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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Leituras de Fevereiro.

Não sei explicar a razão mas o mês de Fevereiro nunca é muito produtivo no que diz respeito às leituras. Foram quatro livros, sendo que dois tinham sido inciados em Janeiro.

Mariana, Susanna Kearsley (livro físico): uma belíssima leitura. Daquele tipo de leitura que nos agarra desde o início, nos transporta no tempo e nos deixa com um grande sorriso nos lábios. Tenho tanta pena que os outros livros desta escritora não tenham sido publicado em por cá. Para já, só este e "O Segredo de Sophia". Pessoalmente, esta escritora e Kate Morton são as melhores neste género. Para conhecer a sinopse de Mariana clique aqui.

Por lugares Incríveis, Jennifer Niven (ebook): Um young adult que me agradou bastante. Dois jovens estão no topo de uma torre e ambos ponderam se atirar; ele é o esquisito da escola e ela é popular. Esta é a premissa e, com franqueza, pensei que seria assim um livro para o fraquito mas dei por mim a gostar do livro. Desde já é evidente o tema do suicídio e, perceba-se, não trata do tema com profundidade. Contudo faz uma abordagem positiva de olhar para as circunstâncias e para a realidade de forma a valorizar as pequenas coisas do nosso quotidiano e enfrentar os nossos medos e fraquezas. Sei que muitas pessoas não gostaram deste livro. Não tinha grandes expectativas e talvez, por isso, tenha sido uma experiência de leitura boa.

Razão e Sentimento, Jane Austen (livro físico): O que dizer de algo que acho divinal!? Reler Jane Austen é sempre uma alegria. Este livro em específico vem provar que Jane Austen não veio ao mundo para escrever histórias de amor. Em Razão e Sentimento, encontramos a Mulher representada em várias personagens e em diferentes vivências. Elinor e Marianne Dashwood terão para sempre o meu respeito por serem personagens tão profundas e tão verdadeiras. 

As Meninas, Lygia Fagundes Teles (ebook): Ler este livro foi um processo moroso e doloroso. Para explicar isso, vou ter mesmo de fazer um post específico... 

 

 

 

 

Relendo Jane Austen. (1)

No meu dicionário pessoal "Jane Austen" surge como um sinónimo de "Zona de Conforto". Sim, ler Jane Austen é um momento de total e completo prazer.  Por volta dos 15 anos li "Orgulho e Preconceito" e desde então o amor por esta escritora estabeleceu morada no meu coração. Sim, é piegas, mas verdadeiro. 

Como eu disse anteriormente neste post, reler Jane Austen era uma meta para 2015, mas não chegou a acontecer. Disse para mim mesma que não podia deixar de fazê-lo em 2016. Sentia dentro de mim uma urgência interior a respeito disto e comecei a questionar-me sobre o porquê. Por que cargas d´água isto é tão importante?

Como qualquer coisa que identifiquemos como zona de conforto, retornar a este ponto confere um sentimento de bem-estar. No caso da leitura, faz com que o olhar pouse sobre trechos e ideias que fizeram (e ainda fazem) sentido. É verdade que ler também é, muitas vezes, fugir da zona de conforto e sermos confrontados com o desconforto. E, com certeza, hei-de viver leituras assim ao longo do ano, que incomodam e mexem com as entranhas. De igual forma, há momentos que são assim: precisamos estar cercados de coisas que façam sentido. Momentos âncora.

A releitura inscrita na passagem do tempo permite estabelecer uma nova interpretação. Então, há o conforto de voltar a uma posição de reconhecimento de algo que me fez feliz mas também há uma reinterpretação do que foi lido. 

Vejam bem, eu li Jane Austen na minha adolescência, depois na juventude e agora vou relê-la na idade madura. Parece-me ser um processo natural. Algo elementar e essencial. Algo que tenho simplesmente de fazer.

Na realidade, já dei partida ao projecto, se é que posso chamar assim. Não estipulei nenhuma regra ou método. A ideia é ir lendo lentamente e reflectir sobre os temas abordados. Quase como um passeio cuja a única preocupação é desfrutar a paisagem. Comecei com "Sensibilidade e Bom Senso" mas na tradução brasileira, "Razão e Sentimento". Não o fiz com intenção de seguir a ordem cronológica de publicação das obras. Apenas senti vontade de começar por aí. As Dashwood têm me feito companhia neste dias chuvosos de inverno e não poderia ter escolhido melhor.

Leituras de Janeiro.

