentido qualquer empatia ou ligação ao livro. Para já, estou a persistir.

(...)

"Entretanto, nada de descanso, nada de hesitação, nada de tempo de espera na grandiosa marcha dos espíritos para a frente.

A filosofia social é essencialmente a ciência da paz. Tem por fim e deve ter como resultado, a dissolução das cóleras pelo estudo dos antagonismos.

Examina, investiga e analisa; depois recompõe.

Dirige-se pelo caminho da redução, suprimindo de tudo o ódio."

 

Victor Hugo, Os Miseráveis

(...)

"O desenvolvimento intelectual e moral não é menos indispensável do que o melhoramento material. Saber é um viático, pensar é de primeira necessidade; a verdade é tanto alimento como o pão. Uma razão, em jejum de ciência e de saber emagrece. Lastimemos, do mesmo modo que os estômagos, os espíritos que não comem. Se há alguma coisa mais pungente do que um corpo agonizante por falta de pão, é uma alma morrendo à fome de luz.
(...)
Nós que cremos o que podemos temer?
As ideias não são mais susceptíveis de recuar do que os rios.
Mas pensem bem os que não querem nada do futuro. Dizendo não ao progresso, não é o futuro o que eles condenam, mas a si mesmos. Adquirem por suas mãos uma doença sombria; inoculam-se o passado. Não há senão um modo de recusar o Amanhã, é morrer."

Victor Hugo, Os Miseráveis

Lendo Os Miseráveis. (3)

Escolha o meio adequado de leitura.

Na altura em que comprei o livro de Os Miseráveis não havia muito por onde escolher. Basicamente, era publicado pela Europa-América. Entretanto, encontrei uma edição da Mel Editores e foi esta que adquiri. No Brasil, algumas editoras fazem a edição em dois volumes e talvez seja uma boa opção porque realmente o livro é volumoso. 

No dia-a-dia de leitura constatei que somente com o livro físico a leitura não rendia adequadamente. Eu já tinha o livro há uns bons quatro anos e actualmente tenho mais dificuldade de visão. Canso-me rapidamente. Por outro lado, leio bastante fora de casa o que torna inviável transportar calhamaços. Então comecei alternar com o ebook. Há vários sites de domínio público onde se pode encontrar Os Miseráveis e foi a salvação para a minha leitura. Sou fã incondicional dos ebooks e dos ereaders e, neste caso específico, facilitou-me imenso o conforto de leitura e a portabilidade.

Então, o hábito de leitura deve determinar o meio a ser utilizado para a mesma. Em leituras como esta que são, por natureza, longas torna-se fundamental estar confortável no acto de ler. No fundo, este aspecto aplica-se a qualquer leitura de um calhamaço, independentemente do género literário em causa.

Lendo Os Miseráveis. (2)

Se for ler este livro, dedique-se só e unicamente a esta leitura.

A minha experiência com este livro tem sido bem diferente das leituras que habitualmente faço. Isto porque porque tenho a tendência para ler mais de um livro ao mesmo tempo. Raramente leio só um. A única explicação que encontro é que gosto de alternar livros quando estou a ler. Então, isto se tornou um percalço quando comecei a ler Os Miseráveis. Comecei em fins de Junho e enquanto lia tudo corria bem, mas comecei a notar que ao alternar com os outros livros o meu ritmo de leitura abrandava. Então, quando retomava o livro tinha sempre de voltar atrás e reler algumas partes do livro.

Conclui então que eu deveria parar e retomar somente quando tivesse total disponibilidade. Por isso, desde Dezembro tenho me dedicado ao livro e não me arrependi da escolha feita.

Os Miseráveis demanda tempo e dedicação. A história se desenrola entre a acção dos personagens principais mas intercala com descrições de factos, locais e personagens secundários, bem como com a exposição de pensamentos do narrador. Isto tornam os capítulos longos? Sim. Mas a magia do livro está nestes detalhes. Quando o narrador explica com detalhes algo, esta descrição não será à toa. Ele está a construir o terreno para algum episódio mais adiante. Nada é dito ao acaso ou para encher páginas. 

 

Lendo Os Miseráveis. (1)

Desde 2012 que cultivava a vontade de ler Os Miseráveis. Sempre gostei desta história (que conheci através de série televisiva e de filmes) e também da banda sonora do musical. Então, quando veio ao meu conhecimento em 2012 de que seria lançado um filme/musical sobre a obra, a vontade voltou em força. Planeei ler a obra antes da estreia do filme, o que não consegui cumprir. Acabei por ir ver o musical no dia do meu aniversário em 2013 (e amo esse filme!) e o livro foi ficando de lado. 

Em 2015 comecei a ler o livro e já ultrapassei mais de metade e a cada página quase que faço uma vénia para a grandeza deste livro. Sei, quando chegar ao final, que este será um dos livros que entrará para o rol dos livros da minha vida. Há tanta coisa a dizer sobre o livro em si e sobre a experiência de lê-lo que resolvi fazer uns apontamentos sobre o mesmo. Se por mero acaso nunca leu esta obra, gostaria de deixar algumas impressões (e tentarei não dar spoiler) que podem funcionar como dicas para leitura.

(...)

As nossas alegrias são sombra; o supremo sorriso só a Deus pertence.

(...)

Quereis explicar-vos o que é a revolução, chamai-lhe progresso; quereis saber o que é o progresso, chamai-lhe Amanhã. Amanhã leva irresistivelmente a cabo a obra começada hoje. É extraordinário, mas nunca deixa de chegar ao seu fim.

 

Victor Hugo, Os Miseráveis.

Sombria coisa.

A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentativas, é a fornalha dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: é o pandemónio dos sofismas, o campo de batalha das paixões. Penetrai, em certos momentos, através da face lívida de um ente humano absorvido pela reflexão e olhai para além, observai-lhe a alma, contemplai-lhe a escuridão. Há ali, sob a superfície límpida do silêncio exterior, combates de gigantes como em Homero, brigas de dragões, de hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais visionárias como em Dante. Sombria coisa é o infinito que todo o homem contém em si e pelo qual ele regula desesperado as vontades do seu cérebro e as acções da sua vida!

Victor Hugo, Os Miseráveis