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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( QUOTIDIANO )

Tantas noites insones começam a enfraquecer a minha concentração. Quase não ouço o que as pessoas me dizem. Qualquer decibel a mais torna-se intolerável. Fico impaciente. Taciturna.
Os defeitos alheios saltam-me aos olhos. Porém, são os meus próprios defeitos que me tolhem.

( porque o tempo não lhe cabe nas mãos )

neste dia, o vento balança as árvores e levanta as folhas num ruído próprio que domina o fim de tarde. ela segue, ouve, adora e lamenta. dá-lhe prazer esta música inesperada. ela lamenta que as estações se sucedam tão rapidamente. o som das folhas, das árvores, se sobrepõem ao barulho urbano. ou semi-urbano. isto agrada-lhe, o esquecer do barulho. mas o tempo, este escapa-lhe. escapar, seria um conceito ideal. escapar e esquecer.

e renascer.

( ícones )

Ontem nem quis acreditar quando vi a noticia. Estava a circular pelo Twitter e alguém referiu o facto. Já era sabido que ele estava doente, mas nunca se espera pela morte. Fico meio balançada de ver tantas referências da minha infância começarem a se desvanecer, pouco a pouco.

 

Dirty Dancing é daqueles filmes que me ficam na retina dos anos 80. E, no coração.

( rolo compressor )

cada um tem a noção da forma como as coisas devem ocorrer. pensamos que sabemos o que é melhor. eu própria, muitas, inúmeras vezes, perdi noites a cismar nos trajectos que a minha vida deveria ter percorrido e que não se concretizou. "fiz bem?", "será?", "e se...", estes tipos de coisas. nunca contamos com o imprevisto, mesmo que tenhamos consciência de que ele existe. que indivíduo chato, este tal do "imprevisto". e o pior é que quando o imprevisto aparece, parece um rolo compressor.

neste momento, sinto-me assim mesmo: comprimida, espremida, avassalada. a expectativa diante do que irá acontecer amanhã esmaga-me os sentidos. bem sei que não está nas minhas mãos, tenho consciência disto também, mas não consigo me abstrair.

resta-me uma noite inteira.

e algumas horas.

( podia ser outra qualquer )

nas pequenas coisas, nos detalhes, ela encontra alívio. ninguém entendia porque é que ela perdia tempo a passar a ferro os lençóis de cama. tanto trabalho que tinha o dia inteiro e ainda era capaz de fazer aquilo que parecia um capricho desnecessário. "não façamos então a cama de manhã. deixamos o dia todo ela desfeita, já que de noite vai ser desarranjada de novo e damos a desculpa que é para arejar.", respondia ela. respondia assim porque as pessoas não entendiam. não entendiam que ela encontrava um prazer inesperada em entrar, depois de um dia árduo de trabalho, uma cama "fresca". lençóis leves para pernas latejantes. podia ser outra coisa qualquer, já se sabe. mas era isto. o leito que envolve o corpo.

o descanso com qualidade é a recompensa do trabalhador.

(...)

«  I used to feel so strong
Even when they’d tell me
Tell me I was wrong
That I can’t live in a magic world
Coz it’s time for me grow up
And I’ve got to live like the rest of them
And I know things have been lost

 

I could pretend more then
And I could believe more then
That the world it would only get better
I could believe more then
And I could pretend more then
That this life it would only show me good times
Once when I was little

 

So here comes the next one
Next in line
Stay as young as you can
For the longest time
Coz those days flew by

Like a breeze just passing through
Once when I was little  »

 

 

James Morrison, Once, when i was little

( visões )

há uma luz baixa, uma penumbra. uma corrente de ar que percorre os corredores e que refresca a casa quase adormecida. há uma teimosia de quebrar o silêncio, a música tacteia cada sombra. quando pára, o vazio é dominado pelo som alheio da noite. carros que passam, janelas que se fecham, o dedilhar do teclado, um chiar inexplicável, um cão que ladra. este é o silêncio enganoso. gritante. a música volta a tocar abafando este silêncio. que bem recolhe simplesmente de ouvir. ouvir. ouvir. fechar os olhos e ouvir. esquecer.

principalmente esquecer.

( conversas de café )

porém

 

O homem é alto, magro, de barba e anda sempre de blazer. Não se lhe encontra algum resquício de beleza, mas ele tem-se em grande conta. Em outras palavras, se acha o máximo. Entra pelo café dentro e fala alto para que todos o ouçam. Sabes como é? Um balcão cheio de clientes e lá está a criatura a falar para ( e não com ) os outros em voz elevada, a dar opiniões e longas explicações que poucos estão interessados. Todos o acham fastidioso. Mas em toda a história há sempre um "porém" e, neste caso, o "porém" chama-se dinheiro. Ele paga bebidas a todos, oferece isto e aquilo. E, em todos os cafés, é certinho que qualquer pessoa vai encontrar uma lista extensa dos parasitas que se aproveitam deste tipo de homem. Bem, não se pode dizer que se aproveitam. É mais uma troca: ele paga as cervejas, vinho e cafés aos outros, e estes retribuem fingindo que se interessam pelo que ele diz e sempre prontos a se rirem das suas piadinhas. Será talvez uma troca justa? Este espécime não fica só por ir neste café, vai a vários. Como um vampiro em busca de um pescocinho e de sangue suculento, ele busca atenção; mais do que atenção, ele busca reconhecimento.

 

Dizia ele ontem, para quem quisesse ouvir: " a China é este grande país que é agora porque abandonou a sua maneira antiquada de ser e adoptou maneiras européias". Todos ouvem e dizem amém. Se há coisa que não existe quando cervejas são oferecidas é debate. Ou há concordância ou há pancadaria.

 

Por isso, eu ouço e penso "não vale a pena". Cada um é feliz do seu jeito, seja vampiro seja parasita.

( ... )

episódios dos outros

 

enquanto se veste, vê a sua imagem ao espelho e pensa como é que chegou até aqui. até este momento. fica alguns segundos a olhar aquela imagem tão familiar e tão desconhecida. não se recorda de ser assim. não se recorda sequer de ser algo. agradece pelo silêncio, agradece intimamente pelo silêncio do início de dia. agradece nem sabe bem o quê. vestiu a primeira roupa que lhe surgiu nas mãos, amarrou o cabelo e colocou uns chinelos. e saiu. todos a olhavam. todos. lamentou não viver num grande centro urbano onde ninguém se conhece. lamentou não ser totalmente anónima. não seria o último lamento do dia.

encontra uma conhecida, diz-lhe "bom dia". encontra outra, repete o cumprimento. não lhes parou para conversar. era educada mas não tinha tempo para pequenas conveniências.

mais tarde entenderia o porque dos olhares, seria uma amiga que lhe diria que as pessoas a recriminavam por não estar de preto. a este esclarecimento ela responderia com espanto: "haverá, neste mundo, alguma cor que traduza a dor que eu sinto? e respeito, haverá? ". a amiga não lhe saberia dizer e ela não estava preocupada com o que os outros pensam.

ela concluiu que a crueldade das pessoas traduz-se com imensa facilidade nas coisas insignificantes.

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