Na primeira quinzena do ano terminei a leitura de "Os Miseráveis" e tenho a dizer que foi INCRÍVEL. Tenho andado a "rascunhar" um texto sobre a obra mas tem sido difícil colocar em palavras a experiência de leitura deste livro que, sem sombra de dúvida, foi o melhor que eu li até hoje. Como falar de algo que é perfeito? A minha opinião diante deste livro parece ser algo minúsculo e insignificante. E o "pós-leitura" de "Os Miseráveis"...? Como conseguiria ler algo que chegasse aos pés desta obra? Conclui rapidamente que teria de algo bem diferente para poder ultrapassar esta ressaca. Uma decisão com bom resultado. Dediquei-me, então, a ler "Receitas de Amor para Mulheres Tristes" de Hector Abad Faciolince e outros dois livros da Elizabeth Gilbert: o "Comprometida" e "Grande Magia".

Em Janeiro também comecei a releitura de Jane Austen com "Razão e Sentimento" (sim, optei pela tradução brasileira), algo que tenho feito pausadamente - trata-se de uma releitura a ser degustada lentamente. Também comecei a ler juntamente com uma amiga "As Meninas" de Lygia Fagundes Telles;  está em andamento e tem sido complicada. São, a autora e esta obra, extremamente elogiadas mas realmente já pensei em desistir inúmeras vezes porque não tenho sentido qualquer empatia ou ligação ao livro. Para já, estou a persistir.

Bicentenário O&P #4 | Leitura Comparada Orgulho e Preconceito - Portugal (Capítulos 6 ao 10)

LEITURA COMPARADA DE "PRIDE AND PREJUDICE" DE JANE AUSTEN NAS  SEGUINTES TRADUÇÕES:

"Orgulho e Preconceito" (Nuno Castro) E "Orgulho e Preconceito" (Lúcio Cardoso) | Capítulos 6 ao 10

 

Estes são capítulos muito interessantes porque vemos através deles, as reacções dos Bennet e dos Lucas aos novos vizinhos. Mr. Bingley pela simpatia e Mr. Darcy pela arrogância imperam no assunto de conversação entre as famílias e, principalmente, entre as mulheres. Jane Bennet é convidada a jantar com as Bingley e acaba por permanecer alguns dias em Netherfield por contrair um grande resfriado. Tal resultou de uma artimanha de Mrs. Bennet para fazer com que a filha pernoitasse lá e pudesse mais tempo na companhia de Mr. Bingley.  Elizabeth, preocupada com irmã, dirige-se a Netherfield e acaba por também ficar por lá a acompanhar a recuperação da irmã. Durante esses dias, decorrem diálogos extremamente interessantes entre os personagens. Permite-nos ver e compreender melhor a personalidade dos novos vizinhos e também ver, mais especificamente, a própria evolução dos sentimentos de Mr. Darcy por Elizabeth Bennet.

 

DIFERENÇAS 

EN | "Had she merely dined with him, she might only have discovered whether he had a good apetite (…)" P&P, chapter 6, pg 25

PT | "Se ela tivesse simplesmente jantado com ele, talvez tivesse descoberto apenas se era um bom garfo ou não" O&P, cap.6 , pg 16

BR | "Se ela tivesse apenas jantado com ele, poderia somente ter descoberto se ele tem bom apetite" O&P, cap.6 , pg 32

As expressões estão correctas mas confesso que tenho um fraco pela expressão "bom garfo". É uma expressão muito visual e sugestiva, que dá a entender alguém que usufrui um grande prazer em comer.

 

EN | "If I wish to think slightingly of anybody's children, it should not be of my own, however." P&P, Chapter 7, pg 32

PT | "Se eu quisesse criticar as filhas de alguém, certamente não seriam as minhas. " O&P, cap.7 , pg  20

BR | "Se eu quisesse menoscabar os filhos de alguma pessoa, decerto não escolheria os meus ." O&P, cap.7 , pg 40

 Ambas as traduções reflectem a ideia da expressão "think slightingly"; contudo, apreciei imenso a tradução brasileira e a adopção da palavra "menoscabar".  Eu desconhecia esta palavra. Experimentem pronunciá-la; a sua própria sonoridade indica, por si só, a ideia de desprezo.

