Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

A propósito de não se gostar do que tudo mundo gosta.

Um dia o inevitável momento acontece:  sentir-se só, em cima do palco, com a luz a dar directamente contra os olhos e tudo o que se enxerga é penumbra e sombras. Desconforto, imobilidade e exclusão.

Há sempre um preço a pagar pela autenticidade. E este é um excelente legado e lição para transmitir ao meu filho. 

 

Ambição.

Ter mais tempo, ter mais tempo e ter mais tempo.

Por favor, não me digam para estabelecer prioridades. Elas existem e comandam. 

Eu queria ter mais tempo para o que fica de fora da lista de prioridades, espaço do dever. Neste espaço relegado para "mais tarde" está contido e reprimido o não fazer nada e o fazer tudo de que gostamos. 

(ferocidade)

...mas ela sabe que há o outro lado de si mesma. O lado da ferocidade. Devora cada página com a ansiedade de uma paixão incontrolável. Cada página é movida por dedos de vento que uivam e assobiam ao ritmo da chuva que derrama-se pela janela. A vela ilumina e aquece a noite. E ela enrola-se ao livro e despede-se da realidade. 

 

"Se me queres falar, se me queres dizer algo, se me queres conquistar, tens de fazê-lo através de tuas palavras de tinta e de papel.", ela pensa entre folhas e olhares.

 

As horas deste longo Outono, carregadas de folhas, ventos e rostos curvados ao chão cuidam de acolher a paixão. E ela não se queixa.

 

(discrição, pausa e moderação)

Ela diz com olhos brilhantes que o livro é lindíssimo e não consegue conter o seu entusiasmo. Perde-se nas palavras, nas páginas, ouve os risos, o barulho do vento a uivar na janela e consegue até enxergar os penhascos. Ela está tão apaixonada pelo que lê que esquece o mundo ao redor. O verdadeiro antídoto para o desconsolo. Quando adormece, pensa no que leu. Sonha e vive. 

 

Quem a ouve não entende, não consegue perceber o porquê do seu entusiasmo. Algo inventado pode ter tanto poder assim? A felicidade pode estar ali, num conjunto de páginas? Talvez não, mas ela não quer pensar profundamente nisso. Pensar a felicidade, invalida-a.

 

Quando ela fala sobre a sua paixão, não é compreendida. Durante alguns minutos, a sensação é de frustração. A incompreensão é uma estrada solitária. Depois conclui que sempre seria assim, sempre soube que o seu caminho seria solitário, sempre soube que a sua caminhada seria marcada por este distanciamento. Eles não entendem e não vêm sequer a necessidade de tal empreendimento.

 

Eles não sabem, talvez nunca saberão, que alguns livros tem o poder de nos depir completamente ao revelar o que somos e até aquilo que não queremos ver em nós mesmos. Como é possível nos revermos num estranho/a como se fosse um espelho? Como é possível que aquilo que um desconhecido escreva possa partir uma pessoa em mil pedaços? Como é possível que haja esta comunhão de direcções? 

 

Eles não sabem, talvez nunca saberão - e a verdade seja dita, não estão minimamente interessados em saber - que ela não consegue ter a coragem de ler todos os livros do escritor que mais ama. Cada palavra que lê dele é uma mistura de revelação, dor e deslumbramento. A consciência de si própria não é algo a ser encarado com leveza. De forma que, ela tem tentado adiar o inevitável. Tem lido com discrição, pausa e moderação. Ao contrário de tudo o que lê, usualmente com sofreguidão. 

 

"Eu sei quem eu sou", ouço-a.

 

Eles não fazem a menor ideia.

 

 

( Esta e outras coisas )

Esta firme certeza de que há coisas que me escapam totalmente ao alcance das mãos. Esta convicção de que não posso resolver tudo e de que fazer o que é correcto não implica necessariamente um resultado positivo. Esta sensação de vulnerabilidade e fragilidade. Esta clara visão de que tenho de confiar e seguir em frente.

(agora, neste momento)

Ter 36 anos não faz de mim alguém melhor. É mais do que eu pensei poder alcançar. Bem mais. 

Ter 36 anos torna-me alguém consciente dos meus limites, estou bem perto deles. Bem perto. Demasiado perto.

Ter 36 anos ensinou-me a ver quem me ama de verdade. São poucos. Os verdadeiros nunca se esquecem de mim. Nunca. 

Ter 36 anos e estar em contagem regressiva.

 

Hoje não me sinto bem. Não costumo escrever assim tão claramente, mas hoje não me sinto bem. Nada bem.

Hoje não quero ser a pessoa que se preocupa com tudo e com todos. Não quero dar uma palavra amiga. Não quero ouvir. Não quero.

(pressão e impressão)

"Tem as tensões demasiado altas e o batimento cardíaco muito acelerado. Está parada e parece que vai a correr apanhar o comboio.".

Fico estática. Parada. Sem qualquer palavra.

 

Eu poderia ter dito que o meu coração é um órgão de fogo e de diversas intensidades. Mas ele era um médico e talvez não fosse conveniente dizer-lhe isso.

 

(...)

[ eu gostaria muito de ser mais positiva a escrever. com muitos corações a voar e pássaros a cantar. com um trio de cordas no fundo a tocar. que cada palavra soasse como uma bela melodia. sinto muito, a vida não é assim.  a vida não é só isto, mas também é. quando as coisas positivas, belas e agradáveis acontecerem; procurarei falar sobre elas. para já, imaginem este parágrafo sendo escrito com som de trovões ao fundo. é o mais suave que eu consigo me posicionar neste momento. ]