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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( deixa-te andar )

não me fales das horas que guardarias dentro do bolso com intenções de aprendizado. não me fales dos ditos e dos desditos que bombardeiam os teus olhos. o céu não se tornará mais azul  por causa dos dias sacrificados e das noites brancas. os episódios passam por ti e tu os vês como num espelho. um reflexo daquilo que é e não o que gostarias que fosse. não te censures e não penses. pensar é um acto de envenenamento diário com a consequência da morte imediata dos sentimentos. deixa-te andar. não te prendas também aos sentimentos. que trazem eles senão dor? a dor é o fim último. não para ser alcançado, mas tudo leva a dor. e daí, uma dormência. latente. não lenta. mas sistemática.

( banda sonora de infância )

Pode-se lamentar e muitos até ridicularizam aquilo que Michael Jackson se tornou. Uma figura patética.

Eu quando ouço falar dele lembro-me imediatamente de "Billie Jean" e "Thriller"; e não da figura estranha que ele se tornou. Primeiro, a incredulidade; depois tristeza. Ainda quase que não acredito. Tristeza, pelo que ele podia ter sido e não foi.

Não posso renegar a banda sonora da minha infância, e o Michael faz parte dela. Nesta altura, acreditava que o mundo era um lugar lindo, cheio de música e dança.

Que ele tenha encontrado, finalmente, algum descanso.

( sssshhhhhh )

esta é hora do silêncio, quando se ouve o respirar, quando o teclar é um som ensurdecedor. reeencontro-me nesta amplitude da madrugada que se avizinha. estou aqui, bem sei, como nos dias antigos, em que o sono era um amigo e o pensamento assumia o comando do querer. não podia conciliar-se no resíduo da pálpebra lenta. conheço bem este silêncio. conheço bem esta angústia. não desejaria que fosse assim. madrugadas secas, sem sentido. não estará o dia todo ressequido de significado?

( fascínio )

o fascínio pelo rumo dos dias permanece. o que virá, o que há-de acontecer e o que fazer deles. por vezes, resta uma repulsa pelo que se concretiza. como se a realização do que não se esperava fosse uma má surpresa.

os dias se desenvolvem. não há como parar o seu caminhar. se estamos no meio do caminho ou se estamos fora da estrada, certo é que fazemos parte do percurso.

( o coração é um órgão de fogo 22 )

Ela diz que eu vivo o sentimento de luto por antecedência. Que sofro como se cada vez que acontece fosse a derradeira. Eu nunca havia pensado nisso. Agora penso demasiado. Ela me pergunta o que vai mudar na minha vida se o pior acontecer e, também, o que irá acontecer se o melhor se verificar. Eu não lhe sei responder. “Sei lá”, digo. Tenho pensado bastante nisso. A resposta continua a mesma. Não sei. Como prever uma reacção?

 
Outra pessoa me diz que tenho de manter a esperança. Eu olho-a e digo que não. Talvez porque não entenda totalmente o que é isto de ter esperança. Mas lembro do gosto amargo da queda na pós-esperança. Limito-me a dizer-lhe que não, que não tenho esperança. Prefiro não ter. Se tudo correr bem, fico feliz. Se correr mal, estou a meio caminho de não sofrer na totalidade. Eu quero que tudo corra bem, que ele fique bem, que todos fiquemos bem. Que a nossa família permaneça sempre. Mesmo com todos os nossos defeitos. Mas querer isto não me cega os olhos para o possível quadro. Nesta altura, questiono-me: há forma de me auto-controlar diante de uma possível perda. Terei capacidade de superar? Não seria a primeira vez a experimentar a perda, quando andávamos sobre aquele chão verde. Tento viver cada dia, fazer o meu melhor e procurar afastá-lo de si próprio. Ele e a sua fraqueza são os seus principais inimigos.
 
A vida tem estado em suspenso até que a operação ocorra. A vida e o coração correm, desafiam cada dia com indiferença como se as horas não fossem um obstáculo. Eu não consigo segurar nada, nem a vida nem o coração e nem as horas.
 
Prossigo.
Sistematicamente.

( madrugada )

cansaço. extremo cansaço. ausência. uma luz indirecta. uma luz que se apaga. a noite que se estende e que se prolonga. sem nada a dizer.

 

o corpo que dói e a mente que lateja. procurar algo. esquecer tudo. seria possível esquecer e simplesmente adormecer. conta-se as horas em cada lento pestanejar. os olhos aguardam a hora do esquecimento. a hora em que caem de forma natural e resoluta. até que voltem a renascer.

( Feira do Livro )

A Feira do Livro da minha terrinha já está em andamento. É como outras feiras do livro de outras terrinhas: nos stands das editoras estão os miúdos da escola; corre-lhes nas veias a antecipação das férias, os livros são um pretexto. O bibliotecário da cidade anda de um lado para o outro feito pavão. Todos os anos ocorre um evento musical inserido nesta Feira, e costuma ter algum interesse. Ano passado, foi o Sérgio Godinho. Este ano, nada de interessante a registar. Quanto à oferta literária, não posso dizer que me queixe. Não sei porquê, mas é a primeira vez que encontro os livros a um preço acessível. Então concluo, que a crise está aí em força. Já adquiri três livros interessantes. Um do José Eduardo Agualusa - “Passageiros em Trânsito” – há alguns anos que sigo a escrita dele. Outro livro é o “O tempo dos desenraizados” de Elie Wiesel, confesso que será a primeira vez que leio algo deste escritor. E, por último, “Morreste-me” de José Luís Peixoto. Este já estou a ler. Ando fascinada com a escrita deste escritor. Já o conhecia, mas só agora tenho aprofundado o meu conhecimento. Neste livro, no “Morreste-me” enxergo-me. Não é a primeira que o digo, que questiono, mas provavelmente repetirei muitas mais vezes esta questão: como é possível eu me reconhecer nas palavras dos outros? É como um reencontro.

 

Então, a minha conclusão sobre a Feira do Livro da minha terrinha é a seguinte: pode não ser perfeita, pode ser pequena, mas vale sempre a pena. Nela eu encontro algumas relíquias.

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