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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( o coração é um órgão de fogo )

- Dia 1 -

 
 
A chuva que nos acompanhou todo o percurso dava a entender que este era um dia de melancolia. De expectativa silenciosa. Dentro do carro, o silêncio era tão presente que o som da chuva no chão da estrada e o som da estrada nas rodas do carro era ensurdecedor. Mesmo quando falávamos. Era o silêncio de quem não sabe muito bem o que o espera. Ele estava parado, olhava sem ver, sem saber bem onde como estar com as mãos. “A tua mãe dizia-me que eu sempre tive umas mãos jeitosinhas”, disse meio sorriso meio triste. “E você tem mesmo”, respondi e é verdade.
 
- Trouxeste o pijama? Trouxeste os chinelos? E o meu pente?
- Sim, está tudo no saco de viagem.
 
Difícil, mesmo muito difícil, foi preencher o espaço da espera com assunto de conversa e sorriso nos lábios. Difícil, mesmo muito difícil, foi encher-lhe de optimismo quando ele era todo um acumular de medos secretos.
 
Lá dentro estava calor. Podia-se andar de manga curta. Pessoas andavam pelo corredor. Algumas débeis, com passos lentos, com pijamas e roupões. Percorriam o corredor com olhos cansados. Alguns esperançosos outros amedrontados. Tentavam andar. Curativos, cicatrizes, olhos de quem já muito da vida. Ainda há muito para dar.
 
O rapaz de bata branca aproxima-se e diz “Então Sr. F. venha comigo”. Ele olha o quarto, senta-se na cama, ainda sem saber bem o que o espera. Esta incerteza deve estar a consumi-lo. O rapaz fala connosco, explica os procedimentos, o que acontecerá no dia seguinte. Que a intervenção será de tarde. Diz-nos quem será o cirurgião. Esclarece-nos que podemos estar com ele até ele ser dirigido para a intervenção. “Ainda bem”, pensei eu.
 
Difícil, mesmo muito difícil, foi vir embora de noite e ele ficar lá. 
 
- Amanhã estaremos cá, está bem? disse-lhe
- Está bem.
 
Abracei-lhe. Apertei-o de beijos. Não o queria largar. Não o posso levar para casa e trazê-lo de volta amanhã? Não, não pode.
 
A chuva que nos acompanhou todo o percurso até a casa não dava a entender que aquela seria uma noite longa, inquieta e angustiante.
 
Uma das mais longas que vivi.

( em concreto 2 )

esta foi uma semana que marca o culminar de muitas coisas. tenho crescido, amadurecido, provado do refinamento de algumas virtudes, limado muitos defeitos e limitações.

experimentei também certezas e incertezas, mas sobretudo certezas. vi, com muita clareza, com quem posso contar, quem são realmente meus amigos e quem está disposto a me estender o ombro para chorar (se fosse preciso ). nem sempre a proximidade física implica proximidade, lealdadade e solidariedade de coração.

sobretudo, ví de olhos bem abertos, a misericórdia de Deus diante de mim. apesar de todo o cansaço que sinto, estes tem sido dias de gratidão e aprendizado.

os meus ossos doem, dizem que são "as dores do crescimento".

( o coração é um órgão de fogo )

- Por outro lado -

 

Há um brilho. Um brilho nos olhos que pode ser confundido com medo. Ele está presente, o dito medo, mas esse brilho que se coloca ao lado do medo compete pela preponderância no coração. Poucos entendem que esse brilho existe e que ele vive não de protagonismo, mas da firme e límpida certeza de que há algo mais. Que as coisas não podem ficar assim pela metade, sem serem resolvidas. Que a vida não pode se extinguir sem atingir o seu propósito essencial de justiça. Deixem que este brilho perdure. Este brilho é uma teimosia que perpetuo em meus olhos e que não admito que confundam  com lágrimas.

Há este brilho, que me permito, como reflexo de uma certeza que quero sempre trazer junto de mim de que tudo vai ficar bem. Não consegue abafar um brilho assim. Uma réstia capaz de iluminar. Chame-lhe esperança. Chame a este brilho, esperança. Não tenho medo de dizer: E-S-P-E-R-A-N-Ç-A. Visto-me com estas letras como se fosse uma relíquia. Tenho medo do que poderá acontecer, mas não tenho medo de confessar que tenho esperança. Que tal e qual agora ouço os pássaros a cantar pelas várias árvores que se arrastam pela madrugada.Tenho esperança de que tudo vai correr bem. Que ainda vou lhe ouvir rir e contar muitas histórias. Que ainda vamos ser todos muitos felizes. Que ainda vamos ultrapassar toda esta série de problemas que têm surgido. Não me rendo tão fácil. Não desisto.

