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Chá de Menta

Chá de Menta

I am half agony, half hope | Jane Austen

Fresta.

Os meus pés esfriam em contacto com o chão. A casa está silenciosa. Os dedos percorrem as teclas. O dedilhar interrompe a quietude. A chuva cai incessante. De onde estou, olho para a janela e vejo a cortina entreaberta. Uma fresta de rua está intacta, do lado de fora. Vejo as gotas a atravessarem a lâmpada do poste de luz. Parecem rabiscos de crianças feitos num papel amarelecido.

Diferentes contextos.

Ontem encontrei três amigas de diferentes contextos. Com cada uma eu tenho uma história de companheirismo diferente. São pessoas especiais a quem dedico um sentimento de gratidão e ternura. Sou devedora de lhes dedicar mais do meu tempo e atenção. Sou culpada por estar absorta pelos meus próprios problemas e angústias. Às vezes, perco-me dentro da minha própria imperfeição.

Encontrei-as por mero acaso, e num dia significativamente marcante. Um sinal para eu relembrar que a duração da tormenta pode ser longa, mas um dia passa.

Degraus.

Concretizar uma etapa gera uma grande satisfação interna. A perfeição da obra é uma preocupação que atormenta durante todo o processo, mas que perde algum do seu peso e significado, aquando da sua finalização. Ver um plano a ser materializado é inigualável. Finda a etapa, prevalece uma sensação de alívio por chegar ao fim e, ao mesmo tempo, um gosto de vazio...

Abraçar desafios leva-nos a percorrer degraus. O cansaço e a falta de ar na subida são consequências inevitáveis. A recompensa é sentir sair das costas o enorme peso que a responsabilidade, por vezes, nos impõe.

"Querer".

 

« Querer - não ter tempo de não ter tempo... porque eu quero que a vida passe por mim, mas comigo. Quero poder ver o sol nascer enquanto puder, e despedir-me dele enquanto me deixar. Quero sentir na pele o vento salgado que vem do mar, quero retribuir-lhe por contemplação. Quero conhecer oportunidades, momentos e pessoas. Quero guardar momentos, pessoas e memórias. Quero lembrar pessoas, memórias e vidas. Não quero esquecer memórias. E quero presenciar vidas. Quero partilhar vitórias com quem de direito. Com quem eu sou eu, com quem o nós só faz sentido. Quero sorrir sem motivo. Quero aproveitar. Não quero deixar de sonhar nem perder a força e vontade de tentar. Quero não me arrepender. E quero dar a volta ao meu mundo. E queria que ainda estivesses aqui, neste tempo. Pudera eu trocar todos os meus quereres... »

Escrito por D., no blog Leite de Creme.

Deslumbramento. (1)

Esta semana tenho escrito pouco. Todos os dias dedico um tempo para ver os meus blogs preferidos e para conhecer novos blogs também. E nesta semana aconteceu-me uma coisa estranha. Dei por mim deslumbrada com alguns blogs. Há blogs que já me deslumbravam, cada um por motivos diferentes. Escrita, conteúdo, imagens, senso de humor, verdade, sinceridade, e partilha são factores que me despertam a atenção. A medida que o tempo passa (e já leio alguns blogs há muito tempo) percebo que há grandes pessoas neste meio. Não sei se me faço entender com esta afirmação. Não estou a falar de popularidade. Estou a falar de pessoas que trazem dentro de si algo de belo e de brilho, que transborda a superfície de um ecrã. E isso me deslumbra. Todos os dias eu aprendo, me comovo, sofro, rio (sorrio também), irrito-me e reflito por causa do que tenho lido. Inúmeras são as vezes que leio algo e vejo em determinada pessoa um gosto ou pensamento em comum. Por outro lado, também encontro ideias opostas, e isso representa sempre um desafio.

O Pedro do Icosaedro disse há uns dias que "o nível de partilha de experiência proporcionada por um blog é, para mim, fascinante e revolucionário". Concordo.

Sobre telejornais.

