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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( FINO E CORTANTE )

Em passos naturais ia pela estrada fora. Podia ter esperado por um transporte público. Para quê? Meia hora de caminhada só lhe faria bem. Ficou satisfeita de pensar que fez a melhor escolha. A acertada. Sentia o sol sobre os seus pés, ainda lutando contra o frio da manhã. Mas, sobretudo, sentia aquele vento fino e cortante. Fez-lhe lembrar a aragem da serra. Fez-lhe lembrar os relatos da infância da sua mãe, quando ela dizia que em pleno Inverno andava descalça, porque naquele tempo não havia dinheiro para sapatos.
Achou invulgar o frio naquela manhã. O seu cabelo, que havia lavado antes de sair de casa, já estava em completo desalinho e ondulado pela aragem. Não se importou. O frio não a incomodou. O vento não a incomodou. Estranhamente.

O dia despertava para a caminhada. Ela despertava para o dia.

( VIRTUALIDADE )

< G. pode não responder porque o seu estado está definido como Ausente >



C. diz:

Que a ausência do meu amor pesa-me como um lamento, um ai, um desalento.

C. diz:

Vejo o teu nome e não te vejo, nem através de palavra escrita ou de um cumprimento. Sei que, neste momento, deves estar ocupado. O que fazes? Como te correu o dia? Tens frio? Tens fome?



[Não houve resposta]



< C. ficou offline >

( QUEM DITA AS LEIS )

Fica decretado, a partir de hoje, que todos os comentários indecorosos serão apagados. A crítica, a partilha de ideias, o esboço de um pensamento, tudo isso é bem aceite. Ordinarices é que não.

Liberdade de Expressão?

Aqui quem dita as leis sou eu.

( JOGOS LUNARES )

É sempre a ti que eu procuro. É o teu sorriso que me conforta. Irritam-me as coisas que te afastam de mim. Não podíamos retornar ao tempo em que éramos só nós os dois? Juntos fazíamos uma multidão. E víamos jogos lunares.

( NÃO ME CONHECES )

Para aqueles que procuram dar a entender que possuem a perspicácia sobre tudo e mais alguma coisa, estendo o meu levantar de ombros. Não é uma letra, não é um gesto, nem mesmo uma pressuposição que revelam seja o que for.

( DA SIMPLICIDADE DOS GESTOS - 2 )

Ana sentia-se uma estranha dentro daquela casa. E era. Mais que tudo, sentia-se uma intrusa. Terreno incerto aquele, onde todos viviam juntos, mas não se olhavam não se ouviam. As refeições eram feitas sem conversas. Silêncio criado pelo hábito.

O que não seria muito diferente do que acontecia com as outras pessoas.

( DA SIMPLICIDADE DOS GESTOS )

Podia falar de tantas coisas: do que lhe tinha acontecido durante o dia, do que sentia, do que pensava. Mas Ana permanecia quieta. Não lhe interessava falar sobre si própria. Não queria ouvir o som da sua voz. Inquietava-lhe ser o centro das atenções. “Que tenho de especial?”.

Agradava-lhe o trabalho silencioso de ajeitar as roupas, fazia com carinho como se estivesse em casa. Pegava na peça de roupa, abanava no ar para desamarrotar, pegava no ferro de passar e deslizava-o com cuidado e destreza. O vapor encontrava a pele do seu rosto e criava uma película brilhante. Parecia suor, mas não era.

Juntava peça com peça e as distribuía conforme os respectivos quartos e gavetas. Gestos maquinais. Todos os dias, sempre igual. Mas era também agradável. Não precisava pensar. Por poucas horas, esquecia-se de tudo. Via outras vidas.

Como se estivesse no cinema.

( ENTRECORTADO )

a noite. esta noite, em específico. imensa. tenho sono, tenho frio. sinto a tua falta. vagueio sozinha no nosso espaço. não quero encontrar o vazio dos lençóis. não sei lidar com a tua ausência.

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