 

 

DÚVIDAS

EN | "You make me laugh, Charlotte; but it is not sound (…)" P&P, chapter 6, pg 25

PT | "Fazes-me rir, Charlotte, mas nada disso faz sentido. " O&P, cap.6 , pg 16

BR | "Você me faz rir, Charlotte; mas a sua teoria não é sensata."O&P, cap.6 , pg 32

 

EN | "Mr. Darcy had at first scarcely allowed her to be pretty (…)" P&P, Chapter 6 pg 25

PT | "O senhor Darcy, a princípio, atribuíra-lhe pouca beleza." O&P, cap.6 , pg  17

BR | "A princípio, Mr. Darcy nem sequer tinha concordado com os que achavam que ela era bonita." O&P, cap.6 , pg 33

Nestas duas passagens acima transcritas, a tradução portuguesa fez mais sentido para mim.

 

EN | "The former was divided between admiration of the brilliancy which  exercise had given to her complexion, and doubt as to the occasion's justifying her coming so far alone. The latter was thinking only of his breakfast." P&P, Chapter 7, pg 36

PT | "O primeiro estava dividido entre a admiração pela resplandecência que o exercício imprimira à sua tez e a dúvida sobre se o acontecido justificava a sua vinda de tão longe. O segundo pensava apenas no seu pequeno-almoço. " O&P, cap.7 , pg 23 

BR | "O primeiro estava em dúvida sobre se devia admirar as belas cores que o exercício emprestara ao rosto da moça ou refletir que o motivo talvez não justificasse a sua vinda sozinha, de tão longe. O segundo pensava apenas no seu almoço." O&P, cap.7  , pg 44 

"Breakfast" é em português de Portugal "pequeno-almoço" e em português do Brasil "café-da-manhã". Todo o parágrafo indica que seria de manhã cedo e que estariam a tomar a primeira refeição do dia. Não percebi o porquê da opção da tradução brasileira por referir esta refeição como "almoço".

 

EN | "You have a sweet room here, Mr. Bingley, and a charming prospect over the gravel walk." P&P, Chapter 9, pg 46

PT | "Tem aqui uma sala muito agradável, senhor Bingley, e com uma vista muito agradável para a calçada. " O&P, cap.9 , pg  28

BR | "O quarto em que ela está, Mr. Bingley, é muito agradável e tem uma encantadora vista sobre a aleia principal." O&P, cap.9 , pg 55

Neste trecho ambas as traduções tem seus altos e baixos. Logo na primeira parte da frase, a tradução portuguesa parece exprimir melhor a ideia: penso que Mrs. Bennet refere-se neste fala a sala onde está a ser recebida por Mr. Bingley e não sobre o quarto onde Jane está acomodada. Contudo, a tradução brasileira mostra-se mais adequada na parte final da frase ao traduzir ""gravel walk" como "aleia principal" já que o termo "calçada" parece-me ser uma expressão moderna e urbana (por isso, aos meus olhos, não muito adequada ao contexto rural).

 

 

PREFERÊNCIAS

EN | "She has nothing, in short, to recommend her, but being an excellent walker." P&P, Chapter 8, pg 39

PT | "Ela não tem, em suma, nada que a recomende, além do facto de ser uma óptima passeante. " O&P, cap.8 , pg  24

BR | "Nada tem, em suma, que a recomende, senão ser uma excelente andarilha." O&P, cap.8 , pg 47

Este foi um momento único para mim porque não gostei de nenhuma das opções nas duas traduções para a expressão "excellent walker". Acho que ambos foram um pouco literais e empobreceram um pouco a ideia. Não seria em situações desta que se poderia ter uma certa liberdade na tradução?

 

EN | "'Whatever I do is done in a hurry', replied he;' and therefore if I should resolve to quit Netherfield, I should probably be off in five minutes. At present, however, I consider myself as quite  fixed here'." P&P, Chapter 9, pg 46

PT | "- O que quer que eu faça é sempre de um momento para o outro. - retorquiu ele. - E, portanto, se por acaso decidisse abandonar Netherfield, provavelmente partiria em cinco minutos. Contudo, de momento, encontro-me bastante estável aqui. " O&P, cap.9 , pg  28

BR | "-Tudo o que faço - replicou ele - é às pressas e, portanto, se resolvesse deixar Netherfield, eu o faria provavelmente em cinco minutos." O&P, cap.9 , pg 55

Apenas a destacar a supressão da última frase na tradução brasileira.

