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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

( ENTRE NÓS, UM OCEANO 10 )

Procurei por ti. Sabias disso? Sabias que procurei por ti? Não estive diante da tua casa. Nem chamei por teu nome (embora o repetisse mentalmente). Marquei o número, seguiu-se o som opaco da chamada (dantes as chamadas tinham um som mais estridente) insistente (tão ansioso como eu), mas nada. Ninguém atendeu. Será que não estás ou ainda não chegastes em casa? Será que foste comemorar com os teus amigos em algum lugar? É que já não conheço as tuas rotinas. Nem sei quem são os teus amigos. Sei quem és. O teu carácter e a tua força.


Noutros tempos, seria uma algazarra. Os primos a correr pela casa e a brincar de "queimado" no lado de fora de casa (alguém ainda faz isto nos dias de hoje?). Havia sempre algum primo a tentar comer escondido (sempre que tentei fui apanhada!) o brigadeiro que a tua mãe fazia (e tudo o que ela faz é uma delícia). Ou então iríamos discutir e fazer logo as pazes, que isso também fazia parte de se ser criança. Eu queria sempre ter algo para dizer, porque tu tinhas sempre resposta para tudo e não queria que me achasses idiota.


A vida não volta ao que era e, provavelmente, não se deve lamentar isso. Entrego-me, contudo, ao hábito de enxergar estas cores e formas, estes cheiros e sons.


Longe daqui, comemoras. Sim, eu sei que comemoras. Faz parte da tua natureza alegre e festeira. Aí ainda é o teu aniversário, aqui não. Já é madrugada.


Sandra, queria tanto que ouvisses a minha voz a desejar-te um "feliz aniversário" tímido e embargado, como sempre me acontece ao expressar os meus sentimentos. Eu sei que ouviria uma risada - como só tu sabes dar - e ficaria com os olhos encharcados de saudades.


Tal e qual como agora.

( O MUNDO CONTINUA A GIRAR... )

... e segue o seu rumo natural. Nada estanca para assistir ao desenrolar dos factos. Eu perco o sono, a saúde, a paciência, a tranquilidade e a clareza - entre outras coisas mais que agora não tenho grande entusiasmo de relembrar. Tudo isto porque não sei "não pensar" nos problemas. Não sei e não consigo encostar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente, enquanto lá fora os nós continuam enredados.


Parece que esqueço do mundo e de outras tantas responsabilidades. Que me perdoem os lesados por esta situação.


Quem me dera que houvesse um remédio imediato para o desassossego. Eu me ofereceria para cobaia.

( NOVAS PARAGENS 2 )

o 5º elemento:

« estou entre paredes da solidão
que não me deixam viver o acordar
moro entre dois traços sem fim
procurando em vão a felicidade
corro entre fantasmas do passado
desenterrados no voar de gritos
moro na colisão dos muros
findados pela loucura » 15.06.2004

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uns gritos inaudíveis (Maurem Kayna):

« visito espelhos na água que contemplo, recheada de vivos musgos, mergulho espelho nos olhos que deixo chover e o retrovisor que me cospe brancuras agudas. vejo na lua opacidade de não-espelho e invejo a esfera macia, aconchegada em névoa de inverno limpo e lamento os pés cravados no chão. superfícies vítreas e aquosas repitem-me. repito eu os dias... até? » 07.06.2004

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O Microcosmos mudou de endereço

( EM QUALQUER HORA 2 )

Nunca se sabe quando irá acontecer. Vem assim de repente. Quase que se cria uma rotina. Sabe-se que daqui há uns tempos, lá se estará novamente. Dessa vez demorou mais do que das outras vezes.

( IRONIA? )

Enquanto a senhora - aquela que traz o saco azul nas mãos - chora do lado de fora, algumas pessoas olham curiosas, inclinam-se para frente para ouvir melhor o relato da dor. A dor alheia é sempre um prato que se come devagar. Outras pessoas, não se importam nem em olhar nem com a dor; inclinam-se para a frente, mas para ouvir melhor o programa "Levanta-te e Ri".

Dá o que pensar... qual será a real ironia disto tudo? coscuvilhar a dor alheia para esquecer a própria ou distrair-se com um stand-up comedy que está a dar na televisão?

Ironicamente sufocante.

( EM QUALQUER HORA )

Nunca se sabe quando irá acontecer. Vem assim de repente.



