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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Se soubesses.

Estar dividida entre os dias, entre as horas que passam. Correr atrás, ininterruptamente. Correr e ter a respiração entrecortada. Correr e deixar de sentir os pés. Perder as forças. De forma gradual, os sons desaparecem. O fim não é uma meta visível. O sol e a lua estão longe de delimitar a fronteira visível entre o dia e a noite. Não existe fim, porque é sempre início e repetição.

Das pausas e dos retornos - o que tenho feito.

Tempo de leituras e de edição de posts antigos. Este exercício tem sido interessante. Trabalhoso, mas interessante. Por vezes, fico estupefacta com algumas coisas que escrevi no passado e quase tenho vontade de me cobrir com um saco de pano. Inúmeras vezes, o pensamento "Meu Deus, Cátia, o que tinhas na cabeça para escrever isto?" surge com insistência.

Mesmo assim - mesmo munida de uma total auto-avaliação cruel - tem sido construtivo e bom. 

 

Doença.

A compreensão da imperfeição é iluminada pela certeza da falibilidade. O senso de justiça, para si e para os outros, entra em erupção e transborda pelas veias do quotidiano. Não há nada a fazer quando não há nada a ser remediado. Quando um vaso é quebrado, os seus cacos nunca poderão ser reconstituídos à condição inicial. O problema não está na imperfeição, nem na fabilidade. O que importa alcançar é o foco (da doença?).

Pensamento solto.

Assim, meio sem querer, o pensamento ganha as suas próprias asas e torna-se independente. Segue um rumo ao qual não lhe dedico muita atenção. Entre uma tarefa e outra, posso ouvi-lo. Lavo um prato e enxugo um prato e lá vai ele, pensamento, em corrida simples. Deixo-o andar, ele é uma criança: precisa do seu espaço. 

Recordações anónimas.

Esta inútil consciência de que os gestos não são suficientes e de que cada dia reserva lugar ao imprevisto. É um movimento involuntário de desencontro entre as horas silenciosas em meio ao ruído circundante e um número de coisas sem sentido. Perseguir os segundos para refazer uma série de minutos. Despender cada volume de tempo para cumprir o dia até que venha a noite.

Um tic-tac, uma contagem invisível e as nuvens raiadas de cinzento que ocupam cada azul do céu. É audível a presença de crianças a brincar ao fundo da rua. Risos e gargalhadas: a vida em pés saltitantes. Um leve farfalhar das folhas e dos galhos e o pensamento de como isto é agradável. Há um inclinar das árvores à passagem das horas e ninguém dá por isso. Quase ninguém. Talvez porque ainda seja Primavera quando todos querem Verão. Apetece esquecer as convenções da normalidade social e fechar os olhos no mover de cada passo. Fechar os olhos para ver. Sentir este som atravessar o cabelo e criar novas memórias. Recordações anónimas de uma manhã como todas as outras.

(365 Palavras | [6] cura)

*Cura 
(latim cura, -ae) 

s. f.
1. Acto ou efeito de curar ou de se curar.
2. Período em que se segue um regímen ou tratamento contra uma doença.
3. Recuperação da saúde.
4. Curativo; remédio.
5. Solução para algo.
6. Emenda, regeneração.



Estes dias de viver em suspenso. Estes dias que não são dias. Que não são um acúmulo de horas, minutos e segundos. Estes dias que não o são. Existem, têm passado, mas não são. Será um erro de escrita? Uma insanidade? Mas este tempo - que pode ser um conjunto de dias, não sei bem - existiu/existe e persegue-me. Não posso esquecê-lo. Está entranhado na pele e sinto-o; mas duvido que tenha sido sido real. E não há nada mais concreto do que isto. Há a memória: cada imagem, cada palavra soletrada e sussurrada, cada vez que o conduzi pelas mãos. Há a memória e ela está impregnada. Toma posse das noites. Interrompe o sono. Invade os sonhos.

Dizem que os dias existem e que a passagem metódica e sistemática deles conduzem à superação de qualquer coisa. Como se fosse uma milagrosa cura. Um dia acordamos e lá está ela, a memória sossegada pelo dito Senhor Tempo. Não sei se acredito nisto. Parece-me daquelas coisas que se dizem para transmitir consolo mas que, no fundo, sabemos não ser bem assim. 
O coração, este órgão de fogo e de diferentes intensidades, não cede aos ditames do tempo. Não se deixa esbater pela memória. Ele pulsa, contrai e traduz cada momento vivido. Desde o primeiro dia. Todos os arrependimentos, todas as palavras não ditas e todas as coisas que poderiam ter sido e não foram. 

O coração não consegue depurar isto dos dias que foram mas que não chegaram a ser. O coração pulsa, contrai e traduz diferentes intensidades e simultâneos sentimentos. E, no meio disto tudo, o coração sofre com a memória e sabe que o Senhor Tempo não poderá fazer nada para mudar o que já passou. O vazio. Ele simplesmente terá de aprender, de alguma forma que não sabe bem se existe, a conviver com a memória no sentido de ter uma vizinhança civilizada.

