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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( ... )


O grande amor




Haja o que houver /
Há sempre um homem para uma mulher /
E há de sempre haver /
Para esquecer um falso amor /
E uma vontade de morrer




Seja como for /
Há de vencer o grande amor /
Que há de ser no coração /
Como um perdão pra quem chorou




Vinícius de Moraes

( VALE A PENA SONHAR )

Um dia li neste blog o seguinte:




« Há um ano iniciámos um processo do qual não conhecemos o fim. Há um ano fomos à primeira consulta de infertilidade, na MAC.
Passou um ano e já encaro as idas às consultas de outra forma. Se há um ano escondi de todos a minha impossibilidade de ter filhos, neste momento não sinto vergonha de o reconhecer. Sentia-me inferiorizada, incompleta e mais um monte de coisas que não consigo explicar. Não vou mentir e dizer que ideias absurdas não me povoam os pensamentos de vez em quando, mas isto não é o que interessa falar agora.
Passou um ano (com consultas, exames e afins) e ainda não sou mãe. A dor permanece. A ausência do filho que se deseja continua a ser sentida, embora com menos desespero e com mais paciência.
(…)
Esta minha experiência tem-me ensinado várias coisas e nesse sentido penso que a aprendizagem me torna uma pessoa um pouco melhor. Não melhor do que alguém. Apenas um pouco melhor do que era.
Este ano tive de aprender a esperar, a ser paciente, a depender e a não ser uma menina mimada que exige o seu doce.
A infertilidade dói, mas agora afirmo: sei que vou ser mãe quando, e se, Deus quiser»





E hoje leio:




« É verdade, estou grávida!
Até me custa a acreditar que estou a escrever isto. Sonhei tanto com uma gravidez, imaginei tantas vezes como ficaria feliz, como seria bom poder partilhar com todos, mas mesmo assim não imaginei que fosse ficar assim, sem palavras. »




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Hoje, sinto alegria pela felicidade desta moça desconhecida, mas que aprecio pelo que escreve e, sobretudo, pela coragem revelada.




Parabéns, menina Quezia!

( CONSEGUIRIA? )


[ Compreendia com grande clareza a sombra nos olhos da D. . Conhecia aquela sombra que estacionava entre o movimento ondulante de seus cílios. O seu sorriso tentava distrair os olhares mais atentos. Conseguiria…? ]




Antes de dormir, passava pelo quarto dos seus dois filhos, fazia um carinho e depositava um beijo de boa noite na testa de cada um. Ficava ainda uns segundos, encostada na porta, a olhá-los adormecidos. Deixava acesa a luz do corredor, para que eles não acordassem com medo. Até quando poderei deixar a luz acesa…?




D. ia pé ante pé até a cozinha, fervia água, acrescentava-lhe algumas ervas e esperava pela infusão. Para conciliar o sono, mais tarde. Como se isso fosse possível. D. trazia duas xícaras, uma para ela outra para seu marido. “O que vai ser de nós?” pensava ela. “Até quando poderemos viver assim?” verbalizou. Ele via a sombra de preocupação, também ele se preocupava, mas não sabia dar uma resposta. Não conhecia a solução. Nem todos os problemas acabam no fim de um capítulo. Nem todos os finais se assomam em horizontes ensolarados. Enquanto aquecia as mãos na xícara de chá, acreditava na mudança, acreditava que o alvorecer poderia ser diferente, que juntos encontrariam uma solução. Ela também acreditava nisso. O “entretanto” é muito complicado… Até quando teremos uma infusão quente…?




[ Compreendia o que ela estava a sofrer. Não vivi eu também tantas rejeições? Cada carta enviada e não respondida, é um passo descompassado dentro do quotidiano. Conhecia aquele pousar de olhos no chão, como a não querer ver o que está adiante. Conseguiria…? ]

( TRANSFORMAR A NOITE EM DIA )

Há dias que são escuros como noites. Não nos reservam novidades. Não nos olham nos olhos. Dirigem-se para muros caiados. Dirigem-se para ruas sem saída ou para ruas labirínticas. Seria melhor que os dias fossem como cortinas, de tecido leve e suave, que protege a vista do sol intenso, mas deixa passar alguma luminosidade.


Os meus dias são como noites, disse ela. E eu ouvi. Enquanto olhava para as rachaduras das paredes, ainda ouvia a frase. [e não era o rádio, estava desligado]. Aquela que me vê do lado de dentro do livro ainda repete a mesma frase. Aquela que se deita entre páginas de revelações fala ao meu pensamento. Poderia ser um espelho. Poderia ser aquela inumerável quantidade de folhas caídas da mesa. Eu podia ter sido muitas coisas, disse ela também. Inimagináveis. Mas não detinha grandes sonhos, nem era muito ambiciosa. Queria viver e fazer viver. Não queria estar confinada às ideias alheias. Nem ser prisioneira das suas próprias ideias.

Como transformar o dia em dia? - interrogava-se. Ela não era como os outros, a chuva, o vento e a neblina não consistiam num incómodo. Eram alegorias dentro da escuridão.
Há dias que são tão tristes, tão tristes, que se transformam em noites. E os dias convertem-se em sucessões de semanas.



Repete-me, bem junto ao ouvido, que tudo vai ficar bem. Talvez, assim, o sol empurre o manto escuro da realidade.