Aquela estranha parcela do dia em que se olha para o céu e não é noite, não é dia, também não é o crepúsculo. Anoitecer? Também não. É aquele lapso de tempo em que o céu não tem qualquer tipo de brilho. Nem de sol, nem de lua, nem de estrelas. O céu é um estranho manto cinzento, tosco. A árvore, encarcerada contra o céu, mostra-se escura. Um negrume opaco. Deixa-se de olhar para cima e esquece-se de contar os passos no chão. Há que chegar o mais depressa possível ao destino. O branco do prédio destaca-se na escuridão.



Entra-se.



Ambiente abafado, muitas pessoas perto do balcão (umas reclamam em voz, outras olham para o tecto para não ter que olhar sempre para o chão), outro tanto de pessoas sentadas. Rostos doridos e angustiados. O ar é incomoda, demasiado saturado, de pessoas e da espera. Cheiro adocicado de éter.



Espera-se.



Espera-se.



Capuccino com açúcar.



Olhos no tecto, para não ter que olhar para o chão. Olhos na parede da frente, para não ter que olhar sempre para o tecto. Olhos fechados para não ter que olhar para nada. Olhos abertos para conter o coração.



Nome por nome, soa a voz no altifalante. Ouve-se a vida alheia, conversas e televisão. Mais valia que todos se calassem. Afinal, no cartaz diz: "fazer silêncio". Já agora, desliguem os telemóveis.



Faróis que fazem o movimento circular azulado. Entra um. Mais outro. Perde-se a conta.



A respiração custa, os pulmões não aguentam tanto ar. Caminha-se para a porta. Vem o frio da noite. Uma brisa, quase imperceptível. Fecha-se os olhos para senti-la. O nariz e os pulmões agradecem. A parede segura as costas, que já pesam.



Uma mulher que passa com um saco azul na mão. Senta-se na calçada em frente à porta. Em prantos, desaba. Segura o rosto entre mãos. Geme e murmura algo que somente a sua dor individual entende. A dor da perda. A dor, por ser dor. Basta.

Os outros olham embasbacados. Inclinam-se, para ver melhor. Não deviam. Mesmo em público, a dor devia ser vivida em privacidade.



Pouco a pouco, as pessoas saem com papéis nas mãos. Saem. Há quem ainda se revire na cadeira de plástico.



A porta abre-se. Olhos que vêem. Olhos que passam a respirar na normalidade.



O céu estava tão escuro...

( TROPECEI NESTA FRASE E GOSTEI )

« uma opacidade insistente cobre a retina, como véu ou filtro entre o ser e o lugar. quero achar uma resposta consistente como alívio de janela aberta para o sol depois de muitos dias de nuvem, como respiração desobstruída depois de pesadelo de sufocamento. mas não tenho as perguntas certas. »

Diana Z. , Outra Parte

( DA TRANSITORIEDADE OU «vou juntar as minhas pequenas felicidades, quem sabe um dia alcançarei uma

Às vezes é assim, não é? Algo nos falta algo essencial. Não é roupa. Não é um portátil. Não é mais um ordenado. Nem mais um texto. Nem mais um beijo. Nem ninguém. É algo sem corpo. Nem sequer é um lugar.

É uma ideia. Uma ideia de um lugar. De um cenário. É o bar onde em Vigo eu vi dançar o molineiro. É mesmo uma ideia de algo. Um som. Um cheiro a humidade. Sabes? É isso.

Podia ser qualquer coisa que eu quisesse: podia ser vendedora na Zara, podia trabalhar na lixeira pública e não deixaria de ser nunca assim.


Dito pela minha grande amiga L.B.

( QUANTAS VEZES FOSTE TEMPESTADE? )

O ruído da tempestade ressoa e destrói. Invade. Entra sem permissão.
Faz tremer as bases da construção.
Venta de um lado ao outro, não resta folha de árvore no chão. A casa deixa de ser, por momentos, o lugar ideal. Vê-se que é frágil. Sente-se que também estremece.
A menina encolhe-se no chão, braços a envolver os joelhos, branco do relâmpago a respingar a escuridão de luz ilusória. Adulta por fora, menina por dentro. O medo domina-a durante a tempestade. Fecha os olhos com muita força, chora baixinho e pede: « Deus faça com que tudo passe depressa, por favor ».

A menina espera que o dia se mostre através da janela.

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