Há este brilho, este percurso da esperança e, porque não dizer, esta certeza que chamo de fé.

Permito-me a fraqueza de descer ao mais fundo do meu ser. De experimentar o sofrimento, a dor, o medo, a ansiedade e a angústia. Mas, por outro lado, há este brilho, esta certeza, esta esperança e esta fé. Enfrento o facto de poder contribuir com muito pouco para alterar com o rumo dos acontecimentos. Sei que vou estar lá. Que se pudesse arrancava paredes para poder estar mais perto dele, na operação. Sei que Ele vai estar do lado dele. Sei que o amor subsiste a todas as coisas que vivemos e enfrentamos.

Atravesso a madrugada sabendo que há sempre o outro lado de qualquer questão, e que os dois lados convivem porque fazem parte do mesmo. Há o medo , a ansiedade, a angústia, mas há o brilho, a esperança, a fé.

Há o amor.

( 70 vezes 7 )

será que há perdão que suplante uma mágoa profunda? nestes últimos meses, neste momento, a minha mágoa é tão profunda e tão acutilante que não sei se conseguirei perdoar. é muito difícil receber descaso, ingratidão e frieza em resposta a amizade e amor. se sou perfeita? não, não sou. até imperfeita demais. porém, não dou descaso, ingratidão e frieza a quem supostamente ame. 

 

--

 

estou tão cansada que não existem palavras para descrever esta sensação. entra-me e aloja-se pelos meus ossos dentro. 

 

--

 

as noites são imensas, acompanhados pelos assobios do vento e da chuva que não dão trégua. é como um choro interminável. apetece-me dormir eternamente. apetece-me fechar-me entre lençóis. apetece-me esquecer que a vida é bem mais difícil. e cruel.

( sim, vou )

Ele se vira para mim e pergunta-me: “vais estar sempre comigo lá, não vais?”. Os meus olhos tentam esconder-lhe as lágrimas, sinto um calor, uma vontade de abraçá-lo. Digo-lhe a sorrir e com entusiasmo que sim, que todo o tempo que me deixarem eu estarei lá com ele.

Ele sorri.

Eu sorrio.

E este momento faz parte daqueles pequenos momentos que jamais esquecerei.

( o coração é um órgão de fogo )

- Por um lado -

 

Há o medo. Um não saber bem o que irá acontecer. Uma impotência diante dos acontecimentos. Concretamente ninguém pode fazer nada. Apenas insistir no cuidado, tomar os remédios na hora certa, tratar para a comida ser o mais saudável possível, verificar  se ele não tem frio e se sente bem. O resto está nas mãos de Deus e, em breve, nas mãos dos médicos também.

Há o medo e a ansiedade. Um contar das horas, dos dias, dos minutos. Uma vã tentativa de memorizar todos os momentos e todos os sorrisos e todos os olhares. Tentar deixar de lado o que não foi bom. Algumas injustiças. Algum magoar do coração dedicado. Percorrer estas paredes e estes corredores e procurar uma solução. Ansiar por esta solução. E o medo e a ansiedade são companheiras fiéis de todos aqueles que perseguem uma conclusão. Daquele tipo de conclusão que nos deixa feliz no final.

Há o medo, a ansiedade e entretanto a angústia. A passagem do tempo e o correr do processo acelera o passo e o coração. De repente, um frio na barriga se apodera da racionalidade. Que o pensamento se transborda de lembranças que latejam com os episódios do presente. E não volta, e não volta o passado. E não volta a infância. E não volta o tempo em que brincava despreocupada da finitude da vida. E não chega o dia. E não chega a hora de vê-lo for a de perigo. E não chega a hora de vê-lo recuperado. E não sei se ele um dia conhecerá os meus filhos. Aqueles que eu ainda não tenho mas espero ter.

Ah o medo, a ansiedade, a angústia. Não me abandonam. Conheço-lhes o face, sinto-lhes o cheiro e chamo-lhes pelo nome próprio.

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