 

CONCLUSÕES:

Ainda é cedo para tirar conclusões profundas, mas a sensação que começo a ter com esta leitura comparada é que o nível de ambas traduções estão, até ao presente momento, muito equivalentes. O mesmo não aconteceu com a leitura comparada de Sense and Sensibility em que, no geral,  apreciei mais a tradução brasileira feita por Ivo Barroso.  A exceptuar um caso ou outro, o que tem prevalecido aos meus olhos é um baile de preferências. Ou seja, alguns momentos gosto da forma como a tradução portuguesa a descreve. Noutras prefiro a brasileira. Então, tem sido uma experiência equilibrada.

Quero voltar a reforçar de que não tenho qualquer pretensão de qualificar (ou desqualificar) qualquer uma das traduções. A intenção é apenas transcrever as dúvidas e apreciações do ponto de vista do leitor. No meu caso, uma leitora apaixonada por Jane Austen.

A ver o que reservarão os próximos capítulos...

Bicentenário O&P #2 | Leitura Comparada de Orgulho e Preconceito - Brasil - Capítulos 1 a 5

Para além do prazer de reler Orgulho e Preconceito e de fazer esta Leitura Comparada, há ainda o prazer de ver o resultado da leitura. 

Se há algo que me faz sorrir é ver que Raquel chamou a atenção para detalhes que eu não vi e que despertaram em mim uma imensa vontade de ir correndo alcançar as traduções e rever os trechos. Chega a ser uma alegria infantil de redescoberta. 

 

Acompanhem a leitura da Raquel Sallaberry no seu blogue Jane Austen em Português. Este é o 1º texto da Leitura Comparada Brasil-Portugal:

 

Orgulho e preconceito · Leitura comparada Brasil-Portugal · Capítulos 1 a 5

 

Esta aventura ainda vai no início e sei de antemão que será um percurso de muitas descobertas.

Bicentenário O&P #1 | Leitura Comparada Orgulho e Preconceito - Portugal

LEITURA COMPARADA DE "PRIDE AND PREJUDICE" DE JANE AUSTEN NAS SEGUINTES TRADUÇÕES:

"Orgulho e Preconceito" (Nuno Castro) E "Orgulho e Preconceito" (Lúcio Cardoso)

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PRIMEIRAS PALAVRAS

Inicio com a Raquel esta nova aventura pelas páginas de Pride and Prejudice. Acredito que serão dias de imensa alegria e deslumbramento. Porque será que Jane Austen tem esta capacidade perpétua de deslumbrar? Não sei explicar. Reler Pride and Prejudice é uma sensação de lar, de me sentir em casa. De alguma maneira a sua escrita abraça-me e diz-me quase num sussurro que sou bem-vinda. Uma sensação de que todos os personagens estão à porta com sorrisos e mãos estendidas. É uma sensação extremamente boa.

Esta leitura comparada não tem pretensões académicas ou segue um método rígido. Nem sequer tem como intensão apontar erros. Não sou tradutora, nem sequer tenho formação na área de estudo de literatura inglesa. Então, gostaria de deixar claro de que esta leitura comparada resulta de um acto de amor pela obra e por Jane Austen; bem como o destacar das particularidades do português de Portugal e do português do Brasil. Em tempos de afirmação do Acordo Ortográfico (sobre o qual eu desacordo), é para mim um grande prazer ainda ter matéria de comparação entre a língua portuguesa utilizada em ambos países. Há tanta beleza nesta diferença…

Como escrevi anteriormente, o resultado da leitura será publicado por mim e pela Raquel ao fim de cada mês. Abordaremos cinco capítulos de cada vez. Ao longo desta leitura comparada também procurarei abordar alguns temas que suscitam a minha atenção através de alguns trechos preferidos.

 

O INÍCIO

Para começo de conversa, transcrevo o primeiro parágrafo da obra e verão que não há grandes diferenças entre as duas traduções. É seguro afirmar que o início de Orgulho e Preconceito é dos mais emblemáticos:

 

EN | "It's a true universally acknowledged, that a man in possession of a good fortune must be in want of a wife" Pride and Prejudice, pg 2

PT | "É uma verdade universalmente aceite que um homem na posse de uma fortuna avultada necessita de uma esposa" Orgulho e Preconceito, cap. 1, pg 5 

BR | "É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de uma esposa" Orgulho e Preconceito, cap. 1, pg 9

Haverá alguém que fique indiferente a este parágrafo? Tomo a liberdade de dizer que esta afirmação prende o leitor por completo. Este e o parágrafo seguinte sempre me fazem lembrar um estilo meio teatral, algo meio ao estilo Shakespeare. Imagino sempre um narrador, em cima de um palco, a declamar: "Senhoras e senhores, é uma verdade universalmente conhecida…"  e, de seguida, surge o primeiro acto em que Mrs. Bennet e Mr. Bennet entram com o deliciosamente divertido diálogo sobre o novo vizinho, Mr. Bingley.