«Sempre houve e haverá um combate inevitável entre a Subjectivização da realidade e a sua Objectivação. E é esse combate que, sendo incontornável, hoje está mais vivo do que nunca. Veja-se a homogeneização dos "telejornais". Como se de repente fossemos como que obrigados a crer que a realidade é um telejornal. Talvez o seja, para quem só vê telejornais. Mas só um idiota é capaz de pensar que não existe mais realidade para além de um ecrã. Talvez um ecrã seja o novo espaço de acolhimento dos desligados do "mundo objectivo": Asilos pós-modernos.»

Transcrevi este trecho de "A Escrita dos Olhares", de Isaac Pereira. Acho que foi o melhor post que eu li sobre os telejornais. Um espaço a visitar e a fidelizar.

Vestígios de casa. (3)

Somente após o apelo das cigarras, é que a tarde começava a cair. No ar hesitava um cheiro meio acre a mornidão. Um fim de dia se firmava na lua, tímida palidez no céu. Primeiro uma, depois duas, no minuto seguinte eram milhares de cigarras. As cantoras invisíveis, habitantes da vegetação densa. A pele respira este apelo das cigarras, de que a noite em breve vem, de que o dia deixou de ser. Lentamente.
Sentada no muro do terraço assistia a tudo isso impávida. Pés descalços a balançar, a reunir todos os detalhes. A alimentar a minha ânsia de pertença.
Se eu fechar os olhos ainda as posso ouvir, distantes. As cigarras.
Se eu fechar os olhos sei que posso transformar a saudade em presença.
A duração não importa quando se sente de forma plena.

Sobre o "dito pelo poeta".

Gosto de pensar que o poema é « rigor e desmedida », « um sim e um não, e ainda um plácido talvez ».
Mas gosto ainda mais de pensar que neste equilíbrio entre opostos, estamos todos nós - enquanto leitores - desconstruindo e construindo o poema, num processo interminável ( ou não? ) de significações.
O leitor também é um ser solitário.

Dito pelo poeta.

« Cada poema tem a sua história, é um fragmento de uma existência secreta, um estilhaço de biografia do poeta - embora o amador de versos deva ser alertado para a evidência de que, quer atravessando o claror do dia ou a misteriosidade da noite, o poeta é o portador de uma sinceridade sempre ungida pela mentira inerente à criação poética. A poesia é a voz ou a linguagem do outro: uma linguagem pessoal e intransferível dentro do sistema poético que representa a culminação estética da numerosas linguagens tribais e triviais que formam a língua de uma nação. E essa linguagem diferente é uma máscara; um esconderijo; uma metáfora; um dizer sempre outra coisa.

Assim, um poema é ao mesmo tempo verdade e mentira, rigor e desmedida, contenção e efusão, carência e exorbitância, magia e pesadelo, razão e desrazão. É um sim e um não, e ainda um plácido talvez. É mito e desmito. Possui incontáveis sentidos. Artefato verbal, completo em si mesmo, vivendo e respirando o ritmo de sua integridade e concretitude, e ainda o de suas abstrações, graças a um feliz agenciamento de sons e signos, de palavras tornadas imagens e de imagens tornadas palavras, de rimas e contra-rimas, de métricas e contramétricas, o poema pode, contudo, ser recriado e até danificado por qualquer leitor, que lê nele o que deseja ler, e o reescreve mentalmente à sua vontade, como se fosse um ditoso suplente de criador ou um ajudante de mentiroso.

E esta operação do leitor há de ser, sempre, o sinal de eficiência e da serventia do poema, do poder que tem o poeta de converter a sua aventura pessoal numa dádiva pública. Testemunha indesejável ou conviva deslumbrado, falando pelos que não têm voz - seja a voz política do humilhado e ofendido que atravessa a rua ou a voz amorosa do homem ancorado numa mulher - e cantando em nome dos seres desprovidos de linguagem, o poeta jamais está sozinho. Ele não sabe distinguir o seu começo e o seu fim. Sua solidão é ocupada pelo rumor interminável do mundo. É um ser solitário e solidário; uma criatura colectiva. »


por Lêdo Ivo, "Os Melhores Poemas de Lêdo Ivo", Global Editora, 1983.

(obs. tomei a liberdade de destacar algumas palavras e expressões que me agradaram neste excerto)

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