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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Correntes de Ar

Hoje não me apetece ser simpática nem sorridente para ninguém. Detesto todo o marketing existente à volta do Dia Internacional da Mulher. Primeiro só se falava na data, depois começou esta coisa de se oferecer rosas, agora já motivam a oferta de chocolates. Entretanto, várias mulheres juntam-se para fazer jantares e festejar o "ser mulher". Dentre estas coisas todas não sei o que me irrita mais: a futilidade ou a alienação. Já sei, já sei que vivemos num país livre, onde cada um pensa, diz e faz o quer. Por isso mesmo posso manifestar o meu repúdio pela falta de reflexão e pelo excesso de correntes de ar que existe em muitas mentes. Inclusive, convém relembrar que para milhões de mulheres e crianças pelo mundo fora essa coisinha tão corriqueira e banal como a liberdade individual é ainda uma quimera. Para milhões de mulheres e crianças a realidade é a violência, opressão, desigualdade, humilhação, sofrimento. Não, hoje não me apetece sorrir nem dizer "muito obrigada" quando me oferecerem uma rosa. O perfume da rosa não esconde o persistente cheiro a podre.

( empurrada )

[ por vezes, sem querer, acabo por pensar que isto de acreditar em algo é uma forma que encontramos de fugir à insanidade. munida de convicções e de verdades, encontro-me diante de mim mesma perplexa com a invalidade das mesmas. estou nauseada com a falta de amor, com o egoísmo e com a tendência escravizante dele. não há idade, doença, dificuldade que o ensine a ser alguém melhor. não. então, por vezes, sem querer, dou comigo a pensar que isto não tem solução. não há solução. estes são os dias e não posso fazer mais nada senão esperar pelo pior. sem querer, rejeito a esperança. a cada dia, a decepção aumenta. de que serve ter esperança? de que serve? tenho perdido, uma a uma, todas as esperanças que alimentei. não o posso dizer em voz alta. não o posso dizer diante da família. não o posso dizer diante dos meus amigos. não o posso dizer. mas tenho perdido, uma a uma, todas as minhas convicções. e sinto esta dor no peito. e sinto este aperto no coração. e sinto que tudo o que fiz, que abdiquei, que lutei e que trabalhei não valeu de nada. tenho dedicado os meus últimos dez anos a cuidar de alguém que não merece e que escraviza todos os que o cercam. ele é totalmente indiferente aos sentimentos alheios. mas sabe representar muito bem diante de quem quer agradar. todo ele hipocrisia e fingimento. e as pessoas acreditam. esta é a minha proveniência? por vezes, sem querer, queria ter o poder de recuperar todas as orações que já fiz e mudá-las. penso, penso constantemente: quem irá cuidar de mim quando eu estiver apodrecida pela vida? estou mais perto da insanidade do que se possa pensar. por vezes, sem querer, vejo-me diante do abismo. escuro e sem fundo. não salto. sou empurrada. ]

(mulher)

 

 

 

 

Todos os anos eu escrevo praticamente a mesma coisa no Dia Internacional da Mulher. Escrevo para - sobretudo - relembrar que este dia tem um significado que está muito além do receber uma rosa, ouvir dizer "és uma mulher fantástica" e inflar o peito com jargões feministas. O Dia Internacional da Mulher serve para - infelizmente - marcar o extenso número de mulheres que, por todo mundo, ainda são vítimas de opressão. As realidades são muitas: violência doméstica, tráfico humano, prostituição, escravatura, mutilação genital, entre tantas outras coisas.

Neste dia, peço: não me ofereçam flores, não me mandem mensagens de mural a festejar, não digam o quanto sou excepcional por ser mulher. O objectivo do Dia Internacional da Mulher não é celebrar, trata-se de uma forma de protesto. É dar voz a quem tem a voz abafada pela fome, violência e miséria. Não nos escondamos por detrás do ecrã de computador achando que só porque há meios, tecnologia e condições de vida que isto é algo generalizado a todas as mulheres. Não nos deixemos submergir na superficialidade do facilitismo dos nossos dias. Esta opressão é ainda muito visível em vários países, como algo normal e aceite; mas também surge de maneira disfarçada no nosso quotidiano, na porta ao lado, na vizinha que sorri para não se matar. Está bem mais perto do que pensamos.

Se eu acho incorrecto o facto de se celebrar este dia? Não, não é exactamente isto. Entendam, ser mulher é sensacional. Mas a questão não é esta. A questão é que este dia é para lembrar o outro – o outro que sofre – e não para puxarmos o foco para o nosso ego. Mortifico-me por ainda ser necessário haver um dia para destacar a mulher. Sinto-me desassossegada por haver um dia que, em vez de forma de protesto, serve para o marketing e as vendas lucrarem. Incomoda-me que, este ano, este dia seja também dia de carnaval, porque como diz a frase “ninguém leva a mal” e devíamos levar a mal. Devíamos encarar como uma ofensa pessoal toda a podridão e toda a opressão que reina neste mundo.

( diminuído)

Tenho as sapatilhas e o casaco manchados de sangue.

 

Um homem caído no chão. Um homem que não se aguenta em pé. Chegamos em forma de auxílio. Dos olhos lhe escorrem lágrimas seguidas de miséria e de vazio. Os olhos não o traem. Não tem nada. Nem no olhar, nem nas mãos, nem na vida. Diz que queria ser diferente, que queria casar, que queria ter uma casa melhor, que queria encontrar um rumo. Os olhos prendem-nos em súplica por uma resposta que ele já conhece. Ele sabe qual é o caminho. Ele sabe. A boca pronuncia um discurso enrolado, de difícil compreensão. Uma fala arrastada. Uma fala que se estende entre o lamento e a revolta. A boca com sangue seco nos lábios. O corpo que estremece com a própria solidão. Eu seguro-o de um lado. O G. segura-o do outro. O homem fala entrecortado. Olha para o céu e pede para não contar nada para a sua mãe. E chora. Diz que quer tomar banho e esquecer. O homem exalta-se consigo mesmo. Chora. O homem sabe qual é o caminho, qual é a solução; mas não aceita, não quer.

 

Tenho as sapatilhas e o casaco manchados de sangue. E o coração diminuído pela miséria do mundo.