Dizer "é uma verdade universalmente conhecida" (opção de Lúcio Cardoso) é a opção mais usualmente utilizada. Mesmo no contexto de conversação é uma expressão usada correntemente. Nesta primeira frase, Jane Austen deixa bem claro um dos assuntos mais presente no livro: o casamento.

 

DIFERENÇAS

EN | "You take delight in vexing me. You have no compassion for my poor nerves." Pride and Prejudice, cap. 2, pg 4

PT | "O senhor tem prazer em arreliar-me. Não tem qualquer compaixão pelos meus pobres nervos." Orgulho e Preconceito, cap. 2, pg 6

BR | "Você se compraz em aborrecer-me; não tem nenhuma pena dos meus pobres nervos." Orgulho e Preconceito, cap. 2, pg 11

Ambas as traduções seguem o sentido da expressão original,  mas agrada-me que cada tradutor tenha utilizado um termo tão típico da sua nacionalidade. Em Portugal, o termo "arreliar" é corrente e acho que cai como uma luva na fala de Mrs. Bennet.


EN | "(…)and already had Mrs. Bennet planned the courses that were to do credit to her housekeeping, when a answer arrived wich deferred it all" Pride and Prejudice, cap.3, pg  10

PT |"E já a senhora Bennet tinha planeado os pratos que comprovariam os seus dotes de boa dona de casa, quando chegou uma resposta que deitou por terra todos os seus planos." Orgulho e Preconceito, cap. 3,  pg 9

BR| "Mrs. Bennet já tinha planejado os pratos à altura da fama da sua cozinha quando chegou uma resposta adiando tudo." Orgulho e Preconceito, cap. 3, pg 16

Neste trecho, encontro-me diante desta dúvida. Parece-me que "to do credit to her housekeeping" parece-me estar relacionado com a capacidade de governar bem uma casa, mais do que a qualidade da cozinha ou das refeições confeccionadas. O que faria com que a tradução portuguesa, neste aspecto, estivesse mais em consonância com o original. Contudo, a frase também indica que Mrs. Bennet estaria centrada em conceber os pratos a serem servidos, o que talvez explicasse o sentido ressaltado pela tradução brasileira, mais centrada na notoriedade dos jantares servidos por Mrs. Bennet. Na segunda parte da frase, destaco apenas a expressão "deitou por terra" por ser uma expressão bastante utilizada em Portugal.


EN | "Mr. Bingley was good-looking and gentlemanlike; he had a pleasant countenance, and easy, unaffected manners" Pride and Prejudice, cap. 3 pg 10 

PT | "O senhor Bingley era bem parecido e tinha um ar distinto, além de um semblante agradável e modos simples e francos." Orgulho e Preconceito, cap. 3, pg 9

BR| "Mr. Bingley era simpático e fino de maneiras. A sua aparência era agradável, os gestos, sem afetação" Orgulho e Preconceito, cap. 3, pg 17

O que eu gosto mais neste trecho é o destaque entre as diferenças do uso da língua em ambos países, principalmente na sua apropriação social e coloquial. Aparentemente, se alguém ler "good-looking" dirá que a tradução portuguesa estaria mais adequada isto porque traduz "bem parecido", o que destaca o aspecto físico de Mr. Bingley. Ou seja, ele seria bonito.  Enquanto que traduzir "good-looking" como "simpático" poderia parecer errado porque a simpatia tem a ver com o lado qualitativo do carácter, algo ligado mais aos sentimentos do que ao aspecto físico. Contudo, dizer "simpático" no Brasil pode estar ligado ao físico. É natural dizer que alguém é "simpático" no sentido de ser "bem parecido", alguém agradável à vista. Mais uma vez, não estou a colocar em causa nem justificar as opções dos tradutores, mas ao ler este trecho foi esta a interpretação que fiz do mesmo. Já que inúmeras vezes, lembro de aplicar o termo simpático da mesma maneira.

 

DÚVIDA

Reli esta frase várias vezes e confesso que fiquei extremamente confusa... Não vos parece que ambas dizem algo totalmente diferente entre si?

