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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

(a queda das cores)

Ela vai sozinha, de preto e perseguida pelo silêncio ensurdecedor da morte. Dantes ele ia ao seu lado. Mãos dadas. Tantos anos e ainda permaneciam de mãos dadas. Faziam caminhadas e sentavam-se num banco de jardim simplesmente a ver a vida que construíram a passar diante dos olhos. Esta era a vida. Eram dias de partilha e mãos unidas. Um só olhar. Os filhos vieram, os filhos foram cada um para o seu lado e eles dois permaneceram. Unidos. Enfrentavam cada dia como parte deste percurso em que os pés não se desviam do objectivo. Dificuldades, obstáculos e barreiras - tudo isto surgiu.

Tantas noites em branco. Tantas noites a tentar encontrar soluções. Tantas noites de amor. Tantas noites de respiração e de sussurros. Tantas noites a dormirem abraçados. Tantas noites seguidas de dias inteiros de palavras, gestos e infinitudes. Tantos dias, tantos anos.

As questões, uma a uma, caem aos seus pés: Por que foste antes de mim? Onde estão as tuas mãos? Como prosseguir se me arrancaram metade de tudo o que sou? O que poderá calar esta absurda estridência que a tua ausência me causa?

Ela vai sozinha e de preto porque todas as cores perderam o sentido. 

De longe, vejo-a. Ela atravessa a rua. Sozinha e de preto. A caminhar com as mãos a pender de estranheza. Pisa lentamente. Não tem pressa. Lentamente. Ao redor de si, as cores caem inanimadas. O céu perde a beleza das tardes de sábado. O inverno começou. O inverno da ausência que não tem fim.

( o poder transformador da literatura )

Eu conheci a colunista Eliane Brum da Revista Época através da leitura do blogue da querida Cássia Pires e, desde então, sigo religiosamente. Aprecio a maneira simples e humana com que ela trata as temáticas que aborda. Esta semana, como de costume, Eliane Brum escreveu um artigo extraordinário e partilho com todos um trecho dele. Está relacionado com a nossa querida Jane Austen e de como a literatura pode mudar a vida de uma pessoa. Aqui está também o link para o artigo completo, para quem quiser ler. Garanto-vos: vale a pena. (Observação: as frases em negrito são seleccionadas por mim).

 

"No momento em que o talibã agarrou com rudeza o braço do fisioterapeuta Alberto Cairo, no centro ortopédico da cidade afegã de Cabul, ele pensou: “Jane Austen não aprovaria”(...)

 

Alberto Cairo, um fisioterapeuta com uma aparência monástica que há mais de 20 anos vive em Cabul, no Afeganistão, trabalhando na Cruz Vermelha para dar novas pernas e braços a homens, mulheres e crianças que tiveram partes de seu corpo estilhaçadas na explosão de minas e bombardeios.(...)

 

(...)Alberto Cairo, um fisioterapeuta italiano mais parecido com a figura imortalizada de Dom Quixote do que com um personagem do Decamerão. Este homem com perfil de vírgula desembarcou no Afeganistão em 1989, com duas valises em que carregava os sete volumes do “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust. Uma amiga sempre insistia para que ele os lesse e Alberto pensou que, finalmente, nas noites solitárias de Cabul, teria tempo para empreender esta pequena epopeia literária.

 

Proust é raro, mas ler seu romance não é uma tarefa muito fácil. Nem mesmo para alguém que estava ali para dar dignidade em forma de próteses de pernas e braços a uma população devastada até hoje por habitar uma geografia que é ao mesmo tempo “riqueza e maldição”. Quem controla o Afeganistão, controla uma posição geopolítica estratégica. E Alberto já sabia o que os russos e depois os americanos descobriram a um custo incalculável de vidas: “Conquistar o Afeganistão não é difícil, controlá-lo é impossível”.

 

Enquanto tentava ler Proust, Alberto conheceu Mamud, um afegão que perdera as duas pernas e um braço sem jamais ter empunhado uma arma, como sempre acontece nestas guerras em que a população civil é a vítima de ambos os lados. E a perda de suas vidas é catalogada com um eufemismo: “danos colaterais”. Ah, como é preciso ter cuidado com palavras como estas, que se revelam mais ao mentir.

 

Todo dia Mamud atravessava o front sobre um carrinho, num malabarismo quase miraculoso na medida em que o empurrava com apenas um braço, o mesmo que dava a mão ao seu filho pequeno. Enquanto tentava devolver a Mamud o impossível em forma de duas pernas e um braço sem carne, Alberto descobriu Jane Austen. E se apaixonou perdidamente por ela, porque naquele mundo em que as pessoas falavam tão de perto, em que o inquiriam sem rodeios sobre tudo, em que não havia centímetros entre a pele do outro e a sua, em que o sangue, o suor e o cheiro de corpos arrebentados colavam no seu próprio, Jane Austen o carregava para uma Inglaterra onde o mal era consumado em frases cheias de voltas sem um único toque.

