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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

(...)

" O corpo não me pediu para dormir esta noite. Deitei-me na cama, mas os olhos não se fecharam. Fiquei na luz que me encheu: desde o céu, desde o sol, uma luz a rasgar a noite e o telhado e o meu peito, uma luz a cegar-me de tudo o resto. Com as pernas estendidas, com os braços estendidos, sem os sentir, estive deitado. Penso: talvez a dor exista para nos avisar de um sofrimento ainda maior. Nas costas, debaixo da roupa, sinto dor em carne viva. Penso: a dor existe para nos avisar de uma dor maior. "

 

 

José Luís Peixoto, Nenhum Olhar

(o coração é um órgão de fogo)

duas semanas e um corredor

 

o ritmo manteve a mesma intensidade. assim um ritmo de rolo compressor. não há muito tempo para pensar, mas tem-se que pensar em tudo e estar atento a tudo. cada detalhe do desenvolvimento da recuperação torna-se prioridade: se o coração está a funcionar bem, se os diabetes estão em valores normais, se as tensões estão controladas, se a perna está a cicatrizar, se ele está deprimido, se ele está bem, se ele.

entretanto, as coisas triviais e quotidianas não desapareceram e há que resolvê-las.  e depois, repetir os gestos. refazer o mesmo caminho. percorrer os mesmos corredores.  reencontrar rostos que começam a ser familiares.   

chegar ao essencial: estar do lado dele todos os minutos possíveis para minimizar a solidão do quarto azul. “vai tudo ficar bem”, relembro-lhe todos os dias para cimentar uma confiança que eu própria ando a reaprender todos os dias.

( o coração é um órgão de fogo )

Dia 5 -  intermédios 

 

O dia seguinte foi semelhante ao dia anterior. A espera, os expectantes, as mulheres e os  homens de branco e de batas verdes. Um calor insuportável. Um aquecimento desnecessário. Continua a chover. Continua a chover e quem saberá quando irá acabar? As páginas do livro não preenchem a atenção. As páginas em branco teimam em não serem escritas. As letras dançam na mente, cada palavra a ser escrita permanece na memória. Chegará o momento, a qualquer instante. Enquanto isso, a espera.

Aparece a mulher de branco a citar nomes, repete-se os gestos: vestir a bata verde, desinfectar as mãos e veja, lá está ele sentado lá ao fundo.

Enquanto caminho, sigo em sua direcção, sinto o ambiente opressivo dos intermédios. Luzes do tecto fluorescentes, pessoas que gemem, pessoas que reclamam da dor, pessoas prostradas em camas anónimas, pessoas ligadas a fios e mais fios. Lá estava ele. Olhar perdido. Olhar distante. Cabeça baixa. Sentado, de cabeça baixa. Um beijo no rosto. Ele aperta a minha mão e com os olhos em fogo diz que eu tenho de tirar ele daquele inferno. Fala, fala, fala. Coisas ao acaso. Coisas sem sentido. Quer se levantar e vir embora comigo.  Ouve e vê coisas. Uma das mulheres de branco diz que é normal. Que é efeito da medicação. Eu penso “é tão fácil colocar a culpa na medicação”. É tão fácil. Complicado é fazê-lo entender que tudo o que está a acontecer vai passar. Que tudo vai melhorar. Que tem de ter calma. É complicado. O ar cada vez mais abafado e insistente. O barulho cada vez mais estridente. Dizem que ele vai descer para o quarto na enfermaria. Cada minuto de espera parece um passo no inferno. Entendo-lhe a queixa. Também eu não gostaria de permanecer lá naquele ambiente opressivo.

Três horas depois, descemos. A eternidade é, afinal, mensurável. Gradualmente, ele foi acalmando. Devagar. Confuso e devagar. Confuso, devagar e cansado.  Eu: preocupada, cansada e desanimada. É certa a vitória do resultado, mas mesmo aí surgem momentos de desânimo. Momentos em que questionamos se vamos ser capazes de levar todo o processo adiante.

O pior já passou, penso. Eu te amo, paizinho; afirmo-lhe. Beijo-lhe a face, antes de ir embora. O pior já passou, digo-lhe.

O pior já passou - tento me convencer e não me esquecer.