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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

(resfriamento sem espirros)

seria necessário um processo de resfriamento interno. um mecanismo que se auto-despoletasse a medida que começasse a ocorrer um esquentamento nervoso. um stress, um caos, um chilique que fosse. algo que equivalesse a um chuveiro de água fria. algo que não fosse de natureza emocional ou espiritual. tinha que ser algo fisicamente implantado. uma pessoa se enerva e clic lá vem o resfriamento. algo parecido com efeito "halls" mas sem "halls". algo do tipo "ar condicionado ambulante".

 

a minha mente cansada e estressada agradeceria.

(...)

» Pode então haver um momento em que o mundo pára. A idade pára. É nesse instante que se pode pensar: nunca quis ser aquilo em que me tornei, quis sempre não ser aquilo em que me tornei. Com o mundo completamente parado, com a idade parada, não é difícil parar também e, rodeados de fragmentos: uma existência inteira feita de vidro estilhaçado e espalhado no chão: o mais natural é baixarmo-nos sobre os calcanhares, pousar os cotovelos sobre os joelhos dobrados e, com cuidado, esticar as mãos para, com a ponta dos dedos, se começar a escolher cada fragmento, distinguir o que se deve abandonar do que se deve manter. Desistir não é sempre mau. Há vezes em que não se pode evitar. Todos nos dizem continua, continua, mas é o mundo que desiste, inteiro, à nossa volta.  «

 

 

"Desistir" (25.08.09), José Luís Peixoto.

 

( "olha só, o bagulho tá frenético..." )

... dizia ele toda a vez que abria a porta da cozinha, a fazer aquela cara de mau misturada com um riso de fugida. no início, eu ficava a olhar. meio anestesiada. no fim, eu já caía na gargalhada. nós somos três, mas totalmente diferentes uns dos outros. totalmente. mas de nós os três, ele é o que tem um humor impagável. uma boa disposição. claro que eu sou a mais carrancuda.  um humor mais seco. ele é o segundo, eu sou a terceira. o mais velho tem seus dias de humor e seus dias carrancudos também, mas de nós ele é o mais calmo, sem dúvida. somos três e somos todos diferentes. que estranho isso.

 

com ele aqui foi como um ciclo se fechando. sei que ele tem medo, como nós também temos. como eu tenho, de cada minuto ser a última vez. ele veio, esteve connosco, viu nossos problemas e dificuldades, ajudou, participou, apontou o que estava certo e errado, falou, aconselhou, riu, chorou e morria de saudades de quem deixou do outro lado. nem parece que foram três meses. passou a voar. a voz dele sempre alta, sempre forte, sempre sonora, preenchendo cada canto da casa. que bom que foi. nós três juntos, como quando éramos pequenos, mas melhor ainda, porque somos adultos e temos noção da passagem do tempo. só não foi alegria completa porque ele estava aqui, mas o seu coração estava dividido. que bom seria se ele não estivesse sozinho. que bom seria se a rô e a pequena também tivessem estado aqui. é tão ruim viver dividido... é tão ruim.

 

e quando ele partiu, desatei a chorar, como quando era criança e não podia ver o meu pai a brigar com meus irmãos. desatei a chorar em silêncio como faço sempre, copiosamente em silêncio, para que o mundo não me ouça, para que eu não me reveja. e pude dizer antes de ele cruzar a passagem:

 

-"olha só, eu te amo viu?"

 

 

 

(cheguei aos 33 anos com olhos de adeus)

foi com estes meus olhos de adeus que carreguei estes últimos dias. não posso dizer que a vida tenha sido totalmente despropositada. sei que há coisas que acontecem porque tem de ser e outras que jamais entenderei porque aconteceram de determinada forma. este tem sido o ano mais estranho que tenho vivido. ano do pior e do melhor. alegria e tristeza ao mesmo tempo. ano do imprevisível. do inesperado. do desconhecido. ano de muitas questões em aberto. o questionamento sempre foi uma constante na minha vida, mas este ano tem sido particularmente exaustivo. conseguir submergir destes dias de estranheza e de insanidade...

às vezes, procuro fechar os olhos, por momentos, sabes como é? simplesmente fechar os olhos. esquecer. esquecer o adeus. esquecer de dizer adeus. esquecer que poderá existir um adeus. e se este adeus acontecer sem ter acontecido? e se não houver oportunidade para o verdadeiro adeus? será que não digo adeus todos os dias ao lhe fazer uma cevada quente? será que estes meus olhos que se fecham, para não ver ou para não ver demais, já se contorcem de adeus?

 

porque é que eu que estes meus olhos têm de viver sempre marcados pelo adeus?

tu, que me conheces, consegues dizer-me, porque temos de viver divididos e marcados pelo adeus?