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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

...

Jan Lakey

 

 

"Sunny days
Where have you gone?
I get the strangest feeling you belong
Why does it always rain on me?
(...)

Oh, where did the blue skies go?
And why is it raining so?"
 

Why Does It Always Rain On Me?, Travis

(carcaça inútil)

Ela lava a loiça e vê o pequeno vaso de flores. Bem pequeno, só tem quatro rosas minúsculas e amarelas. Enquanto faz a sua tarefa rotineira, dá-se conta de que elas estão a secar. Pensa uma de duas alternativas terão acontecido: 1. esta casa não é para plantas e flores, elas falecem; 2. as flores absorveram à ausência de vida que as rodeiam. Lembra de como gosta de plantas e flores. Lembra aquilo que a mãe diz sobre as flores “quero tê-las e recebê-las enquanto for viva, depois de morta não vale a pena”. Entende o que ela diz. Se ela não estiver para recebê-las, para quê servirão? Sim, entendo o seu raciocínio.

 

Ela, por seu lado, pensa um pouco diferente. Ela gostava de saber que depois de morta e enterrada, plantaram à sua volta um jardim. Queria estar rodeada de flores. Não interessa se o que sobrar dela seja uma carcaça inútil e meia dúzia de cinzas. Para quando alguém passar por lá, ou pela sua carcaça inútil enterrada a sete palmos, pense “tu te lembras dela? gostava tanto de flores!”. Partindo do princípio que alguém lá irá… Talvez não. Ser esquecido talvez não seja tão mal assim. Quando se é em vida, não deve ser muito difícil depois de morto viver com isso… E se for para ser lembrada, ela queria que fosse assim. Ela queria ser lembrada como um sorriso que uma pétala de flor desperta.
 
A loiça está lavada, o café feito e a vida segue seu rumo. Ao fundo, vê o vidro da janela embaciado e escorrido pela chuva. Vê que ela é assim, como este vaso de flores. Absorveu a ausência de vida. Está ali, de lado. À vista de todos, mas de lado. Só se vão dar conta, quando estiver totalmente morta.
 
 

" Quem será a estranha figura

A um tronco de árvore encostada

Com um olhar frio e um ar de dúvida?

Quem se abraçará comigo

Que terá de ser arrancada? "*

 

*vinícius de moraes

( desequilíbrios ambientais )

Noites que não conferem descanso e que passam rápido demais. Uma chuva demasiadamente incessante. O vento que a acompanha, anuncia o dia cinzento que há-de vir. Dias cinzentos e tristes. Dor de cabeça e garganta que não desaparecem. Apetece-me dizer ao mundo que a culpa do tempo estar assim é minha. Não tem nada a ver com desequilíbrios ambientais. Estou aqui à mercê da minha saúde. O céu chora em solidariedade.

(...)

«When the day is long and the night, the night is yours alone,

When you're sure you've had enough of this life, well hang on.

Don't let yourself go, everybody cries and everybody hurts sometimes.»

 

 

Everybody hurts, REM

...

alice dalton

alice dalton

 

 

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.
 

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(uma gota)

Não concordarei apenas porque é necessário e porque tem de ser. Não concordarei apenas porque a vida exige cedências. Sobre o tema “cedências” eu poderia escrever uma obra em vários volumes. Apetece-me estar sossegada. Um dia não chega para isso. Há tanto a fazer que um dia é uma gota. Uma gota não chega para matar a sede. Bom mesmo seria ter o mar inteiro. Uma imensidão à minha frente.

( touro )

 

Leio em cada frase a revolta e a tristeza da minha amiga Lb. Imagino-a a levar tudo à frente em fúria cega. Entendo-a. Ou melhor, entendo a sua revolta. Mas estou longe de sofrer metade do que ela está a sofrer. Não basta o que ela já perdeu e ainda querem lhe retirar os vestígios. Ela ainda não está preparada para esquecer-lhe o perfume. Ela ainda não está preparada para esquecer seja o que for. Ela acredita que se as coisas permanecessem tal e qual sempre foram e se estivessem onde sempre estiveram, ela poderia sentir uma certa proximidade e, talvez, uma esperada segurança.
Saiu porta fora. Disse que não voltava mais. Pode ser que sim, um dia. Para já, não é fácil.

(esvaziamento)

 

Revejo-me frustrada, triste e cansada. Como se todos os esforços, toda a atenção e todo o carinho fossem em vão. Neste momento, perdi um pouco a esperança de vê-la recuperada. Sinto-me vazia. Esvaziada, mais propriamente. Ver, todos os dias, a sua insatisfação e a sua tristeza demonstram-me que não há muito mais que fazer nem muito mais para acontecer. Porque a recuperação, em qualquer situação, tem de partir da própria pessoa. Tem de existir a vontade para tal. Eu pensava que formávamos um núcleo, uma família, mas vejo que pode não ser assim. Sinto-me deslocada e frustrada. Porque abdiquei dos meus sonhos? Valeu a pena?

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