 

EN | "Lady Lucas was a very good kind of woman, not too clever to be a valuable neighbour to Mrs. Bennet." Pride and Prejudice, cap. 5, pg 19

PT |"Lady Lucas era uma mulher muito amável, mas não suficientemente inteligente para ser considerada uma vizinha preciosa para a senhora Bennet." Orgulho e Preconceito, cap. 5, pg 13

BR| "Lady Lucas era uma mulher de bons sentimentos cuja inteligência não era demasiado brilhante para impedir que fosse uma vizinha preciosa para Mrs. Bennet." Orgulho e Preconceito, cap. 5,  pg 26

De tal forma causou-me dúvida, que tive curiosidade em verificar nas outras traduções que tenho de Orgulho e Preconceito como o mesmo trecho foi traduzido. Gostei muito da opção feita pela tradução de José da Natividade Gaspar, na edição da Civilização Editora:

 

"Lady Lucas era uma senhora amabilíssima, embora não arguta bastante para que Mrs. Bennet a considerasse vizinha de grande valia", Orgulho e Preconceito, pág. 17 

 

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Nestes cinco capítulos, Jane Austen apresenta o núcleo da família Bennet, alguns habitantes da localidade e os novos vizinhos que vem habitar  Netherfield. E nisto vemos a subtileza da escritora ao desenhar a personalidade de cada um.

Anseio por continuar (a reviver) a observação dos personagens e também o percurso do trabalho de ambos os tradutores. Mal posso esperar...

 

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Update: A Leitura Comparada da Raquel:

Orgulho e preconceito · Leitura comparada Brasil-Portugal · Capítulos 1 a 5

 

 

 



Bicentenário O&P #0 | Leitura Comparada - Início do Desafio

UM AMOR SEM FRONTEIRAS

Esta é uma semana de grande alegria para todos os fãs de Jane Austen espalhados pelo mundo. "Orgulho e Preconceito", a sua obra mais aclamada e acarinha, completou 200 anos de publicação. Desde o dia 28 de Janeiro, data da primeira publicação da obra, esse amor foi visível nas redes sociais, blogues e imprensa internacional.

Pessoalmente, tem sido com satisfação que olho para o meu feed do facebook e do twitter porque através dele posso constatar manifestações  de afecto e de amor por O&P através de textos, imagens e citações da nossa querida Jane Austen. Diante deste cenário, não consegui impedir uma íntima sensação de orgulho. Uma satisfação secreta por partilhar desta devoção. Sim, porque todas nós, com maior ou menor intensidade, vivemos momentos inesquecíveis com esta obra. Não posso deixar de emocionar-me com o facto de que esta obra tem sobrevivido e, sobretudo, tem alcançado a fama e a honra que merece.

 

A MINHA PRIMEIRA VEZ COM JANE AUSTEN

Esta foi a primeira obra que eu li de Jane Austen e também foi o primeiro livro que eu requisitei na Biblioteca (juntamente com "O Monte dos Vendavais" de  Emily Bronte) quando fiz o meu primeiro cartão de utente de uma Biblioteca Municipal. Não a conheci através de algum filme. Antes, li um livro que citava "Orgulho e Preconceito" e Mr. Darcy e fiquei absolutamente curiosa. Decidi, naquele momento, que era absolutamente imperioso conhecer o dito "Mr. Darcy" citado. Então, esta obra tem um carácter especial e profundamente importante para mim. Como sabem, a primeira vez é sempre marcante e nunca a esquecemos.

Quantas vezes ri às gargalhadas com Mrs. Bennet e com o Mr. Collins? Quantas vezes quis dizer meia dúzia de verdades à Lady Catherine de Bourg? Quantas vezes aconselhei mentalmente Elizabeth para não confiar em Wickham? Quantas e quantas e quantas vezes quase sacudi Darcy? "Darcy, assim não irás conquistar Elizabeth!", pensei. Há tantos momentos, ao longo da leitura deste livro, que gerou em mim inúmeras emoções que torna-se difícil catalogar cada uma.

 

LEITURA COMPARADA

 

A convite da Raquel Sallaberry Brião, do blogue Jane Austen em Português, faremos em conjunto uma leitura comparada de duas traduções de "Orgulho e Preconceito" e pretendemos fazer a primeira publicação amanhã, dia 31. Pretendemos também publicar no fim de cada mês o resultado da cada leitura ( 5 capítulos de cada vez). Assim, poderemos fazer com calma, apreciar cada linha e olhar com maior atenção e carinho o percurso da obra. A minha atenção estará centrada neste desafio/parceria que, acredito, me concederá bons momentos de reflexão. Desde já, reitero o meu agradecimento à querida Raquel pelo convite que me dedicou.