( OUTROS ARES )

Os emigrantes (I)




Estudava, mas não conseguia marrar. Mesmo assim, Joana chegara ao 12º ano sem chumbos. Pensava em ir para a faculdade, ainda que não soubesse bem para quê. Mas tarde descobriu que o sacrifício para entrar na universidade pública, a mais barata, devia ter começado logo no 10º ano. Menos namoro, menos discoteca. Enfim, menos com menos daria mais. Mas a bela matemática não era o forte da "cachopa". E não podendo os pais pagar a sua transferência para o externato no secundário, Joana deveria ter marrado.


O pai bem avisara Joana que se queria ser “alguém na vida” – alguém como ele nunca havia sido – “tinha de comer a relva” e dar o “tudo por tudo no sprint final”. Mas Joana – que todos os anos convencia a mãe a pedir ao médico o atestado de dispensa da educação física – nunca entendera muito bem o alcance das palavras do pai. Pelo menos, até ver que a média conseguida era curta demais para “atingir o objectivo” de poder estudar para ter alguma das profissões dos seus sonhos.


Por isso a ideia de andar pelo mundo fora a salvar a vida às vítimas da guerra e da fome ficara de lado. Bem ao lado da vontade de lutar pela defesa dos direitos dos mais desfavorecidos.


Sem saber que rumo dar aos estudos, Joana acabara por escolher um dos muitos cursos, de mensalidade acessível, que vira anunciado num desdobrável de uma universidade privada. A euforia de ser caloira fê-la esquecer que detestava o curso, mas chegado o fim do ano Joana não aguentou e desistiu. “A pagar por pagar”, explicara aos pais, pagaria um curso de “jeito”. Bastava mais algum dinheiro e já poderia frequentar um curso de Medicina ou de Direito numa faculdade privada de qualidade. O dinheiro extra seria ganho com o seu “suor”. Os pais aprovaram a ideia e Joana foi trabalhar para um supermercado.


Os primeiros 200 euros de salário serviram a Joana de desforra pelo que nunca pudera comprar. Depois de umas quantas roupas novas, e de marca, os restantes salários foram poupados a um máximo de 100 euros/mês. Mais era impossível.


Um ano passado sobre o começo da ‘jorna, o saldo da conta poupança jovem de Joana era de 1200 euros. Uma quantia que os pais sabiam resultar de um bom esforço do qual se orgulhavam bastante. Mas que um comum administrador de uma faculdade privada de qualidade diria servir apenas para pagar três meses de aulas.


Sem dramatismos, Joana continuou a sua escalada pelo mundo laboral. Conseguiu subir até ao patamar do telemarketing.
Horas e horas de auscultador colado ao ouvido e 300 euros no fim do mês. Nada mau pensou Joana por uns momentos até que a avisaram de dois senãos mensais. Segurança Social e IRS. O seu primeiro ano de isenção tinha acabado pelo que teria agora obrigatoriamente de pagar 92.86 euros para a "reforma" e deixar “retidos na fonte” 30 euros para as finanças. 122.86 "vicissitudes" do trabalhado independente. "Um escandalo", bradou o pai de Joana, sem saber a quem insultar por tal despautério.


O panorama estava longe de ser animador quando João, a cara-metade de Joana, surgiu em casa da rapariga com a proposta de emigrarem para a Suíça. Um primo seu, de férias em Portugal depois de uma jornada de seis meses de trabalho nos Alpes, prometia arranjar emprego para o casal num hotel na montanha. Trabalhariam nove horas diárias e ganhariam 1500 euros por mês. Hospedagem em quartos para o efeito na estância balnear onde o hotel estava localizado e refeições feitas lá mesmo, sem custos acrescidos. Não foi preciso fazer muitas contas. Com o dinheiro poupado Joana pagou a viagem de avião. E trocou os sonhos pelo ramo hoteleiro.






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[E, se calhar, a Joana fez muito bem... Mas essa é apenas a minha opinião]

( ENIGMA )


« (…) todos os romances de todos os tempos se debruçam sobre o enigma do eu. Logo que se cria um ser imaginário, um personagem, está-se automaticamente confrontado com a pergunta: o que é o eu? Através de quê se pode apreender o eu? »




Milan Kundera, A Arte do Romance

(MUDANÇA DE HUMOR)


Há quem veja nesta insistência de falar sobre as estações do ano algo de superficial. Como quando se encontra um vizinho no elevador e para evitar o constrangimento do silêncio, diz-se “Tem feito muito frio, não é mesmo?”.
Eu gosto de falar no tempo e nas estações do ano. Um dia acordo com o Outono a enfeitar a janela, e me surpreendo com a ligeireza com que o Verão passa. Afecta-me logo o humor.



Se isso me torna superficial, paciência.

( REGRESSO AO FIM )


Parece que só agora o Outono mostra os seus efeitos. Venta, as folhas das árvores sacodem pelo ar e o céu assume cores cinzentas. Há uma tristeza no Outono, como se tudo caísse, como se todas as coisas chegassem ao fim. Há uma certa melancolia no Outono. Apetece-me o aconchego do cobertor, um chá quente “entre-dedos” e um livro “entre-olhos”. Apetece-me sair no fim da tarde e pisar folhar secas. Apetece-me não me lembrar que o Verão acabou.