 

Depois de passar o dia lidando com feridos de uma guerra interminável, Alberto se refugiava na sutileza ao mesmo tempo precisa e asséptica de Jane Austen. E nem se importou quando sua casa foi assaltada, e um ladrão improvável levou dois dos sete volumes de Proust. Que ladrão seria este que roubou dois livros em outra língua, mas deixou outros cinco para que sua vítima não ficasse à deriva?

 

No dia em que um poderoso talibã o agarrou pelo braço com violência no centro ortopédico, Alberto achou que devia isso a Jane Austen. Com o braço livre, empunhou um dedo acusador e pronunciou com firmeza: “Que vergonha! Não vê meus cabelos brancos? Por acaso trataria assim o seu próprio pai? Vergonha!”. E viu o hirsuto talibã encolher-se diante dele, enquanto agradecia mentalmente a Jane Austen.  (...)

 

Assim é a palavra escrita. Uma geografia onde a memória é aprisionada para que o homem possa se libertar."

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Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – parte II



Alcançada esta Segunda Etapa da Leitura Comparada de Sense and Sensibility de Jane Austen nas traduções Sensibilidade e Bom Senso (Maria Luísa Ferreira da Costa) e Razão e Sentimento (Ivo Barroso), partilho convosco o olhar da Raquel Sallaberry sobre estes capítulos que está publicado no Lendo Jane Austen:

 

Lendo Sense and Sensibility Brasil-Portugal - parte II

 

 

Mas, a Raquel também remete para outros dois textos que acrescentam valor a dois episódios que surgem ao longo destes capítulos em análise:

 

-O bom e velho Constância

-O duelo de Razão e Sentimento 

 

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Obrigada, Raquel, por mais esta etapa!

( aromas e paris )

Ontem, no encontro virtual do Clube de Leitura Jane Austen, as opiniões estiverem ao rubro. O livro discutido foi "O Perfume" de Patrick Süskind. 

Eu particularmente fiquei decepcionada. Todas as pessoas que eu conheço que leram o livro, adoraram. Fiquei absolutamente desconsolada. As minhas expectativas estavam elevadas. Diante dos meus olhos, surgiram as primeiras páginas e parecia-me que a história seria realmente interessante. Mas depois, nada. Adormeci várias vezes ao ler o livro. Achei-o enfadonho. A escrita não me traduzia as sensações dos aromas. A questão do aroma ficou um pouco secundária, sobressaltando a questão da obsessão pelo aroma perfeito. A própria intenção do protagonista pareceu-me confusa. Nunca soube ao certo o que o escritor pretendia. Houve momentos - poucos - fantásticos que me fizeram pensar "ainda há esperança". No fim, pensei: "como assim???". 

No geral, achei que o tempo que investi nesta leitura foi um desperdício. Fiquei totalmente surpreendida por esta obra ser considerada um "livro a ser lido". A sério, há clássicos e outras obras contemporâneas bem melhores.

 

O bom disto tudo é que, mesmo que o livro se venha a revelar péssimo, os encontros do Clube de Leitura Jane Austen são sempre excelentes e divertidos. São pessoas extraordinárias que têm, cada vez mais, lugar cativo no meu coração.

 

Viva a literatura! Viva a amizade!

( empurrada )

[ por vezes, sem querer, acabo por pensar que isto de acreditar em algo é uma forma que encontramos de fugir à insanidade. munida de convicções e de verdades, encontro-me diante de mim mesma perplexa com a invalidade das mesmas. estou nauseada com a falta de amor, com o egoísmo e com a tendência escravizante dele. não há idade, doença, dificuldade que o ensine a ser alguém melhor. não. então, por vezes, sem querer, dou comigo a pensar que isto não tem solução. não há solução. estes são os dias e não posso fazer mais nada senão esperar pelo pior. sem querer, rejeito a esperança. a cada dia, a decepção aumenta. de que serve ter esperança? de que serve? tenho perdido, uma a uma, todas as esperanças que alimentei. não o posso dizer em voz alta. não o posso dizer diante da família. não o posso dizer diante dos meus amigos. não o posso dizer. mas tenho perdido, uma a uma, todas as minhas convicções. e sinto esta dor no peito. e sinto este aperto no coração. e sinto que tudo o que fiz, que abdiquei, que lutei e que trabalhei não valeu de nada. tenho dedicado os meus últimos dez anos a cuidar de alguém que não merece e que escraviza todos os que o cercam. ele é totalmente indiferente aos sentimentos alheios. mas sabe representar muito bem diante de quem quer agradar. todo ele hipocrisia e fingimento. e as pessoas acreditam. esta é a minha proveniência? por vezes, sem querer, queria ter o poder de recuperar todas as orações que já fiz e mudá-las. penso, penso constantemente: quem irá cuidar de mim quando eu estiver apodrecida pela vida? estou mais perto da insanidade do que se possa pensar. por vezes, sem querer, vejo-me diante do abismo. escuro e sem fundo. não salto. sou empurrada. ]

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