 

*Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

(365 Palavras | [5] descobrir)

descobrir *
(latim discooperio, -ire, descobrir, pôr a descoberto, destapar) 

v. tr.
1. Achar o ignorado, o desconhecido ou o oculto.
2. Fazer um descobrimento.
3. Chegar a conhecer.
4. Notar.
v. tr. e pron.
5. Destapar.
6. Mostrar.
7. Manifestar; revelar.
8. Avistar; ver; alcançar com a vista.
9. Inventar.
v. intr.
10. Aclarar, clarear a atmosfera; romper (o sol) as nuvens.
v. pron.
11. Tirar o chapéu (ou o que se tem na cabeça).
12. Cumprimentar (descobrindo-se).
13. [Esgrima]  Expor-se demasiado apresentando muito corpo.

de repente, a vida apresenta-se assim como uma grande reviravolta. e, no meio deste grande redemoinho, é preciso descobrir a própria localização. em algum momento, de alguma forma, uma pessoa perde-se. todos os pontos de direcção, dicas e mapas emudecem e não têm qualquer serventia. não indicam uma rota certa. desaprendemos a ler os sinais? e, pior ainda, como definir o momento da perda? como saber a raíz do redemoinho? 

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*Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
 

(365 palavras [4] despedaçar)

despedaçar *

v. tr.
1. Fazer em pedaços; dilacerar; quebrar.
2. [Figurado]  Confranger.
v. pron.
3. Partir-se, quebrar-se.

 

o cinzento traduz a falta de cor dos dias. há momentos, em que a cor parece querer espreitar entre as nuvens: são breves e intensos. cheiram a pedaços de céu. a tua risada, a minha risada, as mãos entrelaçadas. há uma saudade desta cor, das suas várias gradações e de como o colorido é a tradução certa dos sentimentos. eu gostaria de dizer que é aceitável que a vida seja assim. não posso. não posso aceitar o peso destes dias cinzentos. não posso aceitar. para ti, trata-se de uma questão de lógica e de um redundante "não percebo". não seria antes um "não quero perceber"? a incompreensão é uma estrada a preto e branco e sem legendas. o coração fica no meio desta estrada, partido e a sangrar.

 

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*Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

(365 palavras [3] cantilena)

cantilena |ê| *

s. f.
1. Canto arrastado e monótono.
2. Narração ou razão fastidiosa.
3. [Antigo]  Canto suave.
4. Canto das aves.
5. [Informal]  Palavreado astucioso para iludir, enganar.

 

A verdade é sempre incómoda. Nunca pertence ao próximo. Pensamos que a possuímos, que somos seus donos por excelência. Pressupomos que viveremos eternamente e que usufruiremos de uma redentiva misericórdia que nos impedirá de sofrer. Quem sabe nos livrar da morte. Quem sabe excederemos o limite razoável da nossa capacidade de compreender o amor e a vida. Inspiramos e expiramos em movimento contínuo. O peito ondula ao ritmo do sono irregular. As palavras desprendem-se como um vestígio entre dentes. Lábios que sopram sonhos como se fossem realidades momentâneas.  Olhar fixo, longínquo e lento.

-Vês os desenhos na janela?  

- Quais desenhos? 

- Não consegues ver…? 

- Não são desenhos, são os galhos despidos das árvores no parque lá fora. Eles estão a riscar o céu… Parecem-te desenhos? Sabes, se calhar, até tens razão… são desenhos. 

Observo-lhe o sono: pequenos rugidos disformes. A sua sonolência é uma expressão da sua própria amargura: uma verdade desfocada. Exasperada.  Dissolvida em pequenas doses de frases soltas. Fogem-lhe quase que inconscientemente. Pairam no ar numa cantilena rouca, grave e quase inaudível.

Inspira e expira. Vozes, muitas vozes. Mas há um silêncio que se assume acima do ruído e que se entrelaça com o vento. Os galhos secos balançam e apontam para as fronteiras do azul-celeste. Dedos estendidos ao horizonte. Mãos que se erguem e movem-se com leveza. Se fecharmos os olhos vemos esta pintura exposta na janela e esqueceremos os ruídos e as verdades incómodas.

Não há recordação que não possa ser relegada à moldura do esquecimento. Então, a verdade não é tão importante assim. A amargura é o vilão dos afectos. Envenena os seus olhos e prende-lhe a respiração. Tem de inspirar e expirar. Lentamente. E esquecer, esquecer. Tomar o fólego e estender por completo o que de melhor ainda pode abraçar.

Ainda há tempo.

Ele não sabe, mas ainda há tempo.

 

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*Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

(365 palavras [2] edição)

edição *
(latim editio, -onis, parto, publicação, representação, celebração, versão) 

s. f.
1. Acto de editar.
2. Conjunto dos exemplares que de uma vez se fazem da mesma obra.
3. Publicação literária.
4. Actividade de um editor.
5. Cada uma das realizações de um evento ou programa (ex.: edição da noite do noticiário, festival de edição anual).

 

Reler o que se escreve conduz inevitavelmente a uma constatação da imperfeição. Encontram-se erros que os olhos deixaram escapar. Conclui-se que se podia ter escrito bem melhor do que o resultado final demonstra. Sobretudo, que a emoção escondida entrelinhas não emergiu com a força pretendida. Volta-se a digitar, a martelar ideias nas pontas dos dedos. O cursor pisca com impaciência, em movimento crítico. O cursor é um contador  de segundos. Move-se e agita-se. Desfaz a aflição da expectativa. Todos estes caracteres imperfeitos conjugam-se nesta mancha negra que desenha o ecrã. Um bailado de revelações pouco óbvias mas reais. Mesmo quando ficcionadas. As palavras não se deixam escravizar pelo cursor, pelo fundo branco, pela sofreguidão; muito menos, pelos dias cinzentos. As palavras encontram libertação, mesmo que seja dentro da imperfeição. Editar é a admissão do erro. A busca pela redenção. 

 

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* Dicionário Priberam da Língua Portuguesa